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Filme mostra que Cobain pode ter tido 1ª vez com jovem com problema mental

Divulgação
Uma das animações que ilustram o documentário "Cobain: Montage of Heck", de Brett Morgen Imagem: Divulgação

Estéfani Medeiros

Do UOL, em Berlim (Alemanha)

Uma figura tão explorada quanto a de Kurt Cobain poderia não ter nenhuma novidade ainda a ser revelada, mas o documentário “Cobain: Montage of Heck”, de Brett Morgen, apresentado neste domingo (8) no Festival de Berlim, prova o contrário.

Feito com autorização da família e com acesso a uma espécie de "tesouro" de Cobain, com áudios, anotações e vídeos inéditos, o filme traz algumas histórias que surpreenderam até mesmo o diretor.  “Com certeza, a história dele perdendo a virgindade. Foi um choque”, contou Morgen a jornalistas, quando questionado qual a maior surpresa que suas pesquisas trouxeram.

Usando animações como suporte de interpretação, uma das cenas do filme mostra o jovem Cobain com um grupo de amigos que visitava regularmente a casa de uma adolescente, parente de um deles. Ela sofria de obesidade e um tipo de retardo mental. O grupo então se dividia. Enquanto uns a distraíam, os outros roubavam bebidas alcoólicas que ficavam no porão.

Aos 16 anos, Cobain teria voltado sozinho à casa e tentado ter a primeira vez com a garota, de acordo com um áudio narrado por ele, com o consentimento dela. A história ganha proporções maiores quando a família da menina entra em contato com o colégio onde eles estudavam, e o futuro líder do Nirvana vira motivo de piada. É uma das primeiras vezes em que ele menciona suicídio como solução para seus problemas.

“Ninguém nunca ouviu essa história até eu encontrá-la. Kurt colocou em uma caixa de modo que ninguém a encontrasse. Essa foi uma das pistas para investigar o resto. Tem algo muito doentio sobre esse momento”, explica Morgen. “Ele está interpretando", diz o diretor sobre o áudio que contém a história. "Escreveu a história e leu para si mesmo, e você percebe que é como se ele estivesse narrando uma caça ao tesouro. Tem sorriso na voz, mas ao mesmo tempo a descrição é perturbadora”, comenta.  

Além dessa história, o documentário traz outras cenas pessoais, como vídeos de infância do músico, quando ganhou a primeira guitarra de plástico de presente no aniversário de três anos, além de registros do nascimento e os primeiros aniversários em uma família de classe média que se desfaz, além de todos os problemas típicos de uma criança hiperativa, com um pai repressor.

O filme inclui ainda o início de uma sextape gravada com a mulher, Courtney Love, e momentos do casal chapado, que tiram gargalhadas da plateia. Há, por exemplo, imagens do cotidiano, com o músico fazendo a barba enquanto a mulher, enrolada na toalha, cria teorias sobre a cena underground, o futuro e exibindo os seios para a câmera. Em outra cena, Cobain está sentado na cama fazendo dublagens, vestido de mulher.

O diretor diz que as escolhas mostram um lado desconhecido do músico. “Nunca vimos Kurt sorrir, ele não está OK nos outros filmes, não é romântico. É esse cara fracote que não sabe lidar com as coisas”, comenta.

Contemporâneo de Cobain, Morgen é responsável pelo elogiado “Crossfire Hurricane” (2012), filme que compila as primeiras duas décadas de carreira dos Rolling Stones, além da cinebiografia do produtor Robert Evans, “The Kids Stays in the Picture”. Antes de Berlim, “Cobain: Montage of Heck” foi exibido pela primeira vez em janeiro, no Festival de Sundance, e será mostrado na TV americana pelo canal HBO, produtor do filme, em 4 de maio. 

Mixtape

Para criar um retrato em primeira pessoa do músico, Morgen se apropria do espírito multiplataforma e experimental de uma mixtape que acabou dando nome ao documentário, "Montage of Heck". A gravação reúne ruídos, rascunhos musicais do início da parceria com o baixista Krist Novoselic e a seleção das músicas favoritas de Cobain em 1988, quando ainda era mais um fã de rock que sonhava em viver de música. A fita cassete criada por Cobain aos 21 anos mistura faixas de bandas como Kiss, Velvet Underground e Daniel Johnston, imitações de James Brown, gritos, distorções incompreensíveis na guitarra, vômito no banheiro e barulhos de frequência de rádio.

Além da mixtape, cerca de 200 horas de músicas e gravações não lançadas, projetos de arte, pinturas a óleo, esculturas, filmes caseiros em super-8 e mais de 4 mil páginas de palavras soltas e desenhos em cadernos foram revisitados para criar um longa de duas horas e meia. “Este não era um filme em que queria entrevistar [os produtores] Butch Vig, Steve Albini, [o líder do Smashing Pumpkins] Billy Corgan e o Soundgarden. É um filme orientado pela família.”

Apesar de expor as problemáticas relações dos Cobain-Love em histórias contadas pela mãe Wendy O’Connor, o pai Don Cobain, a madastra Jemy, a irmã Kim e a viúva Courtney, o diretor garante que a família do cantor não fez parte da edição. “Eles viram o filme já com o corte final e tiveram muita confiança em mim, com base nos meus trabalhos anteriores”, conta.

“A ideia não era colocar o Kurt em um pedestal, mas olhá-lo no olho e humanizá-lo. Porque em 25 anos muita coisa foi projetada sobre ele, essas fantasias coletadas aqui e ali. Nós realmente não o conhecemos. Só o conhecíamos por meio das músicas e letras e isso não é suficiente para demonstrar toda a expressão que ele tinha." 

Cobain

  • Reprodução

    Ninguém nunca ouviu essa história até eu encontrá-la. Kurt colocou em uma caixa de modo que ninguém a encontrasse. Essa foi uma das pistas para investigar o resto. Tem algo muito doentio sobre esse momento.

    Brett Morgen, diretor de "Cobain: Montage of Heck", sobre a fita em que Kurt Cobain narra a perda da virgindade

“Fizemos tudo pela Frances”

Hoje com 22 anos, Frances Bean Cobain, filha do roqueiro, assina a produção executiva do documentário e, segundo Morgen, foi a força motriz por trás do filme. “Frances não tem memória do pai dela. Dave [Grohl], Krist [Novoselic] e todo o mundo envolvido neste projeto... Estávamos todos fazendo isso pela Frances. Ela disse que era o filme que esperava que eu fizesse e que lhe dei algumas horas com o pai que ela nunca teve”, diz o diretor, em tom fraterno.

Já a problemática viúva de Cobain também teve uma reação parecida. “Courtney é uma mulher poderosa e que não se deixa intimidar pela mídia. Ela me disse que [o filme] foi o mais próximo que chegou de Kurt desde que ele morreu, me pediu para ter esse tempo com ele. Essa foi a sensação de toda a família.”

A segunda hora de “Montage of Heck” é sutilmente direcionada à filha do músico. Com o nascimento da herdeira, o longa ganha um tom emocional e tenta desmitificar as manchetes sobre o uso de heroína do casal durante a gravidez. O contraponto é apresentado com imagens do músico tomando banho com o bebê e a mulher e trocando fraldas, cartas e declarações de amor de pai para filha. Love, descabelada, nina Frances com uma voz rouca que soa assustadora para uma música infantil, mas que acalma a criança. “Kurt não era um garoto que estava doente e afetado pela fama, a sua busca era por uma família e por aceitação”, comenta Morgen.

Ausência de Dave Grohl

Quando surge o nome de Dave Grohl, baterista do Nirvana e atual líder do Foo Fighters, que só aparece no filme em um vídeo de bastidores e alguns rasos recortes de entrevistas, o diretor recorre a algumas desculpas prontas e gagueja. “Senti que precisava apenas de duas pessoas para explicar a experiência do Nirvana. Existiram dez integrantes do Nirvana, Grohl foi só o quarto baterista, e Krist [Novoselic, o baixista] era o cara que estava lá desde o começo, morava em Aberdeen”, comenta, reticente.

Após a morte do músico, a relação de Grohl com Love se resumiu a conflitos e processos e só se apaziguou publicamente no último Rock And Roll Hall of Fame, no início de 2014, quando o filme estava próximo de ser finalizado. 

“Entendo que Dave Grohl é muito associado ao Kurt, por isso esperava ter a entrevista. Quando comecei a procurar histórias sobre o Nirvana, marquei entrevistas com Dave e Krist. Krist estava disponível, mas Grohl estava ocupado gravando seu último álbum. Tudo bem. Peguei o depoimento com Krist e tinha o que precisava”, justifica. Segundo o diretor, Grohl ficou disponível três semanas depois de o filme estar finalizado para a exibição em Sundance, mas ainda pode entrar em um novo corte, depois de Berlim.

Frances

  • Chris Pizzello/Invision/AP

    Frances não tem memória do pai dela. Dave [Grohl], Krist [Novoselic] e todo mundo envolvido neste projeto, estávamos todos fazendo isso pela Frances. Ela disse que era o filme que esperava que eu fizesse e que dei algumas horas com o pai que ela nunca teve.

    Brett Morgen, sobre ter feito seu documentário pensando em Frances Bean Cobain (na foto, com a mãe, Courtney Love)

Nos momentos em que o assunto é o Nirvana, o documentário repete clichês e traz menos novidades. As poucas imagens de shows já são conhecidas dos fãs. “Esse não é um filme sobre o Nirvana. A banda é só uma parte da expressão artística que ele tinha”, comenta o diretor. Em compensação, a trilha sonora é composta de áudios inéditos e entrevistas belamente ilustradas pelo quadrinista holandês Hisko Hulsing. O diretor de animação, Stefan Nadelman, é o responsável por dar vida aos desenhos, pinturas e esculturas usadas no filme.

Contradições

Em busca do início dos conflitos na vida do músico, Morgen busca em seu filme quebrar a ideia de que a causa foi do divórcio dos pais, quando ele era criança. Após oito anos coletando material, o cineasta encontrou referências para criar suas próprias teorias. “A reação dele ao divórcio foi de vergonha. Meus pais se separaram na mesma época que os pais de Kurt. Eu me culpei. Me senti sozinho, mas não me senti envergonhado. É interessante que o pai, a mãe e a irmã falam sobre essa vergonha de Kurt. E em suas próprias palavras Kurt também fala sobre a vergonha que ele tinha da separação dos pais.” 

A ideia é que o espectador se identifique. “Acredito que ele é feliz até os três anos, até a irmã nascer. Não vejo muita felicidade depois disso. É claro que ele teve momentos felizes, mas sobre o mito de que ele era feliz até o divórcio, acredito que o filme joga essa ideia pela janela. Kurt é a criança que foi rejeitada, abusada. Antes de ser a voz de sua geração, ele proporcionou conforto para muitas gerações à frente. Uma geração que por causa dele não se sentia mais sozinha.” 

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