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Filme sobre presas políticas mostrará Dilma engraçada e péssima cozinheira

Divulgação/Susanna Lira
1º.jan.2015 - Dilma reencontra ex-companheiras da Torre das Donzelas durante a posse de seu segundo mandato Imagem: Divulgação/Susanna Lira

Mariane Zendron

Do UOL, em São Paulo

17/01/2015 07h00

Dias depois de tomar posse em seu primeiro mandato, em 2011, a presidente Dilma Rousseff foi convidada a cozinhar no programa "Mais Você", de Ana Maria Braga, e mal conseguiu preparar uma omelete. Pôs a culpa no bate-papo com a apresentadora, mas, segundo ex-detentas que dividiram a prisão com ela na época da ditadura militar, Dilma nunca foi cozinheira de mão cheia. 

Essa será uma das revelações do documentário "Torre das Donzelas", sobre a ala de um presídio de São Paulo onde ficavam confinadas as presas políticas durante a ditadura militar. "Todo o mundo falava isso. Quando era o dia da Dilma na cozinha, algumas colegas se recusavam a comer", contou ao UOL, por telefone, a diretora do filme, Susanna Lira.

Segundo a diretora, o documentário deve ficar pronto até o final deste ano e se concentrará nas histórias que se passaram na Torre das Donzelas, uma construção redonda, de estilo colonial, que fazia parte antigo presídio Tiradentes. Dilma permaneceu três anos no local, de 1970 a 1972, antes de ele ser desativado e demolido, em 1973, após ter a estrutura abalada por obras do metrô. 

Susanna Lira

  • "O filme é sobre esse grupo de mulheres que ficou presa, se uniu e fez coisas notáveis depois do cárcere"

    Susanna Lira, diretora de "Torre das Donzelas"

Só o nome do lugar lembra contos de fadas, porque, em geral, as mulheres que chegavam àquele conjunto de celas já haviam sido submetidas a tortura. Dilma foi uma delas. Então com 22 anos, ela foi torturada durante 22 dias, antes ser transferida para o local, onde chegou com a saúde abalada. 

Dilma é uma entre muitas

Apesar de chamar atenção para o filme graças ao cargo que ocupa hoje, Dilma não é o tema central do documentário, ressalta a diretora. "O filme é sobre esse grupo de mulheres que ficaram presas, se uniram e fizeram coisas notáveis depois do cárcere", diz. Entre elas está a advogada Rita Sipahi, conselheira da Comissão da Anistia, e a jornalista Rose Nogueira, uma das criadoras do extinto programa "TV Mulher", exibido na Globo na década de 1980.

"A Dilma como presidente não tem participação no filme. Quem participa é aquela menina que foi presa. Óbvio que o fato de ela ter se tornado presidente dá importância para o filme, mas no corpo da produção, ela é mais uma". A diretora ainda afirma que o longa, orçado em R$ 1,6 milhão, é apartidário e que, durante um bom tempo, ter Dilma entre as personagens dificultou a captação de recursos. "Estamos vencendo essa etapa no dia a dia."

Essa será a primeira vez que mulheres que ficaram confinadas na Torre das Donzelas falarão sobre o período de prisão em um documentário. "O envolvimento com a luta armada foi tratado de maneira deturpada por muitas pessoas. A própria ficha [criminal] da Dilma foi alterada por photoshop. Inventaram coisas que ela não tinha feito, e isso traumatizou as companheiras", conta Lira, que levou mais de um ano para ganhar a confiança das "meninas" --como chama as ex-presas políticas-- para que elas lhe dessem seus depoimentos.

Depois de conquistar as personagens, a documentarista ficou um ano coletando histórias desse período. A historiadora Iara Prado, por exemplo, conta no filme que aprendeu a estudar dentro do presídio porque tinha tempo e foco. "Outra militante saiu de lá decidida a se separar do marido porque se deu conta de que a vida é uma só. Decisões de ordem pessoal, política e social foram tomadas naquela torre."

"Dogville" como inspiração

Além das entrevistas, a diretora pediu às ex-detentas que desenhassem em um quadro negro a disposição das celas da Torre das Donzelas. Os desenhos serão levados para um estúdio, onde será feita uma sugestão de cenografia do local, no estilo do filme "Dogville" (2003), de Lars Von Trier, cuja trama se passa em um cenário feito apenas com marcas de giz no chão."

Divulgação/Susanna Lira
Dilma conversa com a diretora Susanna Lira durante a posse do segundo mandato Imagem: Divulgação/Susanna Lira

"Dentro desse cenário, vamos contar algumas histórias da Torre, como o momento em que uma teve que contar para a outra que o marido havia morrido. Isso tudo é muito doloroso, mas a Torre também é um lugar de superação. Elas se mantêm unidas e presentes nas vidas umas das outras até hoje", diz a diretora.

Segundo Susanna, uma das ex-presas, a jornalista Rose Nogueira, lhe diz no documentário: "Se os militares soubessem o que ia acontecer prendendo essas mulheres juntas, não teriam feito isso". A cineasta explica que, quando as mulheres chegavam àquela prisão, as diferenças ideológicas que possuíam --devido às diferentes organizações de que faziam parte-- ficavam para trás. "Se uma chegava machucada pela tortura, as outras se juntavam para ajudar.

Encontro na posse

A última vez em que Dilma e suas ex-companheiras de prisão estiveram juntas foi durante a posse da presidente, no último dia 1º. Susanna, que acompanhou o encontro, conta que, na ocasião, viu ressurgir a Dilma da época da Torre das Donzelas, muito focada nos estudos, mas também engraçada. "Como figura pública, ela se protege das críticas, dos julgamentos. Na posse, eu vi a Dilma que elas me descreveram, engraçada, que brinca, que coloca apelido nas outras." 

A diretora diz que, para concluir o documentário, falta apenas uma entrevista, a da própria presidente, que, segundo Susanna, já se comprometeu a falar. Uma das coisas que ela mais tem curiosidade de saber é o que restou dos tempos de prisão na personalidade de Dilma. "Ela tem essa fama de ser muito exigente, e a militância pedia esse rigor, mas acho que no pessoal ela ainda guarda muito daquela menina da Torre." 

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