Cinema

Premiada em Brasília, Maeve Jinkings viveu crise antes do sucesso no cinema

Mariane Zendron

Do UOL, em São Paulo

Saindo de um casamento e recém-formada na faculdade de artes dramáticas da USP, a atriz Maeve Jinkings passava por uma crise em 2010. Nascida em Brasília e criada em Belém (PA), ela começou a se sentir sufocada na capital paulista, onde morava havia dez anos. Naquele ano, foi convidada pelo padrasto pernambucano a passar o Natal em Recife para descansar um pouco e repensar a vida. A ideia era ficar apenas 15 dias, mas Maeve adiou sua volta cinco vezes. "O clima e a vegetação de Recife me lembravam Belém. A movimentação cultural me lembrava São Paulo. Lembro de ter sentido que havia encontrado o meio do caminho", contou ela ao UOL durante o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Um mês e meio depois, ela voltou para São Paulo, mas para empacotar as coisas e se mudar de vez para Recife, onde, após mais alguns meses, foi selecionada para entrar no elenco de "O Som ao Redor" (2012), longa de Kleber Mendonça Filho responsável por uma reviravolta em sua carreira. Desde então, ela já trabalhou em outros dez filmes. "Às vezes, adoeço como qualquer pessoa que trabalha demais, mas me apaixonei por todos esses trabalhos."

Divulgação
Maeve Jinkings em cena do filme "Amor, Plástico e Barulho" imagem: Divulgação

Desses dez projetos, nove são pernambucanos, o que mostra que identificação de Maeve com Recife é recíproca. "Um amigo uma vez me disse que os pernambucanos são meio desconfiados com quem vem de fora, mas rolou uma simbiose comigo. Até pessoas de lá acham que eu sou pernambucana."

Antes daquelas férias reveladoras em Recife, Maeve já havia participado de um longa, "Falsa Loura", de Carlos Reichenbach, a quem se refere como seu pai no cinema. No entanto, sua formação é teatral, e foi com "Som ao Redor" que as portas do cinema se abriram de vez. "'O Som ao Redor' é extremamente importante como obra, mas Kléber é um aglutinador de pessoas, e o filme me proporcionou muitos encontros."

Um de seus últimos encontros foi com diretor Cláudio Assis no filme "Big Jato", no qual trabalhou como preparadora de elenco. O longa é inspirado no romance homônimo e autobiográfico de Xico Sá, que deve chegar aos cinemas em 2015. O convite veio depois que Maeve preparou o jovem elenco do curta "Sem Coração", de Nara Normande e Tião. Ela nunca havia trabalhado como preparadora, mas topou o desafio pela afinidade com os diretores do projeto.

No entanto, o que ela gosta mesmo é de se reinventar como atriz. Para isso, diz usar o método de atriz/autora, que aprendeu quando estudava na escola de teatro de Antunes Filho. "O ator não é só um intérprete. O ator tem que trazer sua visão, sua marca. Você usa o texto como ponto de partida, como plano de voo. Acho que tem a ver com implodir essas palavras que estão no roteiro."

Essas "implosões" garantiram a Maeve neste ano o prêmio de melhor atriz em curta-metragem do Festival de Brasília, com "Estátua!", de Gabriela Amaral. Com atuação elogiada pelos críticos, ela vive no filme uma babá que começa a ficar aterrorizada com a maternidade ao cuidar de uma menina de 8 anos. Outro curta exibido e premiado em Brasília, "Loja de Répteis", também traz Maeve no elenco e pode ser visto no Festival do Rio, a partir do dia 30 deste mês (veja aqui a programação).

Questionada se gostaria de se aventurar na TV ou em projetos mais comerciais --como fizeram os colegas Irandhir Santos ("Meu Pedacinho de Chão") e Jesuíta Brabosa ("O Rebu"), que hoje estão em projetos da Globo após se destacar no cinema autoral--,  a atriz conta que já recebeu convites, mas que ainda não se identificou com nada que lhe foi proposto. "Não tenho nada contra a TV, mas, de fato, os projetos que aparecem no cinema têm me seduzido, me abduzido, de uma forma mais forte. Mas não significa que não possa fazer TV num futuro próximo. Eu não fecho as portas. Seria muito preconceituoso dizer que não quero falar nesse ou naquele lugar."

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