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Filme "Geraldinos" foca torcedores folclóricos em setor extinto do Maracanã

Divulgação
Em imagem do documentário "Geraldinos", PM orienta torcedor fantasiado da personagem Emília durante jogo no Maracaná; ao fundo, torcedores na geral Imagem: Divulgação

Rafael Nardini

Do UOL, em São Paulo

O filme “Geraldinos”, de Pedro Asbeg e Renato Martins, que estreia nesta quarta-feira (15) na 30ª edição do festival de documentários “É Tudo Verdade”, em São Paulo, tem como foco os apaixonados e folclóricos torcedores que se acotovelavam de pé à beira do fosso do Maracanã –área conhecida como “geral”--, antes de o setor ser extinto em 2005, com as reformas para os Jogos Pan-Americanos de 2007. 

Antes do fim da geral, os ingressos para ver o jogo dali foram vendidos durante 65 anos a preços populares, atraindo todo tipo de gente, que xingava, sofria, comemorava a vitória do time e tentava evitar, a todo custo, gol adversário. Sob chuva ou sol forte, eles estavam sempre naquela área do Maracanã.

asbeg

  • O futebol é tão ópio do povo quanto uma música de axé ou um filme do Homem-Aranha. Ou seja: se você quer ver aquilo como ópio, beleza. Mas você pode ver de outras maneiras. O futebol é parte da sociedade

    Pedro Asbeg, diretor de "Geraldinos"
Para seu terceiro filme como diretor –depois de “Democracia em Preto e Branco” (2014), sobre a Democracia Corintiana, e “Mentiras Sinceras” (2011), que retrata o universo do teatro--, Pedro Asbeg, junto com o colega Renato Martins, ouviu depoimentos de ex-jogadores como Romário, Zico, além de jornalistas, torcedores comuns e geraldinos e até o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL). “Gostava de ouvir: ‘ei, Romário, vai tomar no c*!’ Isso era legal para caramba. Fazia eu fazer mais gols”, lembra o Baixinho durante o filme.

Em conversa com o UOL, Asbeg afirma que o “cartão vermelho” dado aos geraldinos há dez anos tem, e ao mesmo tempo não tem, a ver com o futebol. Na visão dele, a “cultura do povão” vem perdendo força no futebol, nos últimos anos. “O futebol foi deixando de ser uma expressão popular e virou um negócio onde tudo é comercializado: o jogador, a roupa do jogador, a chuteira, o que você vai comer no estádio”, diz.

Ele também compara a situação do torcedor à do público de cinema. “Se você chega e conta para um amigo que foi ver um filme, que na entrada do cinema tinha mais gente do que cabia na sala e que havia PMs em cima de cavalos usando spray de pimenta e cassetete, certamente essa cena vai soar surreal”. E resume: “O futebol pode ser bom ou ruim. Ele é tão ópio do povo quanto uma música de axé ou o filme do Homem-Aranha”.

UOL - Você começou a filmar “Geraldinos” em 2005. Por que todo esse tempo para lançar o filme?
Pedro Asbeg - Todo o material que a gente conseguiu foi por conta própria, na base da camaradagem. E isso fez com que a gente tivesse muitas horas de arquivo. Tínhamos pelo menos umas 200 horas de gravação. Só que parar e assistir a tudo isso é sempre mais difícil do que ir a dez jogos no estádio meio no esquema “vai quem pode, vai quem quer e se enfia lá no meio, conversa com os torcedores”. Demorou tudo isso porque priorizamos os projetos que davam grana para pagarmos os contas. Com a escolha do Maracanã como sede da Copa do Mundo de 2014, a gente entendeu o que iria acontecer com o estádio. A partir daí a gente percebeu que o material tinha ganhofoca  um peso muito maior. Recomeçamos o “Geraldinos” em 2013.

Você e o Renato frequentavam a geral? Como era a relação de vocês com aquela parte específica do estádio?
Não. Na verdade, o filme nasce por conta disso. A gente recebeu a notícia de que a geral iria acabar, ficamos inicialmente tristes e depois percebemos que nunca tínhamos estado lá. Dois rubro-negros fanáticos por futebol, pelo Flamengo, com anos e anos de arquibancada, que não conheciam a geral. Em 2005, a gente decidiu ir num Flamengo x Friburguense que tinha 5 mil pessoas no estádio. Ali a gente percebeu como aquilo era incrível. Saímos de lá, começamos a conversar e percebemos que tínhamos que filmar aqueles momentos finais da geral. Talvez, se a gente fosse geraldino, não teria entendido o valor de tudo aquilo.

O futebol brasileiro atingiu o ápice de elitização ou ainda vai mais longe?
A minha vontade era dizer que chegou no ápice, no limite, no auge. Mas sempre fico surpreso com uma nova maneira que os dirigentes e as pessoas que, de alguma forma, controlam o futebol conseguem descobrir. Não é só a questão da elitização. A elitização é um processo grave, contínuo, que faz com que os estádios fiquem mais vazios e percam um pouco de sua alma, expulsem seus torcedores para ver o jogo pela televisão. Mas isso passa também pelo ambiente de futebol quando se proíbe bandeira, bumbo, papel picado, papel higiênico e todo tipo de coisa que fazia do estádio um lugar único.

O futebol foi deixando de ser uma expressão popular e virou um negócio onde tudo é comercializado: o jogador, a roupa do jogador, a chuteira, o que você vai comer no estádio. Tudo é feito para você gastar dinheiro. Esse olhar de arenas, de preços altos, sócio-torcedor.. Vai continuar. E isso caminha para um processo, digamos, de expulsão de boa parte da população de dentro dos estádios. “Vai lá, vai ver o jogo no boteco da esquina porque aqui você não serve.”

Tem algum estádio que ainda vale a pena frequentar? Algum que os geraldinos entrevistados por vocês indicam? Algo do tipo: “no Bonsucesso ninguém mexe”?
Não adianta essa questão de que estádio tem alambrado, não tem toldo e se chama estádio, não se chama arena. Que bom que esses lugares ainda existam. Mas, se bota ali um jogo de péssima qualidade, com ingressos por R$ 30, e não tem transporte público, não adianta. Em cidades com o solo tão valorizado como nos casos de Rio e São Paulo, devem pipocar propostas para o Javari (casa do Juventus, na Mooca) e o Canindé (estádio da Portuguesa, na Marginal Tietê) virarem arenas ou, pior, shopping centers, estacionamentos e por aí vai.

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Torcedor "geraldino" sofre durante jogo do Flamengo, em imagem do filme Imagem: Divulgação
Dentro de tudo que você pesquisou para realizar o filme, só derrubar os valores dos ingressos resolve essa falta de alma que você sente no futebol brasilero? Como reverter isso?
O valor dos ingressos às vezes limita, mas não é a única questão. Tem jogo a cada três dias. Quem é que consegue ir? Jogos de péssima qualidade em estádios sem o mínimo conforto. Não estou dizendo que precisa ter cadeira macia com estofamento de veludo. Estou falando de ser tratado com o mínimo de respeito. Não tomar gás de pimenta e cacetete da PM. Ou que o jogo não comece às 22h, e meia-noite você precisa voltar para casa e não tem transporte público.

O brasileiro tem dificuldade de entender que futebol também é política? De fazer prevalecer seu posicionamento ou até mesmo de garantir seus direitos como consumidor?
Tem, sim. E isso não é uma exclusividade brasileira, infelizmente. O olhar de que o futebol não é um elemento cultural, social e político da sociedade é mundial. Esse pensamento de que o futebol é o ópio do povo, isso é mundial, infelizmente. O futebol é tão ópio do povo quanto uma música de axé ou um filme do Homem-Aranha. Ou seja: se você quer ver aquilo como ópio, beleza. Mas você pode ver de outras maneiras. O futebol é parte da sociedade. E o grande problema é que nem os torcedores nem jogadores nem dirigentes conseguem olhar para o futebol como tal e ver a importância disso.

Os jogadores ocupam muito tempo de suas vidas nas redes sociais fazendo propaganda de xampu, de marca de carro e não se preocupam com nada. Parece que eles vivem numa bolha e que não conseguem nem entender se existe mundo ao redor. O Betinho usou a Seleção Brasileira para falar da fome em 1994, a Democracia Corintiana usou o futebol para falar da importância das Diretas Já na década de 1980. O futebol pode ser usado de maneira positiva ou negativa. Mas as pessoas só olham o futebol como um esporte.

Sobre o direito do consumidor, eu diria que é um problema mais do Brasil. Se você chega e conta a um amigo que foi ver um filme e, na entrada do cinema, tinha mais gente do que cabia na sala, e PMs em cima de cavalos usavam spray de pimenta e cassetete, certamente essa cena seria surreal.

Qual é o grande personagem do filme: o povo, o futebol ou o fim de uma época?
Não tem uma quarta “todas as respostas anteriores”? Diria que o filme começou acreditando que ele falaria sobre as pessoas. Mas o Maracanã acabou. No lugar onde ele existiu foi feito um outro estádio com o mesmo nome e mesmo endereço. Diria que o filme fala principalmente do Maracanã como reflexo do que acontece hoje no Rio de Janeiro.

Há um grande culpado pelo fim da geral? Poderia ter sido diferente?
Poderia ser diferente a partir do momento em que colocar o Maracanã na Copa do Mundo não era uma obrigação. O Maracanã não precisava ter passado pela reforma que passou em 2010 para receber sete jogos de Copa do Mundo, sendo que nenhum deles era da seleção brasileira. Com metade do dinheiro daria para construir outro estádio, que não seria nenhum problema para a cidade do Rio de Janeiro, que carece de estádio. Constrói um estádio novo, bota esse estádio novo na Copa e deixa o Maracanã como estava depois das reformas do Pan. Ainda era um estádio que tinha sua alma. Quem falou que o Pacaembu tinha de representar o estádio de São Paulo? A Copa de 1950 também foi lá! 

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