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Comissão da Verdade revela que militares queriam matar Glauber Rocha

Divulgação/Comissão da Verdade do Rio de Janeiro
Documento emitido pela Aeronáutica em 1971 determinava a morte de Glauber Rocha, avalia Comissão da Verdade do Rio de Janeiro Imagem: Divulgação/Comissão da Verdade do Rio de Janeiro

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

16/08/2014 13h21

Documentos da época da ditadura, descobertos recentemente, revelam que os militares monitoravam cineastas brasileiros e que o diretor Glauber Rocha, um dos nomes mais importantes do Cinema Novo, esteve marcado para morrer.

Na primeira página do documento, datado de setembro de 1971, a palavra "morto" está escrita à mão. Ao UOL, a Comissão da Verdade do Rio de Janeiro, que divulgou o documento, afirmou que o aviso era praxe na época para determinar que o indivíduo precisava ser aniquilado.

Na mesma época em que a ordem teria sido dada, Glauber partiu, por vontade própria, para o exílio.

$escape.getH()uolbr_geraModulos('embed-foto','/2014/em-dois-trechos-o-relatorio-cita-artistas-como-gilberto-gil-caetano-veloso-os-cineastas-nelson-pereira-do-santos-e-joaquim-pedro-de-andrade-e-o-dramaturgo-jose-carlos-martinez-como-pessoas-citadas-1408213571568.vm')O relatório produzido pela Aeronáutica descreve Glauber como um dos líderes da esquerda brasileira. A monitoração em torno das atividades do diretor de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e “Terra em Transe” era feita através de entrevistas que Glauber concedia a publicações europeias, sempre críticas ao governo militar e a repressão. Os depoimentos do cineasta eram considerados pelos militares como um “violento ataque ao país”.

Em 1971, Glauber já era um cineasta de destaque no exterior tendo, inclusive, ganhado o prêmio de Cannes. Nas inúmeras entrevistas no exterior, ele citava torturas, massacre de indígenas, execuções, financiamento dos Estados Unidos, Japão, Alemanha como apoio ao regime. 

Além de anexar as entrevistas, os relatórios tecem comentários sobre a vida de Glauber Rocha e sua filmografia. "Seus desejos são de um comunista convicto, à serviço do imperialismo soviético. Demonstra que usou e abusou do cinema brasileiro, do qual recebeu auxílios e incentivos, em prol da revolução comunista".

Sobre o longa "Cabeças Cortadas", lançado naquele ano, os militarem dizem: "[Tem] objetivo político que, por meio do simbolismo, demonstra o rancor de Glauber Rocha em relação ao regime vigente no Brasil".

Em outro documento, os militares listam os amigos de Glauber na música, no teatro e no cinema, e comentam suas atividades "achincalhadas".

"Seus comentários a respeito de Carlos Diegues, Nelson Pereira dos Santos, Saraceni, Joaquim Pedro de Andrade, Caetano Veloso, Gil, e José Celso Martinez demonstram, ampliam, os conhecimentos que, embora já sabidos, devem ser sempre lembrados, sobre as verdadeiras finalidades das atividades desses elementos. A situação maléfica que exercem está sempre presente, "bastando lembrar o grande sucesso que, há pouco, tiveram Caetano e Gil em sua temporada no Brasil, onde atuaram até no Teatro Municipal, num achincalho àqueles que combatem a subversão no Brasil", diz o trecho.

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Os documentos serão divulgados neste sábado (16), durante homenagem da Comissão ao cineasta, que acontece no Parque Lage, no Rio de Janeiro, às 15h. Será entregue à família de Glauber uma série de documentos que mostra a importância das denúncias que o cineasta fazia à imprensa e a investigação feita pelos órgãos da repressão. O evento confirmou a presença dos filhos de Glauber, Erik e Paloma, além de Zelito Viana e Silvio Tendler.

A programação termina com a exibição gratuita de "Deus e o Diabo na Terra do Sol", marco no cinema político brasileiro, que completou, recentemente, 50 anos.
 

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