Filmes e séries

48 horas na Terra Média: um mergulho nos bastidores de "O Hobbit"

Divulgação/Aeroporto de Wellington
Imagem: Divulgação/Aeroporto de Wellington

Diego Assis*

Do UOL, em Wellington (Nova Zelândia)

31/10/2014 13h52

Desembarcar na Nova Zelândia é como chegar à Terra Média, o mundo de fantasia habitado por hobbits, anões, elfos e humanos criado pelo escritor J.R.R. Tolkien 77 anos atrás. Do vídeo de segurança de uma companhia aérea local aos cartazes dos corredores da área de desembarque, tudo pega carona na "hobbitmania" que tomou conta do país desde que Peter Jackson começou a filmar ali, em 1999, os primeiros três episódios da hoje bilionária adaptação de "O Senhor dos Anéis" para o cinema.

Recebida no saguão do aeroporto de Wellington por uma escultura de 13 m de Gollum, o serzinho pegajoso conhecido dos fãs pelo bordão "My precioussss...", a reportagem do UOL esteve por lá em junho de 2013 para conferir os bastidores das filmagens de "O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos", último longa-metragem da série, que chega aos cinemas do Brasil em 11 de dezembro próximo.

Na ocasião, Jackson havia convocado parte do elenco principal e equipe técnica por uma última vez para mais dois meses de gravações na Nova Zelândia, quartel-general do diretor e da produtora de efeitos especiais Weta Digital, parceira inseparável ao longo dos 15 anos de trabalho nos três filmes de "O Senhor dos Anéis" e de "O Hobbit". Trata-se do que, no jargão da indústria cinematográfica, é conhecido como "pick-ups", quando o diretor volta a algumas cenas do filme para refazê-las, melhorá-las ou criar novas tomadas.

Era uma manhã gelada de quinta-feira quando, junto com um pequeno grupo de jornalistas de outros países, o UOL entrou em Stone Street, complexo de estúdios no bairro de Miramar, que naquele momento abrigava os enormes cenários de Lake Town, da casa de Beorn e da floresta lisérgica de Mirkwood. Espalhados por diferentes galpões de até 2.000 m² e construídos com um realismo impressionante, os sets são constantemente montados e desmontados por um batalhão de funcionários, entre artistas e marceneiros, que se revezam 23 horas por dia esculpindo montanhas, árvores e casas de isopor e madeira de acordo com a agenda da produção.

Assim como o UOL - que teve de assinar um termo de compromisso de não revelar o que viu até o dia de hoje -, ninguém ali pode fotografar, filmar ou revelar nada do que vê dentro dos portões de Stone Street. Com centenas de pessoas envolvidas de alguma maneira na produção, em uma cidade de menos de 400 mil habitantes, são rígidos os esforços para que os segredos sejam mantidos a sete chaves até a data de lançamento dos filmes. Uma simples ida ao banheiro, onde você certamente irá cruzar com figurantes vestidos a caráter, com perucas e espadas a tiracolo, é vigiada de perto por assessores do estúdio.

"Gravando!"
A alguns quilômetros dali, em um morro isolado protegido por seguranças, o ator Martin Freeman está de roupão de banho recebendo orientações de Peter Jackson. Os pés, peludos e desproporcionalmente grandes, e as orelhas pontudas sugerem a presença de Bilbo Bolseiro. A cena é reproduzida ao vivo em um monitor instalado do lado de fora do set, em uma salinha improvisada para receber os jornalistas. Um segundo monitor focaliza Sir Ian McKellen, já como o velho mago Gandalf, com as roupas e os cabelos imundos, aproximando-se calmamente da dupla para conversar.

A cena 337.5, tomada 1, como aparece registrada na claquete, vai mostrar Bilbo lutando contra uma criatura ameaçadora - naquele momento invisível, já que seria mais tarde incluída por computação digital - para depois tirar uma semente do bolso e plantá-la no solo na esperança de uma nova vida nascer. Ao fundo, cenários revelam a cidade de Dale destruída, abandonada, com raízes de árvores crescendo sobre as paredes do que havia sido há algum tempo um centro de prosperidade dos homens. Estamos em um dos momentos mais sombrios de "A Batalha dos Cinco Exércitos", como explica a roteirista Philippa Boyens.

"A única coisa que [Bilbo] sabe é 'Sim, nós estamos diante da morte. Está acontecendo'. Mas ele se recusa a entrar em desespero. Ele tem um lado muito pragmático que diz 'Eu carreguei [esta semente no bolso] e sempre pensei que a plantaria no meu jardim. E agora eu sei que não vou mais poder fazê-lo'. E então ele faz a única coisa que ele pode que é plantá-la ali na esperança de que ela possa crescer", afirma a Boyens.

"É uma jornada longa. Não foram só algumas semanas", completaria, horas depois, Freeman, ainda com o rosto coberto de barro e as roupas esfarrapadas com que Bilbo será revisto em meio à gigantesca batalha que aguarda os personagens no terceiro e derradeiro filme da saga. "Ele mudou, está mais apto a fazer coisas que não teria feito anos atrás, no começo daquela jornada. Tem menos repulsa a sangue ou a ideia de combate que tinha antes."

Astro das badaladas série de TV "Sherlock" e "The Office", o ator inglês de 43 anos e 1,69 m de altura foi incorporado ao time de Jackson apenas na nova trilogia ("O Hobbit"), em 2010, como a versão jovem do tio de Frodo Bolseiro (Elijah Wood), da saga de "O Senhor dos Anéis". De volta à Nova Zelândia havia apenas cinco dias para a fase final de gravações, repetia com paciência as inúmeras tomadas exigidas pelo diretor para cada cena. Entre uma e outra repetição, dava opiniões e fazia pequenas alterações nas falas e na postura.

"O ideal é que seja um processo colaborativo, que vai melhorando. Acho que Pete gosta de ouvir, e eu certamente gosto de falar. Se tem algo que não está funcionando, eu sempre vou dizer. Porque você só percebe quando está fazendo, entende? É como chutar uma bola de futebol: você não sabe para onde ela vai, até chutar. Até que você se escute dizer uma fala, você não sabe se ela vai funcionar ou não completamente", resume Freeman.

Assim, com variações mínimas entre uma e outra, a gravação de apenas quatro cenas, de menos de um minuto cada uma, tomaria o dia todo de Freeman, McKellen, Luke Evans - que interpreta o arqueiro Bard - e de outros 25 figurantes vestidos como elfos, 25 como humanos , 35 como orcs e 280 integrantes da equipe técnica, que a cada pausa aproveitavam para invadir o set e retocar maquiagens, corrigir figurinos e espalhar borrifadinhas de sangue falso pelo cenário.

Reprodução/stonestreetstudios.co.nz
Vista de galpão do estúdio Stone Street, em Wellington, onde ocorreram as filmagens de "O Hobbit" Imagem: Reprodução/stonestreetstudios.co.nz

É o estilo Peter Jackson de trabalho, garantem todos os envolvidos, com um sorriso no rosto. "É desafiador repetir tantas vezes. Mas é o que você faz no cinema, acho. E Pete gosta de várias tomadas, para poder ter muitas escolhas, e em cada uma ele enxerga pequenas nuances. Então, sabe, você só confia no cara e se deixa levar", conta Evans, outro recém-chegado à Terra Média de Jackson, que só agora começa a aparecer em papéis maiores no cinema (ele está em "Drácula: Uma História Nunca Contada", que chegou aos cinemas este mês).

"Eu meio que passo a maior parte do meu tempo preocupado se vamos conseguir ou não filmar tudo. Porque, como diretor, eu tenho uma agenda e um certo número de dias para gravar um filme, e no final desse período temos de ter feito tudo que estava no roteiro", explica o diretor, tirando do bolso da camisa amarrotada duas folhas de papel sulfite com o roteiro das cenas daquele dia.

"Acordo de manhã e fico deitado na cama pensando 'OK, em quantas tomadas podemos fazer isso?'. Porque, dependendo da locação ou do estúdio ou de quão complicado for, em alguns dias a gente consegue fazer seis ou sete tomadas. Em outros, talvez dez ou 12, depende de vários fatores. Então, tão logo eu chego ao set, eu já estou calculando o tempo comigo mesmo. É um pouco angustiante, porque você está sempre olhando para o relógio e pensando 'Deus, a gente já deveria ter resolvido isso 20 minutos atrás. A gente devia passar para a próxima tomada'," revela Jackson, entre um gole e outro em uma caneca de chá que não larga em momento algum do dia.

Espírito kiwi
Mas o clima nos bastidores de um filme de "O Hobbit" não é só de concentração. Longe disso. "A gente está fazendo filmes, não estamos buscando a cura do câncer!", brinca Evangeline Lilly, que, em "O Hobbit", encarna a graciosa elfa Tauriel. "Peter conta piadas o dia todo, está sempre com restos de comida do almoço na camisa, tem esse cabelo todo bagunçado. Ele sempre faz essas leituras de diálogos hilárias em que chega e pergunta 'E se você tentasse assim?'. E então ele faz a sua cara de elfo ou de anão ou de orc e diz a fala. É hilário, especialmente quando ele tenta ser um elfo. Imagine Peter Jackson tentando se passar por um elfo!", diverte-se a atriz, em conversa com a reportagem no dia seguinte, no refeitório comunitário em Stone Street onde horas antes o diretor pegava a mesma fila que todos os funcionários para montar seu prato de comida.

"A atmosfera é muito diferente de qualquer outro set desse tamanho em que eu já estive. Eu colocaria isso na conta de estarmos na Nova Zelândia e que os kiwis [apelido que os próprios neozelandeses usam para referir a si próprios] têm esse jeito muito natural de ser. Eles são bons de trabalhar equipe, é por isso que têm um time de rugbi tão bom. Não há hierarquia - da cozinha ao pessoal da limpeza, passando por maquiadores, figurinistas, eletricistas até Peter, os produtores e o elenco, todos estão contribuindo para esse clima único", diz o galês Evans. "Você meio que deixa seu mundo exterior no aeroporto quando chega e escorrega para dentro da Terra Média quando pousa aqui."

Na esteira dos caminhos abertos por Peter Jackson, que na verdade nasceu e sempre viveu na Nova Zelândia, outros cineastas de peso já passaram temporadas no país produzindo seus blockbusters, como é o caso de James Cameron com "Avatar", Steven Spielberg com "Tintim" e Guillhermo del Toro com "Círculo de Fogo". Entre as séries de TV com episódios gravados lá inclui-se a superprodução da HBO "Game of Thrones". De acordo com dados oficiais, juntas, produtoras de cinema e TV geraram uma receita de US$ 3,1 bilhões para a Nova Zelândia. Para animadores, profissionais de efeitos especiais, designers e artistas de set, o lugar tornou-se uma verdadeira meca. 

"Se você assiste a 'Avatar' e vê o design que criamos para os Na'vi, você vai enxergar que cada pedacinho de fauna e flora da Nova Zelândia está desenhada ali. Nós somos muito, muito sortudos. As pessoas dizem 'Como vocês conseguem inventar tantas criações originais? Parece que vocês nunca copiam de nenhuma outra companhia no mundo'. É porque nós vivemos em um lugar verdadeiramente único", empolga-se Richard Taylor, chefão-fundador da produtora de efeitos especiais Weta Digital.

Mark Pokorny
13.jun.2013 - O jornalista do UOL Diego Assis, no set de filmagens de "O Hobbit", na Nova Zelândia Imagem: Mark Pokorny

Envolvida em produções como "Avatar", "Superman", "King Kong", "Crônicas de Nárnia", "Tintim" e, claro, todos os filmes de "O Senhor dos Anéis" e "O Hobbit", a Weta é um ponto obrigatório de peregrinação para fãs de cinema pop que visitam a cidade de Wellington. Todo ano, são cerca de 150 mil deles que passam pela pequena loja-museu chamada Weta Cave, localizada a poucas quadras da produtora. Muitos dos que se aproximam, garante Taylor, acabam ficando.

"Metade das pessoas que trabalham em nossos workshops vieram de partes diferentes do mundo e só estão aqui porque viram 'O Senhor dos Anéis' e ficaram tão convictas da necessidade de estarem próximas a essa chama que voaram até aqui, alugaram um apartamento aqui na frente, sentaram, esperaram e esperaram por uma entrevista. Um deles fez entrevistas por dois anos e meio até que tivéssemos uma vaga e agora é um dos membros principais da nossa equipe", diz o artista, que coleciona cinco Oscars na estante.

Nas próximas semanas, mais 75 fãs devem desembarcar no país para um tour pelos cenários e instalações usados em "O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos" e, possivelmente, uma sessão em primeira mão do filme ao lado de Peter Jackson. Para alguns deles, a viagem pode não ter volta.

* O jornalista viajou a convite da Warner Bros.

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