Cinema

"Relatos Selvagens" cruza linha entre civilização e barbárie, diz diretor

Mariane Zendron

Do UOL, em São Paulo

Indicado pela Argentina para concorrer ao Oscar de filme estrangeiro, "Relatos Selvagens", do diretor Damián Szifrón, arrancou risadas e aplausos da plateia de mais de 800 convidados da abertura da 38ª Mostra de São Paulo ao trazer histórias de vingança com muita violência e humor negro. Nas cenas, facas, bombas, carros e aviões são usados no momento em que os personagens do longa _que é dividido em seis histórias curtas_ perdem o controle e resolvem detonar o motivo das suas frustrações.

Entre o público, o riso que se ouvia não era aquele do tipo nervoso, comum em sessões de filmes de terror, mas gargalhadas libertadoras, que pareciam se ver "vingadas" de alguma forma por ver o longa. O que faz pensar que, em tempos de cisão, tensão e ódio pré-decisão eleitoral, um filme como esse pode servir como válvula de escape para o público.

Tudo o que é evitado, por motivos óbvios, na vida real, ganha muita liberdade nas seis histórias apresentadas no filme. Uma delas conta com o mais "onipresente" ator do cinema argentino: Ricardo Darín. "É um filme que ultrapassa a fronteira da civilização para a barbárie. Espera-se que você não se deprima, que procure um psicólogo, mas ninguém está esperando uma explosão", disse o diretor Szifrón, em encontro com jornalistas em um hotel em São Paulo. Também responsável pelo roteiro, ele contou que não é do tipo que tem reações explosivas na vida real, mas o ofício de escritor e diretor é uma forma de transformar a angústia e a ansiedade em algo positivo e artístico.

Em "Relatos Selvagens" há personagens corruptos, assassinos, preconceituosos e, claro, explosivos, mas o diretor retrata suas histórias sem julgá-los. "Escrevi esses contos como divertimento, não tinha intenção de filmá-los", disse. "Gosto que esse momento de loucura apareça aí, no roteiro, porque não estou usando o dinheiro nem o tempo de ninguém. Sou eu e meu caderno". O controle, diz ele, só é assumido no momento da direção. "O improviso eu faço na escrita. Quando chego no set, controlo o improviso, porque quero tocar aquela música que já foi escrita".

Tarantino feelings

Juntar humor e muita violência é marca de outro diretor conhecido do público, Quentin Tarantino, capaz de fazer uma pessoa gargalhar diante de cabeças explodindo. Questionado sobre o quanto de Tarantino há em sua sua obra, Szifrón palpita que ele e o americano são da mesma geração e cresceram vendo os mesmos diretores, como Sergio Corbucci e Enzo Castellari, ambos do gênero faroeste espaguete.

Já sobre abordar a vingança, que o aproxima ainda mais de Tarantino, Szifrón diz que ela é um tema universal e que está muito presente no filme por estar ligada à imaginação de maneira bastante natural. "A vingança é algo que poucos concretizam, mas com que todos sonham", disse.

Trailer legendado de "Retratos Selvagens"

A junção tarantinesca do humor com a violência fez um sucesso estrondoso na Argentina, onde o filme levou mais de 3 milhões de espectadores às salas. A atriz Erica Rivas, que também veio ao Brasil para divulgar o longa, disse que é raro um longa fazer tanto sucesso em seu país e relatou que, lá, a realidade é parecida com a dos brasileiros. "Na Argentina, não estamos acostumados a ver filmes argentinos. Creio que as pessoas prefiram ler as legendas de um filme em inglês a ter que escutar o espanhol."

O filme também foi o único latino-americano a disputar a Palma de Ouro em Cannes neste ano, além de tentar uma vaga no Oscar de melhor filme estrangeiro. No entanto, nem o diretor nem a atriz parecem ligar muito para o grande prêmio de Hollywood. "Para ser sincera, não me interessa muito. Não porque não me interesse estar no Oscar, mas tudo o que já aconteceu com o filme é muito grande. O Oscar não é um lugar onde sonhei estar. Na verdade, não me interessa muito o cinema norte-americano, sua maneira de contar as histórias. Alguns diretores me interessam, mas não são os que chegam ao Oscar."

Ela conta ainda que voltar de Cannes sem prêmios causou certa frustração em alguns conterrâneos, mas concorrer à Palma de Ouro já foi uma vitória para a equipe do filme. "Já sabíamos que não íamos ganhar nada. Latino-americanos que não falam de pobreza e ainda fazem comédia? Nossa! Difícil ocupar esse lugar", contou ela.

Sobre a possível indicação ao Oscar, Szifrón diz que tem uma resposta madura, mas que talvez não seja a sincera. "É importante para quem trabalha no meio, mas, como espectador, me interessam os filmes de que gostei e não os que ganharam o Oscar. Quero me concentrar em fazer filmes que se conectem com os espectadores."

Almodóvar na produção

Mais um ingrediente na formula de sucesso de "Relatos Selvagens" foi ter Pedro Almodóvar, vencedor de não um, mas dois Oscars, como produtor. Ele e seu irmão Augustín assistiram a um filme que Szifrón fez na Espanha em 2005, "Tiempo de Valientes". "Gostaram muito e me disseram que gostariam de produzir algo comigo. Eles se transformaram em vendeiros embaixadores do filme", conta o diretor.

Assim como faz em seus longas, Almodóvar não interferiu no roteiro ou na direção. "Tudo o que recebi deles foi apoio, não recebi nenhuma critica. Ele, como diretor, tem muita liberdade criativa. Creio que, por sua própria ideologia, não poderia ser outro tipo de produtor", conta Szifrón. O longa chega em circuito comercial no Brasil na próxima quinta (23). Haverá ainda mais duas sessões do filme na Mostra: uma no Cinesesc, nesta sexta (17), às 23h45, e outra no Reserva Cultural, no dia 19, às 17h10.

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