Filmes e séries

Mostra de São Paulo traz obras-primas e tesouros escondidos de Almódovar

Chico Fireman

Do UOL, em São Paulo

15/10/2014 06h30

Pedro Almodóvar tira sarro há quarenta anos. Seus filmes se tornaram simbólicos porque sua anarquia colorida, ao mesmo tempo que celebra a intensidade do espírito latino e guarda um discurso político que já não precisa mais ser verbalizado, é naturalmente sarcástica. Por isso, parece ironia que justamente quando é o principal homenageado de uma edição da quase quarentona Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o cineasta espanhol mais influente dos últimos trinta anos não possa vir à festa.

Almodóvar passou recentemente por uma cirurgia nas costas e está impedido de fazer longas viagens de avião. “O convite ainda está lá, quem sabe ele não aparece?”, brinca a diretora da Mostra, Renata de Almeida. Mesmo assim, o diretor assinou o cartaz do evento, que tem a tradição de convidar cineastas para a função, e vai ter 15 dos 20 longa-metragens que dirigiu exibidos na Mostra. Apenas “Matador”, e os mais recentes “Má Educação”, “Volver” e “Abraços Partidos” não serão apresentados nas duas semanas do festival, que começa nesta quarta-feira (15). 

A homenagem ao espanhol segue a linha que a Mostra adotou nos últimos anos: escolher diretores mais conhecidos para ganhar retrospectivas dentro do evento, como aconteceu com Stanley Kubrick no ano passado. E Almodóvar é um dos diretores estrangeiros mais adorados no Brasil, desde que seus filmes começaram a ganhar prestígio internacional. Nestes quarenta anos, é possível perceber a evolução de sua maneira de filmar, que ficou mais elegante e segura e menos desbocada, mas sem perder a ousadia, as temáticas e as características cromáticas de seu cinema.

O deboche e os parceiros de longa data Carmen Maura e Antonio Banderas --estrelas de seus primeiros trabalhos, como “Pepi, Luci e Bom e Outras Garotas de Montão” e “Labirinto do Paixões”-- continuaram nos filmes feitos numa segunda etapa, em que seu nome já era conhecido mundo afora. Filmes como “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos” e “Ata-me!” ilustram essa época. Com “A Flor do Meu Segredo”, com outra companheira das antigas, Marisa Paredes, inicia o que muita gente chama de sua fase mais madura, que se cristaliza com “Tudo Sobre Minha Mãe” e “Fale com Ela”.

Nos últimos anos, entre altos e baixos, mantém sua popularidade e seu prestígio,  e encontra seu ápice em “A Pele que Habito”, em que retoma a parceria com Banderas. Há pelo menos duas décadas, seu nome é quase uma unanimidade no circuito de filmes de arte do Brasil. “Vamos ver o novo Almodóvar” possivelmente só encontra par com “vamos ver o novo Woody Allen”. Embora tenha engolido alguns sapos nos últimos tempos, o espectador sabe bem o que vai encontrar num filme do espanhol: latinidade, sarcasmo, uma paleta de cores bem marcada e uma tentativa quase sempre válida de dar voz ao underground.

Selecionamos a seguir três obras-primas para rever e outros três tesouros escondidos para conhecer na Mostra.

Três obras-primas para rever

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    "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos" (1988)

    O primeiro grande sucesso de Almodóvar tem várias cenas memoráveis, como a perseguição de motocicleta por Madri, mas sua maior importância é de ter espalhado pelo mundo as marcas do cineasta. Carmen Maura lidera um elenco feminino impecável. Banderas também estava lá. As piadas estão no lugar certo e o kitsch de sempre ganha toque mais estilizado. Impossível não embarcar naquele táxi de oncinha.

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    "Tudo sobre Minha Mãe" (1999)

    Este belo melodrama sobre maternidade talvez seja o filme mais universal de Almodóvar. Abraça tudo: referências cinematográficas ("A Malvada"), teatrais, travestismo e a dor do luto. Cecilia Roth, veterana parceira do cineasta, parte numa jornada em busca do pai de seu filho morto. Comanda um elenco feminino em que cada grande atriz empresta uma perspectiva para a homenagem do diretor às mulheres.

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    "Fale com Ela" (2002)

    O filme que deu a Almodóvar o Oscar de roteiro é provavelmente o mais bem dirigido do cineasta. Uma obra com um grau de refinamento em relação a suas duas anteriores, mas que preserva o lado provocador. É um filme sobre amor, mas é um filme doentio sobre amor. O personagem de Javier Cámara é extremamente incômodo, apaixonante e repulsivo. Nunca Almodóvar tinha feito um protagonista tão paradoxal.

Três tesouros mais ou menos escondidos

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    "Labirinto de Paixões" (1982)

    O terceiro longa do diretor não tem grandes pudores. Conta uma história nonsense (o amor entre a jovem ninfomaníaca que faz parte de um grupo musical violento e o filho de um imperador árabe que se esconde de terroristas) com um sarcasmo delicioso. Um filme livre de amarras, com um elenco comandado por Cecilia Roth. Da época em que o diretor não tinha vergonha de nada, nem de ser escatológico.

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    "Maus Hábitos" (1984)

    Esta é a maior blasfêmia de Almodóvar e um de seus filmes mais ousados - e deliciosos. O diretor nunca havia sido tão amoral e tão sem pudores e limites. E possivelmente nunca mais foi tanto. Estamos num convento em que as freiras vivem suas perversões. Almodóvar escracha com a igreja na base do deboche. Mais libertário, impossível. No elenco, Chus Lampreave, Carmen Maura e Marisa Paredes.

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    "A Lei do Desejo" (1987)

    O filme coroa a primeira fase de Almodóvar. É, entre seus longas mais antigos, o mais complexo, aquele que assume a temática homossexual. O cineasta invade este universo em dois irmãos. Eusebio Poncela é diretor de filmes e peças engajado, que se envolve com um homem mais jovem; Carmen Maura é a travesti vítima de abuso do pai. Sexo ousado, humor afiado e uma história de crime seguem lado a lado.

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