Cinema

Filme violento com gangue de surdos choca, mas também causa reflexão

Divulgação
Personagens falam na linguagem dos sinais em cena do filme "A Gangue", de Myroslav Slaboshpytskiy imagem: Divulgação

Mariane Zendron

Do UOL, em São Paulo

Mesmo em um dia e um horário pouco atraentes para a maioria do público, às 14h desta quarta-feira (22), mais de 160 pessoas lotaram a segunda sessão do ucraniano "A Gangue", de Myroslav Slaboshpytskiy, realizada no Shopping Frei Caneca durante a Mostra de São Paulo. Do lado de fora, era possível ver alguns rostos chateados com o esgotamento dos ingressos.

O longa de estreia do diretor ucraniano tem alguns atrativos que justificam sua fama. Além de ter levado o Grande Prêmio da Semana da Crítica em Cannes neste ano, ele foi rodado com atores surdos, é todo falado em linguagem de sinais e não conta com legendas ou narração. O protagonista, Sergey, é um jovem surdo que começa a morar em um colégio internato especializado. Para sobreviver, o novato se junta a uma gangue da escola que, na verdade, comanda uma rede de crime e prostituição.

A coragem e a força do adolescente surpreendem os integrantes da gangue, e ele é rapidamente aceito. Tudo vai "bem" até que o jovem se apaixona por uma das meninas do grupo, o que começa a ameaçar sua organização.

Rodado em planos-sequência, o filme utiliza características do universo dos deficientes auditivos para criar cenas muito violentas. Por exemplo: se alguém é privado de sua audição, nunca vai acordar caso a pessoa que dorme a seu lado seja estuprada ou leve pancadas na cabeça.

Por telefone, o diretor contou ao UOL que a linguagem de sinais e o cinema mudo sempre o fascinaram. Por isso teve a ideia de unir esses dois mundo num filme que pode ser entendido em qualquer parte do mundo. "É um filme com surdos, mas é para todos assistirem", diz Myroslav. Segundo ele, também são universais os problemas enfrentados na adolescência. "Não importa se você é surdo ou não." 

O diretor ainda disse não achar que o filme seja mais violento do que outras produções, algumas até bem populares. "Não acho que o filme seja mais violento que desenhos da Disney, por exemplo. A diferença é que a violência não aparece [em 'A Gangue'] de maneira divertida, como um carnaval. Ela aparece de uma maneira feia, mais próxima da realidade." 

Na sessão de quarta, as cenas de violência e sexo explícito mais impressionantes do filme causaram contorções nas cadeiras, além de fazer alguns espectadores levarem as mãos ao rosto ou exclamarem "nossa!". Terminada a sessão, no entanto, as experiências que os "mostreiros" tiveram com filmes de outras edições do evento parecem ter amenizado o impacto do longa. "Esperava que fosse mais violento", disse o produtor de cinema Guilherme Ferrara. Segundo ele, "Miss Violence", exibido na Mostra de 2013, chocou bem mais por mostrar violência contra a mulher.

Já o promotor de Justiça Mauricio Ribeiro afirmou que "Irreversível", exibido na Mostra em 2001, é bem mais chocante. "Também acho que o silêncio e a ausência do grito dos personagens diminuem o impacto", avalia. Mulher de Ribeiro, a defensora pública Flávia D'Urso, por sua vez, não concorda. Para ela, que se impressionou com a proposta do diretor, o silêncio não diminui a violência. "Impressionante como não é necessária uma única palavra para entender a história", diz.

Do lado de fora da sala de cinema, o aposentado Sérgio Nunes e o bancário Aldo Botelho também concordavam que "A Gangue" lembra "Irreversível" e "Miss Violence". Para Nunes, uma cena na qual é mostrado um aborto é a mais chocante em "A Gangue" . "Mais pela frieza de como é conduzido" do que pelo realismo. Apesar do que era esperado, o filme causou mais reflexões nos espectadores do que repulsa ou choque pelas cenas fortes.

Há ainda três chances de ver o filme, um dos mais comentados da Mostra. Veja a programação: 

"A Gangue" na 38ª Mostra de São Paulo 

Dia 26/10 - 21:45 - Cine Livraria Cultura 1

Dia 27/10 - 21:30 - Cinesala Sabesp

Dia 28/10 - 21:30 - Cinesesc

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