Cinema

Hipopótamos de Pablo Escobar guiam filme sobre preso americano no Brasil

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

O narcotraficante colombiano Pablo Escobar não sabia mais o que fazer com o dinheiro que ganhava da exportação ilegal de cocaína da Colômbia para os Estados Unidos quando decidiu construir um jardim zoológico em sua fazenda. Foi também na ilegalidade que ele importou da África quatro hipopótamos. Mais de 20 anos depois de sua morte, os animais não apenas continuam por lá como passaram a se reproduzir em excesso, devido ao clima favorável do país, fazendo com que o governo colombiano decidisse esterilizá-los no fim de 2014.

Nos Estados Unidos, o técnico de informática Christopher Kirk ficou intrigado quando soube da história. Com receio de ter uma vida chata e medíocre, quis conhecer de perto os animais que aterrorizavam as redondezas. Foi seu “canto da sereia”. Partiu para a Colômbia, conheceu uma mulher misteriosa por lá e acabou sendo preso no Brasil em 2009 por tráfico de drogas. Sua vertiginosa aventura chega aos cinemas nesta quinta-feira (7) com o documentário “A Vida Privada dos Hipopótomos”, dos cineastas Matias Mariani e Maíra Bühle.

Os animais de Escobar não são o foco do filme, mas serviram como guia para os diretores ao longo da edição. “Usamos muito os hipopótamos, esses seres com aparência pacífica, mas altamente agressivos e territorialistas, como o ‘canto da sereia’ que atraí Chris para a Colômbia. O desejo de uma vida audaz e arriscada, tão diferente do empreguinho que tinha nos EUA”, conta a dupla, por e-mail, ao UOL.

De alguma forma, Matias Mariani e Maíra Bühle também foram atraídos pela narrativa do americano. Eles conheceram Chris quando filmavam depoimentos de presos estrangeiros no Brasil para o primeiro longa, “Ela Sonhou que eu Morri”. “De todos os 150 presos que filmamos, ele inverteu o jogo e nos fez perguntas, querendo entender mais sobre o intuito do filme, qual era o nosso objetivo, sempre muito desconfiado. No final, disse que só falaria se garantíssemos para ele 12 horas ininterruptas de depoimento, e que não daria nenhuma prévia”.

A dupla correu o risco e separou o tempo para gravar o depoimento. Foi a primeira vez que ouviram a história de V., uma misteriosa colombiana que virou a vida de Chris de cabeça para baixo, e é, segundo ele, a razão pelo qual ele está preso. V. nunca aparece por completo. Ela é  sempre um vulto ou uma mulher sem rosto, seja no relato de Chris, como nas imagens do filme.

Ficção?
O filme estreou na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e chegou a ser questionado sobre a veracidade de sua história. A narrativa de Chris poderia ser uma reconstrução dos fatos? Ele estaria criando uma ficção? Em determinado momento do filme, um amigo do americano chama Chris de ‘Pinóquio’.

“Desconfiamos o tempo inteiro. Ininterruptamente. O que nos libertou, porém, foi abrir mão de encarar o filme como um documentário em busca de "verdades", e passar a vê-lo como um mergulho nesse universo semi-ficcional criado por Kirk”, conta os diretores.

Criada ou não, a história – assim como os hipopótamos – revelam muito do personagem. “Essa aspiração inicial dele tinha muito de idealização, uma postura um pouco colonialista em relação a América latina, especificamente às suas mulheres. E é esse desejo de encarar a vida de frente, por parte dele, que vai se complexando ao longo do filme, e demonstrando as armadilhas implícitas nessa postura.”
 

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