Filmes e séries

Alceu Valença se descobre no cinema e diz que fazer filme é melhor que sexo

Igor Pires/Pressphoto
12.ago.2014 - Alceu Valença, diretor do filme "A Luneta do Tempo" Imagem: Igor Pires/Pressphoto

Mariane Zendron

Do UOL, em São Paulo

O cantor Alceu Valença concluiu há pouco o projeto que mais lhe deu prazer na vida. Não é um novo disco ou show, e sim seu primeiro filme, "A Luneta do Tempo". A afirmação soa exagerada para um artista com mais de 40 anos de carreira, mas é dele mesmo. "É a coisa que eu mais gostei [de fazer] na vida. É melhor do que beber, coisa que eu não faço mais. Talvez seja melhor do que fazer sexo", contou ele ao UOL.

O romance do pernambucano com a sétima arte começou por acaso, durante um encontro com o cineasta Walter Carvalho, há mais de dez anos. Conhecendo a mente sempre em ebulição de Valença, o diretor pediu para ver o que o cantor estava produzindo. "Tinha começado a escrever umas coisas como se fosse um cordel. Como escrevo muito, não sabia muito bem o que fazer com aquilo. Waltinho leu e disse: 'Isso é cinema'".

A ideia era que o próprio Walter Carvalho dirigisse o filme, mas o cineasta já estava comprometido com outro projeto, o filme "Budapeste". Andrucha Waddington apareceu como outra opção para o posto, mas também tinha outros planos, no caso filme "Casa de Areia". "Pensei: 'Sabe de uma coisa? Quem vai fazer esse filme sou eu'", lembra o cantor. Valença disse que teve apenas dez aulas sobre cinema com uma amiga e aprendeu o resto sozinho, com a ajuda de livros e muitos filmes.

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"A Luneta do Tempo" ainda não tem previsão de estreia, mas fez sua primeira exibição no Festival de Gramado, de onde saiu com os prêmios de melhor direção de arte e melhor trilha musical.

Conduzir uma conversa com Valença não é das tarefas mais fáceis --ele fica contrariado quando é interrompido no meio de suas histórias fantásticas. Mas ele falou com prazer sobre o processo árduo do filme, sua relação com a política e sobre seus fãs ilustres. Em março deste ano, Richard Perry, da banda Arcade Fire, disse ao UOL que a música de Valença é arrebatadora. "Fiquei sabendo disso, mas eu nunca ouvi a música dele. Eles são meus fãs, mas eu não sou fã deles", diverte-se. 

UOL - Depois de 40 anos de carreira na música, como foi estrear no cinema?
Alceu Valença - É um filme de autor que não se curva a nada do comércio. É um filme que eu tenho certeza de que vai bater no coração das pessoas. Não precisei me guiar por nenhum ícone do cinema, apesar de admirar muitos. Fiz um filme meu e o nome disso é cinema de autor. Escrevi o roteiro, cantei, mas não é filme sobre cantor.

É sobre uma int riga entre irmãos, certo? 
Como que a gente chama isso? É um...

Épico?
Não.

Cinema de autor?
Não. Quando não é verdade...

Ficção?
Isso, o filme é uma ficção. O filme se passa no interior do Nordeste, porque eu sou do Nordeste e do interior. Eu gosto de mostrar o que eu vivenciei. Não poderia mostrar a cultura do Texas porque eu não vim do Texas. Também fica difícil para um cineasta texano mostrar a cultura de São Bento do Una [cidade onde cantor nasceu]. Conheço bem a cultura do Brasil profundo.

Qual é a responsabilidade de Walter Carvalho em sua carreira como cineasta?
Por acaso, eu o encontrei no Teatro Rival, no Rio, e eu acabara de escrever um texto. Ele leu e disse: "Isso é cinema! Vamos fazer?", e eu disse: "Bora". Mas o Waltinho foi fazer o "Budapeste". Pensei no Andrucha [Waddington] para dirigir o filme, mas ele também já estava com "Casa de Areia". Pensei: "Sabe de uma coisa? Quem vai fazer esse filme sou eu. Vou estudar e vou fazer o filme". Uma gaúcha chamada Alessandra Alves, casada com o ator Aramis Trindade, me deu umas aulas de cinema e ela é uma boa professora. Ela me deu de dez a 15 aulas de cinema.

Só isso? 
Pouco mesmo, mas ela é uma boa professora. Comprei, então, um livro de roteiro do Doc Comparato [roteirista], comprei outros livros e comecei a ler literatura de cinema. Depois assisti a muitos filmes para poder me familiarizar com a linguagem cinematográfica, para aprender a fazer os planos. Queria aprender a técnica. 

E isso tudo em quanto tempo?
Ah, muito tempo, uns dez anos, mas em cinco eu já sabia bem. Eu andava com uma câmera digital filmando tudo, tinha mania disso. Aí comecei a fazer um trabalho original. Comecei a fazer a trilha sonora antes de o filme existir.

Deve ter sido difícil porque a trilha acompanha todo o filme e você pensou a trilha primeiro, certo?
Eu já imaginava o filme. Todas a vozes foram feitas por mim, fiz voz de mulher, voz de velho, voz de menino, de menina, fiz boi [imita o som do boi], fiz pássaro [imita o som do pássaro], toda a trilha. Fiz várias vezes essa trilha porque, quando eu modificava o roteiro, eu modificava a trilha.

Como decidiu escalar Irandhir Santos e Hermila Guedes para o elenco? 
Eu tinha visto Irandhir duas vezes. Uma vez em "A Pedra do Reino", um especial feito pela Globo. Eu disse: "Esse ator é do caralho". Depois eu o vi em "Baixio das Bestas", de Claudio Assis. Irandhir foi lá em casa e mandei ele fechar o olho para fazer o Lampião. Depois pedi para ele falar comigo como Lampião. Eu gostei. Levei ele para o estúdio para ouvir o filme e ele topou na hora. A Hermila ficou meio reticente, mas ele entendeu na hora. Os atores tinham que ouvir aquilo para entender o ritmo do filme, a melodia. 

As pessoas estão muito curiosas em saber como vai ser seu primeiro filme. 
Acho que enxergam em mim essa resistência de não se vender ao consumo. Acredito muito na minha doidice. Essa minha doidice é a maior lucidez que eu tenho. Ser lúcido é ser louco. Todo artista tem que ter um pouco de loucura, senão ele não é artista, apenas faz parte da indústria de entretenimento.

Gostou desse negócio de fazer cinema? Quer fazer de novo?
É a coisa que eu mais gostei na minha vida. É melhor do que beber, coisa que eu não faço mais.

É melhor do que fazer música?
Talvez seja melhor do que fazer sexo.

Você soube que um dos integrantes da banda Arcade Fire gosta muito do seu trabalho?
Eu soube, mas eu nunca ouvi a música deles, não. Eles são meus fãs, mas eu não sou fã deles [cai na gargalhada].

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