Filmes e séries

Mulheres comandaram maiores bilheterias do cinema nacional do último ano

Fabio Guinalz/Fotoarena e Divulgação
As produtoras Mayra Lucas, Sara Silveira e Mariza Leão Imagem: Fabio Guinalz/Fotoarena e Divulgação

Flavia Guerra

Do UOL, em São Paulo

08/03/2015 07h01

Entre os temas que o Oscar 2015 levantou, talvez nenhum tenha sido mais polêmico do que a luta por mais espaço que as mulheres do cinema norte-americano têm travado. Do discurso de Patricia Arquette, que pediu paridade salarial, ao fato de não haver mulheres indicadas a melhor direção e nenhum papel feminino na lista dos protagonistas dos indicados a melhor filme, o assunto nunca esteve tão em voga na Academia.

Se até mesmo em Hollywood as atrizes, diretoras e produtoras ainda buscam seu lugar em um mercado competitivo, no Brasil as mulheres que comandam a produção  audiovisual têm o que comemorar neste Dia Internacional da Mulher: elas estão à frente das maiores bilheterias do último ano. Dos cinco filmes nacionais mais vistos entre o final de 2014 e o início de 2015, quatro contam com mulheres à frente de suas equipes de produção.

O longa brasileiro mais visto neste ano, "Loucas pra Casar", da Glaz Entretenimento, 3,8 milhões de espectadores, foi produzido por Mayra Lucas, em parceria com Paulo Boccato. "Super Pai", da  Querosene Filmes, conta com Justine Otondo, ao lado de João Queiroz e Guilherme Keller. O longa foi o quinto mais visto na semana passada, com 170 mil espectadores. Da safra de 2014, "Até Que a Sorte nos Separe 2" (3,9 milhões de espectadores), produzido pela Gullane Filmes, tem Debora Ivanov na parceria com Fabiano Gullane e Caio Gullane; já "S.O.S Mulheres ao Mar" (1,7 milhão) conta com Cris D’Amato e Giovanna Antonelli em sua equipe de produtoras.

Para completar, o longa que representou o Brasil na disputa por uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro, "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho", foi produzido por Diana Almeida, que também cuidou de sua campanha internacional. “É uma ótima fase para nós. Tanto no cinema autoral como mais comercial, as mulheres têm destaque. Na lista de outras grandes bilheterias de anos anteriores ainda há nomes como Iafa Britz, Mariza Leão, Vania Catani”, comenta Mayra Lucas.

Para a produtora de "Loucas pra Casar", atuar nesta função significa também ter autoria sobre o projeto e trabalhar para que ele tenha resultado comercial. “A mulher tem uma visão muito global, é propositiva, e isso tem efeito no mercado. Mesmo quando a produção é de um filme mais autoral”, analisa Mayra.

Divulgação
Cena do filme "Diário de Viagem", de Paula Kim, que a produtora Diana Almeida leva ao Ateliê de Cannes, em maio Imagem: Divulgação

Multitarefas

Já Sara Silveira, que à frente da Dezenove Filmes tem mais de 30 longas realizados, entre eles de diretoras como Anna Muylaert, Laís Bodanzky, Daniella Thomas, Lina Chamie e Juliana Rojas, faz uma analogia entre o lar e o set de cinema. “Fui jurada no Festival de San Sebastian [Espanha] no ano passado e me perguntaram por que no Brasil tem havido destaque maior na produção feita por mulheres. Sem ser feminista, respondi que temos de imaginar uma família. O diretor é o marido. Os filhos são os atores. E a mulher é responsável pela casa, que é a produção”, explica ela.

“E junta a casa para cuidar, trabalhar fora, atender ao marido, filhos. Só uma dona de casa para ter esta disciplina e esta disponibilidade. Mulheres conseguem fazer dez coisas em um minuto. Organiza o lar como organiza a produção”, completa Sara, que acaba de rodar "O Escaravelho do Diabo", de Carlo Milani, e se prepara para filmar este ano "As Boas Maneiras", de Juliana Rojas e Marco Dutra, e "O Banquete", de Daniella Thomas.

No entanto, Sara pondera que o Brasil “não é o paraíso.”  Ela, que está na ativa desde a década de 1980, confessa ter encontrado muita dificuldade pelo fato de ser mulher. “O comando está com os homens. Muitas vezes, é preciso ter atitude máscula para poder suportar toda a carga”, confessa. “Não significa que os homens são maus. Mas sim que as mulheres têm sutileza, um lado carinhoso mais fácil de lidar e comandar equipes de cinema, levando com disciplina”, observa a produtora, que neste ano também aposta em longas de jovens diretoras como Carol Leoni, Ivi Roberg, entre outras.

Bruno Poletti/Folhapress e Divulgação
As produtoras Joana Mariani e Debora Ivanov Imagem: Bruno Poletti/Folhapress e Divulgação

Confraria

Para conquistar mais espaço e fortalecer os laços entre as produtoras, Sara e outras profissionais criaram uma Confraria de Cinema. “Além de combater o mito de que a competição é mais forte que a colaboração entre as mulheres, o grupo funciona como uma plataforma de troca de dicas. Nos encontramos a cada 40 dias e nos falamos sempre”, explica Debora Ivanov, da Gullane filmes.

Também integram a confraria Maria Ionescu, Zita Carvalhosa, Assunção Hernandez, Georgia Costa Araújo, Tata Amaral, Bel Berlinck, Van Fresnot e Malu Oliveira.  “Dependendo do tema, elegemos uma ou duas para buscar informações. Eu e Geórgia, por exemplo, fomos designadas para falar de questões burocráticas na Ancine. Os sindicatos e associações fazem isso e também fazemos parte deles, mas nós somos uma confraria de ajuda mútua”, completa Debora.

O grupo é fechado, mas se passar a ser aberto certamente receberá novas integrantes que já têm carreiras de destaque. “A geração que tem por volta de 30 anos já entende muito melhor o papel estratégico de um produtor, que representa um projeto desde o início. Para este tipo de filme mais autoral com que trabalho, é preciso ter conversas abertas e diretas”, declara Diana Almeida, que, pela Lacuna Filmes, leva ao Ateliê de Cannes, em maio, seu novo projeto, "Diário de Viagem", de Paula Kim.

Para Joana Mariani, produtora de longas como "Trinta" e diretora do documentário ainda inédito "Marias", o ideal é trabalhar em parceria. “Todos os meus projetos foram produzidos por homens e mulheres. O equilíbrio é bom. 'Marias', por exemplo, retrata o culto à Nossa Senhora, mas fala do poder do feminino. Não sou feminista, mas partidária do feminino. A mulher deve buscar exatamente a suavidade, sua maior qualidade, para gerar uma nova maneira de liderança”, observa.

Trailer do filme "Ponte Aérea"

Direção

No entanto, a produtora carioca Mariza Leão pondera que ainda há mais mulheres na produção que na direção. “O Brasil tem uma quantidade imensa de diretores. Lançou 114 filmes em 2014. Júlia [Rezende, diretora e filha de Mariza e do diretor Sergio Rezende] talvez seja a mais nova desta safra, pois tem 28 anos e já está em seu terceiro longa. E se prepara para dirigir um quarto filme, produzido pela Diane Maia, da Paris Filmes”, comenta a produtora, que lança no dia 26 de março "Ponte Aérea", dirigido por Júlia.

“O filme tem o olhar feminino sobre as relações, pois mostra como é para esta geração do amor líquido a dificuldade de se fazer escolhas, as questões profissionais que passam por cima das pessoais e os medos de se assumir um relacionamento”, reflete Mariza, que neste ano lança ainda "Meu Passado Me Condena 2", em junho.

Para Debora Ivanov, o mercado deve e irá se abrir mais para as diretoras. “É preciso ter mais mulheres na direção, roteiro, fotografia. Chefes de equipe mesmo. Sem contar que na gestão pública do audiovisual, nos cargos de comando, ainda há mais homens. Mas isso está mudando”, analisa Debora, que neste ano roda "4X100", de Carlos Cortez, e "Até que a Sorte nos Separe 3", entre outros.

“A mulher ganha espaço no mercado mundial de trabalho e isso se reflete no cinema. Mas destaco o fato de que soube há pouco que o crime contra a mulher vai se tornar crime hediondo. Este sim é outro passo importantíssimo nas conquistas sociais”, conclui Sara.

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