Filmes e séries

"O Exterminador do Futuro" faz 30 anos, e ainda pensamos no amanhã

Roberto Sadovski

Do UOL, em São Paulo

26/10/2014 05h00

Um dólar. Foi por essa "fortuna" que James Cameron vendeu seu roteiro de "O Exterminador do Futuro" para a produtora Gale Anne Hurd. A condição? Que ele fosse o diretor do filme. Ela topou, Cameron fez seu trabalho e o resto é história. História que neste domingo, 26 de outubro, completa três décadas. O longa de ficção científica, um amálgama de ideias e influências de Cameron, lhe deu uma carreira, fez de Arnold Schwarzenegger um astro e apresentou ao mundo um dos ícones modernos do cinema pop.

O caminho, claro, não foi tão fácil. O conceito do filme veio a Cameron em um sonho bizarro, quando ele lançava seu primeiro longa como diretor, "Piranha 2: Assassinas Voadoras": um torso metálico o perseguia, segurando facas de cozinha. Ele discutiu a ideia com seu parceiro, William Wisher, e misturou com pitadas de "Mad Max 2", episódios da série "The Outer Limits" e influências nada veladas do trabalho dos escritores Ray Bradburry e Harlam Ellison –este último processou Cameron e os produtores devido à semelhança do roteiro com dois de seus episódios de "The Outer Limits": “Soldado” e “Demônio da Mão de Vidro”. Ellison fez um acordo antes de ir à julgamento e ganhou crédito no filme –o que Cameron, que insiste não ter havido plágio, ainda ressente.

Não que, à época, o diretor tivesse muita escolha. Ele havia demitido seu agente, que não gostara do roteiro, e estava morando em seu carro. Gale Anne Hurd (que depois se casaria com Cameron) era assistente do produtor de filmes B Roger Corman e acreditou na história. Os dois levaram o projeto para a Orion Pictures, que aceitou distribuí-lo depois de Hurd acertar o financiamento com o independente Hemdale Pictures. O orçamento enxuto de US$ 4 milhões (depois inflados em mais US$ 2,5 milhões) mostrou o desinteresse da Orion, então distribuidora de filmes “nobres” como "Zelig" e "Amadeus", em investir num filme que eles acreditavam não passar de ficção científica "trash" para levantar dinheiro fácil e raso.

Schwarzenegger: de herói a vilão

Arnold Schwarzenegger entrou na história por indicação do presidente da Orion, que o apontou para o herói da trama, o viajante do tempo Kyle Reese, que volta de um futuro pós-apocalíptico para salvar Sarah Connor, a mãe do futuro líder da resistência humana contra os robôs. Sua função seria destruir o Exterminador enviado pela inteligência central das máquinas, Skynet. Cameron não gostou da ideia, já que seu robô assassino teria de ser alguém muito maior. Ele planejava se livrar de Arnold, mas, em seu primeiro encontro, o diretor gostou das sugestões que o austríaco deu para a condução do vilão, gostou de seu sotaque quase robótico, gostou de sua disposição. Em seguida, dispensou a opção do estúdio para o Exterminador: O.J. Simpson –inoricamente, Cameron o achou muito “bonzinho”, alguém incapaz de cometer um assassinato... –, colocou Schwarzenegger como o robô do futuro e completou o elenco principal com Michael Biehn (como Reese) e Linda Hamilton (Sarah).

A produção foi para o Canadá e seguiu com pouca interferência da Orion. Enquanto trabalhava com seus atores, Cameron deixou para Stan Winston o trabalho de criar o esqueleto metálico do Exterminador. De volta a Los Angeles, a equipe trabalhava de madrugada, e Cameron terminou reescrevendo várias sequências no set: ele percebeu que a presença de Schwarzenegger de certa forma elevava o senso de perigo da trama e aproveitou as limitações do ator ao máximo, criando um personagem crível e icônico. A frase “I’ll be back”, dita pelo Exterminador antes de destruir uma delegacia, foi modificada do original “I’ll come back” e se tornou uma das marcas registradas da história.

Nos bastidores, a Orion continuava sem acreditar na visão de James Cameron. Para o estúdio, o filme devia terminar de forma mais otimista, logo depois de o robô explodir com um caminhão-tanque. Cameron bateu o pé e rodou o clímax, com o endoesqueleto perseguindo Sarah Connor em uma fábrica. A cena do crânio metálico esmagado por uma prensa foi acrescentada depois de a produção ter sido amarrada. Para o lançamento, o estúdio sequer planejou uma sessão para os críticos –o que poderia indicar que eles não confiavam na qualidade do filme. Cameron mais uma vez interveio, e seu trabalho ganhou aplausos entusiasmados e críticas esfuziantes, com a revista "Variety", que elogiou seu talento em criar uma “história em quadrinhos cinemática” acelerada, com performances sólidas e uma trama atraente. Até Schwarzenegger, que não tem mais que 19 frases no filme inteiro, foi elogiado ao dar vida a um homem-máquina frio, calculista e assassino.

Sucesso absoluto

O público, por sua vez, nunca teve problemas em abraçar o filme. Arnold Schwarzenegger ganhara notoreidade com "Conan, o Bárbaro" (1982) e sua sequência, "Conan, o Destruidor", que chegara aos cinemas em 29 de junho de 1984. Era um astro prestes a estourar. "O Exterminador do Futuro" mostrou ser o veículo perfeito para o ator, que saiu do filme como uma potência de bilheterias, comprovada nos anos seguintes, quando se tornou o maior astro de Hollywood. O filme ficou duas semanas em primeiro lugar nas bilheterias americanas e terminou com US$ 80 milhões em caixa –além de gerar dezenas de imitadores, com um oceano de filmes de quinta categoria com robôs assassinos e viagens no tempo na trama. A aposta de James Cameron e Gale Anne Hurd havia funcionado, e o diretor saiu de "O Exterminador do Futuro" direto para as filmagens de "Aliens – O Resgate", lançado em 1986. "O Segredo do Abismo", de 1989, trouxe o diretor experimentando com efeitos digitais revolucionários que ele colocaria em um outro patamar com o segundo "Exterminador".

E uma continuação seria inevitável, já que muitas ideias de Cameron terminaram engavetadas, entre outros motivos, porque a tecnologia ainda não havia alcançado sua imaginação. Quando ele começou a trabalhar em "O Exterminador do Futuro 2: o Julgamento Final", não seria como um artista ousado, porém sem poder na indústria. Em vez de um orçamento apertado, ele teve inéditos US$ 100 milhões para criar um dos filmes mais espetaculares da história, que conseguiu, entre outros feitos, transformar um dos vilões mais sensacionais do cinema em um herói completo, desta vez protegendo Sarah e seu filho, John Connor, de uma monstruosidade tecnológica, o T-1000, feito de metal líquido. Lançado em 1991, "T2" levou mais de S$ 500 milhões para casa, ficando no topo das bilheterias daquele ano.

Era a hora de James Cameron levar sua mente criativa para outras histórias, e ele se afastou da série depois de ceder seus direitos. O terceiro "Exterminador do Futuro" chegou aos cinemas em 2003, apenas com Schwarzenegger da equipe original e, apesar das críticas, foi um sucesso de público, mostrando o apelo icônico do personagem. Quando um quarto filme foi lançado em 2009, com Christian Bale e sem Schwarzenegger, ficou claro que a série precisava ser renovada. É o que vai acontecer ano que vem com "Terminator: Genisys", que vai misturar diferentes gerações de personagens e Arnold Schwarzenegger, mais uma vez, como o Exterminador.

Embora James Cameron não esteja oficialmente envolvido com o filme, que tem direção de Alan Taylor ("Game of Thrones", "Thor: O Mundo Sombrio"), foi ele quem sugeriu a solução para encaixar Arnold na trama. “Embora o endoesqueleto seja totalmente mecânico, o tecido que o cobre é orgânico”, disse à revista "Empire". “Ele envelhece, e, como seu processador é um computador inteligente, o Exterminador pode ter cumprido sua função e se misturou à humanidade até que sua bateria expire em algumas centenas de anos.” A Paramount, que está bancando o novo filme, já anunciou mais duas seqüências, que devem chegar aos cinemas em 2017 e 2018. A pressa tem um motivo. Em 2019, os direitos de "O Exterminador do Futuro" voltam para as mãos de seu criador, atualmente morando em Pandora e preparando os novos "Avatar". “Pode ser diverido reinventar a série do zero”, brincou. Mas Cameron não faria feio em dizer “I’ll be back.” O futuro está bem ali.
 

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

{{subtitle}}

Essa discussão está encerrada

Não é possivel enviar novos comentários.

{{ user.alternativeText }}
Avaliar:
 

* Ao comentar você concorda com os termos de uso. Os comentários não representam a opinião do portal, a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

Facebook Messenger

Receba as principais notícias do dia. É de graça!

do UOL
Chico Barney
do UOL
UOL Cinema - Imagens
UOL Entretenimento
Cinema
do UOL
AFP
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
Reuters
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
AFP
do UOL
Cinema
Roberto Sadovski
do UOL
do UOL
Chico Barney
UOL Cinema - Imagens
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski

As 25 melhores histórias em quadrinhos da Liga da Justiça

Pincelar as melhores histórias da Liga da Justiça é um trabalho complexo. Não pela falta de qualidade, mas pelo contraste: muita coisa entre os primórdios da equipe e o final dos anos 80 tem mais valor por sua inegável importância histórica do que por seus predicados artísticos. O gibi da Liga, afinal, viveu por anos na sombra da animação Superamigos, e isso deixou o tom das histórias mais ingênuo e infantil até a reformulação pós-Crise nas Infinitas Terras. Mas garimpar todas as fases em décadas de aventuras trouxe boas surpresas e ótimas descobertas - além do perceber que, em boas, mãos, a Liga pode ser incrível! A leitura rendeu algumas conclusões. Primeiro, não há absolutamente nada errado em usar histórias de super-heróis para fazer humor! Segundo, o horrendo período dos Novos 52, que privilegiou forma, ignorou substância e fez um flashback sinistro dos primórdios da Image Comics nos anos 90 (urgh), não foi tão cruel com a Liga. Terceiro, pouca gente escreve e entende os herói tão bem quanto Grant Morrisson e Mark Waid. No mais, a Liga da Justiça, em usas diversas encarnações, ainda é aposta certeira quando o assunto é entretenimento - afinal, só uma equipe criativa muito canhestra poderia melar uma mistura de personagens e personalidades e superpoderes tão diversa e tão bacana! Acredite, se os super-heróis mais lendários do mundo sobreviveram a Extreme Justice, nada é capaz de derrotá-los!

Cinema
Colunas - Flavio Ricco
do UOL
do UOL
do UOL
UOL Cinema - Imagens
do UOL
Reuters
do UOL
do UOL
do UOL
Reuters
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
Topo