Cinema

Para "Êxodo", Ridley Scott construiu cidades egípcias, palácios e pirâmides

Eduardo Graça

Do UOL, em Almería (Espanha)

O cenário é impressionante: no set de “Êxodo - Deuses e Reis” --a adaptação da história bíblica de Moisés pelo diretor britânico Ridley Scott, que estreia no Brasil nesta quinta (25)-- dezenas de bigas, que, com o auxílio de efeitos especiais digitais se tornarão centenas, deixam o palácio do faraó vivido por John Turturro em direção ao campo de batalha.

"A realidade é, quase sempre, muito limitada. E um tanto quanto mais insípida do que nossa imaginação", diz o cenógrafo Arthur Max, primeiro a dar as boas vindas à reportagem do UOL na região seca da Andaluzia, íntima dos cinéfilos pelos faroeste spaghetti - ou bangue-bangues à italiana - de Sergio Leone. "Pense nas pirâmides de Gizé, que eram imponentes para o seu tempo, mas que, se as reproduzíssemos tal e qual, teriam 160 metros de altura. O Ridley quis dar uma incrementada no visual, o que é compreensível. Ah, e este cheiro é sim de cocô de camelo. Eles não param nunca".

Max também é responsável pelo grandioso design de outros épicos comandados pelo diretor de “Gladiador”, incluindo o próprio vencedor do Oscar de melhor filme em 2001. Em seguida, vieram, pela ordem, “Falcão Negro em Perigo”, “Cruzada”, “O Gângster”, “Rede de Mentiras”, “Robin Hood”, “Prometheus” e “O Conselheiro do Crime”.

"Mas nada se compara com a escala do que fizemos aqui. Reconstruímos duas cidades egípcias, Pi-Ramses e Mênfis, dois palácios, pirâmides e um busto gigantesco do faraó Ramsés. Esta é nossa parceria mais trabalhosa. Nós nos debruçamos detalhadamente sobre os épicos bíblicos feitos por Hollywood nos anos 1940 e 1950 justamente para saber o que não queríamos fazer agora. A tecnologia era primária e as atuações são datadas e canastronas", segue Max.

Scott começa o filme com uma recriação do que o diretor diz ter sido a maior batalha de exércitos de bigas de todos os tempos, em Kadesh, entre egípcios e hititas. A derrota dos últimos selou o destino do primeiro império centrado na Anatólia e, para a narrativa de “Êxodo” é o início do confronto entre os dois personagens centrais da história, os quase irmãos Ramsés e Moisés. Mas estes não poderiam ser mais distintos dos personificados por Charlton Heston e Yul Brynner em “Os Dez Mandamentos” de Cecil B. DeMille.

Trailer de "Êxodo: Deuses e Reis"

Moisés e Ramsés

Christian Bale, o Moisés de Scott, é apresentado ora como um líder revolucionário e em outros momentos como um homem em conflito com o aspecto místico da religiosidade, um espelho do Deus vingativo, violento e autoritário do Antigo Testamento. Durante toda a visita do UOL, o vencedor do Oscar de melhor ator coadjuvante em 2010 por “O Lutador” permaneceu à distância, concentrado, treinando golpes de chicote imaginários e se exercitando com uma espada aparentemente bem afiada. Semanas depois, ao encontrar com o repórter na rodada de entrevistas de “Trapaça”, para o qual foi indicado ao Oscar deste ano, não resistiu e brincou com sua fama de irritadiço durante as filmagens.

"Foi melhor mesmo você não ter vindo falar comigo. No set, ainda mais na pele de um sujeito como o Moisés, um líder irascível e contraditório, decidido a libertar seu povo através de métodos tão fantásticos quanto realistas, que poderiam ser considerados até tática de guerrilha hoje em dia, eu não seria tão dócil como em uma suíte de hotel em Nova York. Aliás, justamente por isso, por respeito a meus colegas de set, decidi ser o Christian mesmo quando não estávamos filmando, ou eles não me aguentariam".

De volta ao campo de batalha, o ator australiano Joel Edgerton (“O Grande Gatsby”), ainda acha estranho conversar com jornalistas à sombra de um busto imenso de sua fronte. Ou melhor, do rosto do faraó Ramsés, filho dos personagens vividos por Turturro e Sigourney Weaver. Em uma referência explícita ao “Gladiador”, Scott tomou a liberdade histórica de vestir seus egípcios com saias romanas.

"As saias são mega confortáveis, e devo dizer que em toda minha carreira, foram as mais conservadoras que vesti. Muito mais esquisito é falar com vocês com minha face em escala gigante ao fundo, como se fosse uma escultura minha de pedra. Agora, fazer este filme com o Christian é sensacional. Ele é o cara que faz Batman e segue, ainda assim, buscando a transformação em cada detalhe. Pense em 'Trapaça' e em 'Tudo por Justiça', para ficarmos apenas em filmes mais recentes. Ele criou personagens estudados, pensados, é um ator fenomenal. E um sujeito sério, comprometido com o trabalho, mas que, nesta altura da carreira, quer sim ter um ambiente leve, divertido. Tem sido um privilégio trabalhar com ele", diz.

Edgerton conta que no primeiro dia de filmagem suas cenas foram apenas com Bale, com o auxílio luxuoso de uma cobra. "É uma das primeiras cenas do filme. E foi divertidíssimo, as cobras são sensacionais, você só tem de ser conter para não apertá-las muito. Alguém escreveu que eu tinha sido atacado por uma python e levado para o hospital, mas é tudo mentira. Ah, e elas não são venenosas, garças a Deus. Ou pelo menos foi o que a produção me garantiu", diz, rindo.

Ao contrário do clássico de DeMille, Ramsés, na versão de Scott não é um vilão tradicional. O aspecto mais complexo da interpretação, diz o australiano, foi justamente transmitir as razões, o lado, vá lá, humanista do reformador egípcio que resiste em deixar a enorme população hebraica partir de seu império.

"Cobras e bigas foram moleza perto deste aspecto. Brinco que o Ridley fez algo como 'Os Dez Mandamentos' se encontrando com 'A Vida de Brian', do Monthy Python, tendo como pano de fundo a revolta hebraica. O tom do filme é épico, em grande escala, é sim assumidamente espetaculoso, mas também é fincado na mitologia de Moisés, apresentando como um homem de carne e osso. É uma história muito poderosa e tentamos manter o senso de mágica, mas com um pé no chão, no realismo. E é um drama, repleto de emoção, centrado na disputa entre os dois meio-irmãos", diz.

Com as ausências de Bale e Scott, enfurnados em reuniões, filmagens e mudanças de última hora sob o sol da Andaluzia, coube a Edgerton a função de porta-voz do filme. É ele quem explica a decisão de os personagens falarem em inglês britânico - "seria impossível recriar a língua da época, então, como tinha se ser em inglês, optamos pelo clássico” - e celebra a agilidade do diretor, famoso pela economia de takes.

"Quando começamos a filmar, foi tudo muito rápido. Ridley já vem com o filme editado na cabeça, não há perda de tempo para ninguém. É pá-pum. A verdade é que você tem a sensação de que ele poderia fazer todos os nossos papéis. O Ridley sabe exatamente o que quer com cada um, nos mínimos detalhes. Mas às vezes paro e penso: será que exagerei, será que a interpretação foi contida demais? O Ramsés tem momentos grandiosos e outros muito, muito, íntimos".

Edgerton revela que, apesar do desejo de trabalhar com Ridley, precisou ser convencido a encarnar o faraó egípcio pelo próprio diretor. "Minha questão era saber se eu era, de fato, a pessoa certa para o papel. Culturalmente, afinal, fui criado na Austrália. Mas também se era o ator ideal para ser o contraponto do Christian. Tive de me ver de fato no papel do faraó para crer. Ridley me fez vestir o figurino, raspar a cabeça. E ele ali do lado, acompanhando cada passo, inclusive a maquiagem. Aí, aos poucos, comecei a concordar com ele e disse sim. E agora, com este cenário, esta imagem minha tal qual estátua, acho que foi o melhor sim da minha vida".

Mais cenários grandiosos

Tão impressionante quanto o Sinai reconstruído na Espanha, com largas avenidas demarcadas por palmeiras imperiais, é o gueto onde vivem os 400 mil escravos hebreus, cruciais para a ação imaginada por Scott.

A semelhança com imagens de casas e ruelas da Faixa de Gaza, ou, para uma testemunha brasileira, das favelas planas paulistanas e dos subúrbios cariocas, é o primeiro assombro. O segundo é o realismo desejado pelo diretor, interessado em discutir os limites entre o mitológico e o real (seriam as famosas pragas fenômenos da natureza?), em uma história importante para três das maiores tradições religiosas do planeta: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo.

A partição do Mar Vermelho, um dos momentos mais aguardados do filme, filmado nas ilhas Canárias depois de o circo de Hollywood deixar Almería, é, garante o cenógrafo Max, ao mesmo tempo o feito da parceria de Deus e de seu eleito e uma sugestão de algo mais prosaico, e no entanto tão impressionante quanto, como uma tsunami.

Ridley Scott fala sobre a escala épica de "Êxodo"

Figurantes e escravos

E se os efeitos visuais ajudarão a mostrar a invasão de sapos, a praga dos gafanhotos e a transformação das águas do Nilo em sangue, a multiplicação de escravos não significa que os personagens de carne e osso possam se dar ao luxo de aparecerem menos realistas, seja lá o que o termo de fato significa na cabeça do diretor. Afinal, quem seria capaz de reproduzir com exatidão o cenário, os figurinos e os movimentos comuns no Egito Antigo?

A figura que emerge do gueto hebraico, rosto coberto de fuligem, a pouco espancado duramente, é o de Josué, o herdeiro de Moisés, condutor de fato, após a morte do patriarca, do povo hebreu pelas terras de Canaã. Papel ficou com Aaron Paul, conhecido do público pelo Jesse da premiada série televisiva “Breaking Bad”.

"Já estou filmando há sete semanas e não consigo me acostumar. Todo dia ando por aqui de boca aberta. Quando Ridley faz algo é sempre grande, né? Nunca havia visto nada como isso antes, então a experiência está sendo muito singular para mim. Só fiz cinema independente, em pequena escala. Aqui é caos controlado todos os dias, você acha que eles não vão dar conta, mas no fim tudo dá certo", diz.

Na cena que o UOL acompanha, Josué observa, com sofreguidão, mais uma morte em praça pública ordenada por Ramsés, decidido a descobrir onde Moisés e seus "guerrilheiros" se escondem. Ou bem os cidadãos entregam o homem que um dia foi criado no palácio e, depois de descobrir que tinha sangue hebreu, se juntou aos escravos, ou ele matará diariamente uma família hebraica.

"Josué é um lutador, um guerreiro, e ele está pronto para lutar até a morte pela libertação dos hebreus. Ele tem esta raiva intensa dentro de si e está pronto para revidar. Meu pai é pastor da igreja Batista, então li a Bíblia muitas vezes. Quando criança, tinha de memorizar trechos, identificar claramente personagens, entender exatamente a crença de nossa família. Ou seja, eu definitivamente sabia quem era Josué antes da minha primeira conversa com Ridley. Mas isto tudo aqui em nossa volta é um belo exercício de lembrança de quem estes personagens foram, daquele momento histórico, deste novo olhar sobre a trajetória deles, oferecido pelo Ridley. Ele, aliás, me pediu uma interpretação realista de Josué, nada forçado, apenas contar a história das vidas dos escravos da forma mais honesta possível”, diz o ator.

Edgerton também destacou a singularidade de se revisitar histórias que marcaram as infâncias de quase todos no elenco. "Há algo de especial em você voltar para as narrativas que marcaram sua criação, sua percepção do que a religião é, do reconhecimento deste Deus estranho, do Antigo Testamento, em oposição ao do cristianismo. Foi bem interessante reviver isso tudo no contexto de uma história contada neste cenário, ao lado de artistas do calibre de Ridley, Christian, Sigourney e Aaron. Espero que a gente consiga imprimir esta sensação no resultado final".

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