Cinema

Orson Welles, o Brasil e a história do maior festival de docs do país

Divulgação/É Tudo Verdade
Orson Welles durante filmagens de "It's All True" no Brasil. O filme inacabado de 1942 deu origem ao principal festival de documentários da América do Sul imagem: Divulgação/É Tudo Verdade

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

Apenas um ano após o lançamento de “Cidadão Kane”, considerado o maior filme de todos os tempos,  Orson Welles desembarcou no Brasil em fevereiro de 1942 para realizar outro trabalho. Na ocasião, a proposta do cineasta norte-americano era desvendar a América Latina, longe da imagem caricata que Hollywood tinha da região.

Com a fama de ser um pária na visão dos grandes estúdios americanos, Welles descartou os clichês da “política da boa vizinhança” e resolveu filmar as favelas do Rio, para contar a origem do samba e das religiões afro-brasileiras, e um grupo de trabalhadores que faziam reivindicações no Nordeste. Acabou desagradando o Estado Novo de Getúlio Vargas, além do empresário e político americano Nelson Rockefeller, que era acionista da RKO --estúdio que havia contratado Welles-- e também coordenador de assuntos interamericanos, o que o tornava responsável pela estratégia  de aproximação cultural com os países latinos em troca de apoio.

O resultado disso foi que o filme, que daria ao mundo uma visão única sobre o Brasil e sua cultura, nunca viu a luz da projeção. Apesar disso, sua influência é, ainda hoje, emblemática.

A película inacabada, cujo título é “It’s All True” (É Tudo Verdade, em português), serviu justamente para nomear o maior festival de documentários da América Latina, que chega à sua 20ª edição nesta quinta-feira (9), em São Paulo, e um dia depois no Rio de Janeiro. A programação está repleta de obras inéditas e retrospectivas. Welles, que completaria cem anos em maio, é um dos homenageados com a exibição de sua curta –mas não menos importante– aventura documental no Brasil.

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  • Não tenho dúvidas de que o Brasil filmado por Welles, com ênfase na pobreza no Rio e no Nordeste, era muito distinto do registro esperado para o tipo de documentário institucional encomendado pelos produtores oficiais americanos

    Amir Labaki, criador do festival É Tudo Verdade

O pouco que sobrou das imagens que Welles captou em Fortaleza e no Rio de Janeiro, lançadas pela primeira vez em 1993 no documentário “É Tudo Verdade: Baseado em um Filme Inacabado de Orson Welles”, é programa obrigatório. Dirigido por Bill Krohn, Myron Meisel e Richard Wilson, o filme é um documentário sobre o documentário confiscado nos anos 1940.

“Não tenho dúvidas de que o Brasil filmado por Welles, com ênfase na pobreza no Rio e no Nordeste, era muito distinto do registro esperado para o tipo de documentário institucional encomendado pelos produtores oficiais americanos e também bastante impactante dentro do panorama do cinema brasileiro na época”, observa o crítico de cinema Amir Labaki, criador do festival É Tudo Verdade.

Ele relembra a primeira vez em que viu essas cenas no Festival de Berlim em 1992. “Fiquei impressionado com o frescor das imagens captadas por ele no Brasil, antecipando em ao menos uma década veredas temáticas e estilísticas que viriam a marcar o cinema brasileiro.”

Para Amir, a passagem de Welles pelo Brasil deixou marcas profundas na filmografia nacional, sem se restringir aos documentários. “O despojamento fotográfico com que ele filmou o Nordeste ressurge no pré-Cinema Novo, em curtas como ‘Aruanda’ (1960), de Linduarte Noronha, e na primeira fase daquele movimento, notadamente em filmes como ‘Vidas Secas’ (1964), de Nelson Pereira dos Santos, e ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ (1964), de Glauber Rocha”, detalha.

Protesto no mar
Enquanto seu codiretor Norman Foster filmava no México, Welles se encarregou de dois episódios do longa dedicados ao Brasil: "Carnaval" e "Jangadeiros". O cineasta havia se encantado com a história da travessia no mar feita pelos jangadeiros de Fortaleza, liderados por Manuel Olímpio (o Jacaré), em direção à então capital federal Rio de Janeiro, e decidiu encenar a história. O esforço olímpico não era apenas mise-en-scène. A saga dos trabalhadores era um protesto. A ideia era pedir providências a Getúlio Vargas sobre os seus direitos previdenciários. Mesmo que fosse necessário ir até ele a remo.

Inspirado ou não na obra, Eduardo Coutinho –cujo filme póstumo, “Últimas Conversas”, abre o festival– faria o mesmo movimento em 1964, quando quis encenar o assassinato do líder camponês João Pedro Teixeira na Paraíba. Como as filmagens ocorriam durante a ditadura militar, os rolos de filme de Coutinho também seriam apreendidos pelo governo. E o diretor recontaria a própria história duas décadas depois no documentário “Cabra Marcado para Morrer” (1984).

Experiência brasileira
No momento em que Welles veio filmar no Brasil, “Cidadão Kane” havia lhe rendido mais polêmica do que prestígio, e o cineasta mudaria seu modelo de produção para algo independente e minimalista a partir de sua experiência em terras brasileiras. Prova disso está em seu último longa concluído em vida, o documentário “Verdades e Mentiras”, que também integra a programação do festival. Para Amir, esse filme é, ao lado de “Cidadão Kane”, a obra-prima do norte-americano. Trata-se de um ensaio documental, feito a partir de material rodado por outro cineasta, o francês François Reichenbach, sobre o mais extraordinário falsificador de pinturas do século 20, Elmyr de Hory (1905-1976).

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  • Fiquei impressionado com o frescor das imagens captadas por ele no Brasil, antecipando em ao menos uma década veredas temáticas e estilísticas que viriam a marcar o cinema brasileiro

    Amir Labaki, criador do festival É Tudo Verdade

“Welles desenvolveu ‘Verdades e Mentiras’, seu ensaio fílmico sobre o verdadeiro e o falso, a autoria e a arte, por meio do mais minucioso e extenso processo de montagem de toda sua carreira”, comenta o crítico. “Articulando uma narrativa fragmentária em primeira pessoa a partir de estilhaços do filme de Reichenbach e de material original rodado por ele mesmo, Welles realizou sua obra mais original, corrosiva e lúdica.”

Mas foi do filme inacabado de Welles que Amir tirou a ideia do nome do festival em 1995. “Batizá-lo a partir de 'É Tudo Verdade/It’s All True' foi por demais tentador”, conta. “Por um lado, celebrava a incursão brasileira de um dos maiores cineastas da história. Por outro, o próprio título portava uma piscadela autoirônica, no jogo de palavras de que tudo é verdade, num evento dedicado a obras ancoradas no cinema do real.”

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