Filmes e séries

Crise na Petrobras faz minguar patrocínio para o cinema brasileiro

Divulgação
Cena de "Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios", um dos cerca de 500 filmes que contaram com recursos da Petrobras de 2003 a 2013 Imagem: Divulgação

Fabíola Ortiz

Do UOL, em São Paulo

13/05/2015 06h00

“O cinema brasileiro já não conta mais com os recursos da Petrobras”, lamenta André Sturm, empresário cultural, gestor do Cine Caixa Belas Artes e dono da distribuidora Pandora Filmes. A redução da receita, a queda nos lucros e escândalos de corrupção da companhia podem impactar fortemente a indústria cinematográfica no Brasil, prevê o setor.

O UOL conversou com diretores e produtores para entender os desafios que o cinema brasileiro enfrenta. A Petrobras, que sempre foi considerada a grande patrocinadora das artes no Brasil, poderá reduzir ao máximo a verba para patrocínio, especialmente para projetos audiovisuais e festivais de cinema. O resultado já está sendo sentido: os últimos editais nacionais foram abertos pela empresa em 2012 e não se sabe se haverá chamados este ano.

A estatal é alvo de denúncias de corrupção e estima em R$ 6,194 bilhões as perdas com pagamentos indevidos e desvios descobertos pelas investigações da Operação Lava Jato, da Polícia Federal. Ela também viu reduzir o valor de seus bens em R$ 44,3 bilhões.

A empresa registrou um prejuízo de R$ 21,587 bilhões em 2014, em comparação ao lucro de R$ 23,57 bilhões obtido no ano anterior. A crise na companhia custou o cargo da então presidente Graça Foster e de outros cinco diretores, que renunciaram em fevereiro. Em março foi divulgado ainda um plano de "desinvestimento", com a intenção de vender algumas unidades e levantar US$ 13,7 bilhões entre 2015 e 2016.

“Na hora que a Petrobras deixou de ter lucro, deixou também de haver incentivo para a cultura. Não foi a Lava Jato em si que causou o fim do programa [de patrocínio], foi a queda de faturamento e de lucro”, explicou Sturm, que também é diretor executivo do MIS (Museu da Imagem e do Som de São Paulo).

Fim dos editais públicos

As críticas ao baixo incentivo ao cinema vão além dos escândalos de corrupção. “Há pelo menos dois anos a Petrobras não faz mais o edital de apoio à produção de cinema. Esta era uma das principais áreas em que a empresa investia. O cinema brasileiro tinha virado sinônimo de Petrobras”, disse Sturm.

Ele lembra que era comum filmes terem a vinheta de abertura com o logotipo da estatal antes da exibição nas salas de cinema. “Era uma marca que a Petrobras criou como grande apoiadora do cinema brasileiro. Isso tinha começado há muitos anos”, destacou.

O edital a que Sturm se refere é o Programa Petrobras Cultural, lançado em 2003 como a maior ação de patrocínio à cultura do país. Desde então, por meio de chamadas públicas, a empresa patrocinou mais de 3.500 projetos, destinando R$ 2 bilhões para a cultura. Deste valor, R$ 1 bilhão foi recurso incentivado por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet) e R$ 980 milhões em recursos próprios, até 2013. Nesse período, cerca de 500 filmes contaram com o apoio da empresa.

A última vez em que a Petrobras abriu uma seleção pública nacional foi em 2012, ano em que destinou o maior volume de recursos na história do programa –R$ 67 milhões para 133 projetos aprovados. O maior montante --R$ 25 milhões-- foi repassado para o setor audiovisual.

“A Petrobras foi fundamental no ressurgimento e desenvolvimento do cinema brasileiro com uma produção grande, de 20 a 30 filmes por ano. O cinema nacional passou a fazer sucesso com reconhecimento de público e crítica”, comentou Sturm.

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  • Mastrangelo Reino/Folhapress

    Na hora que a Petrobras deixou de ter lucro, deixou também de haver incentivo para a cultura. Não foi a Lava Jato em si que causou o fim do programa [de patrocínio], foi a queda de faturamento e de lucro. Há pelo menos dois anos a Petrobras não faz mais o edital de apoio à produção de cinema. Esta era uma das principais áreas em que a empresa investia. O cinema brasileiro tinha virado sinônimo de Petrobras.

    André Sturm, empresário cultural, gestor do Cine Caixa Belas Artes, dono da distribuidora Pandora Filmes e diretor do MIS

Contudo, de um papel ativo e determinante da Petrobras no impulso ao cinema, o incentivo “infelizmente foi a zero”.

O ano seguinte ao recorde de patrocínio, 2013, não teve nenhuma chamada pública. E, em 2014, a empresa apenas lançou um edital regional para projetos em Minas Gerais, em um valor total de R$ 10 milhões via renúncia fiscal de ICMS no estado.

Embora não haja previsão de nenhum edital este ano, a empresa informa que, para 2015, “o Programa Petrobras Cultural continua fazendo parte do planejamento da companhia”, mas afirma que ainda não há definição sobre possíveis valores.

"Cinema está pagando o pato"

A depender de recursos da maior produtora de petróleo entre as empresas de capital aberto no mundo, o cinema não conseguirá sobreviver. As perspectivas são sombrias quanto ao financiamento de próximos projetos cinematográficos e de festivais para este ano e o ano que vem.

“Vários festivais já sofreram. A Petrobras manteve o apoio para alguns este ano, mas com recursos de marketing e não mais de incentivo fiscal. É possível que as produtoras de filmes venham a sofrer também com essa queda”, projetou Sturm.

O cineasta Beto Brant, sócio da produtora Drama Filmes, admitiu ao UOL que a situação não está fácil. “O fato é que já não acontecem mais editais da Petrobras”.
Lançado em 2012, o filme "Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios" dirigido por ele, recebeu aportes do Programa Petrobras Cultural 2008/2009.

Além deste, a produtora teve outros quatro longas patrocinados –“O Invasor” (2001), “Crime Delicado” (2005), “Cão sem Dono” (2007) e “Sangue Azul”, de Lírio Ferreira, com Daniel de Oliveira no elenco e estreia prevista para 4 de junho. “A partir disso, você pode imaginar o tanto que lamentamos os acontecimentos”, salientou.

Segundo Alain Fresnot, sócio da AF Cinema, a empresa descontinuou o programa de patrocínio de forma incompreensível. “Nós estamos agora pagando o pato por problemas alheios e por uma situação interna instável”.

O cineasta é um dos diretores da Associação Paulista de Cineastas (Apaci) e já foi jurado do Programa Petrobras Cultural. Ele argumenta que o formato das seleções públicas da companhia funcionava bem. “Era uma fonte democrática, transparente e sempre foi importante para o cinema brasileiro. O júri era independente. Não entendo por que a Petrobras descontinuou e não retoma imediatamente”, disse ao UOL.

Fresnot ainda apontou que todos os filmes feitos com o patrocínio tiveram suas prestações de contas fiscalizadas pela Ancine (Agência Nacional do Cinema). Mesmo assim, declara que “estamos aquém do necessário para instituir a indústria e criação cinematográfica no Brasil”.

A participação do cinema nacional no mercado não passa de 12% -- a maior participação foi em 2003, com 20%, segundo a APACI. Enquanto isso, a Europa como um todo tem 33% das bilheterias para seus próprios filmes, enquanto a França chega a 52% em seu mercado interno.

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  • Bruno Poletti/Folhapress

    Nós estamos agora pagando o pato por problemas alheios e por uma situação interna instável. [O Programa Petrobras Cultural] Era uma fonte democrática, transparente e sempre foi importante para o cinema brasileiro. O júri era independente. Não entendo por que a Petrobras descontinuou e não retoma imediatamente.

    Alain Fresnot, diretor da Associação Paulista de Cineastas, que já foi jurado do programa

A curto prazo, os produtores de cinema já não poderão contar mais com o dinheiro da estatal. “Esse recurso não está sendo levado em conta pelos produtores, eles já trabalham com outros recursos, como o Fundo Setorial do Audiovisual [da Ancine], que veio em boa hora e deu uma compensada. Não é a mesma coisa que era com a Petrobras, mas é um recurso importante que tem sido fundamental”, admitiu André Sturm.

No valor de R$ 162 milhões, o Fundo Setorial foi lançado em dezembro de 2014 para que uma linha de investimento em produção de conteúdo para cinema e TVs públicas e desenvolvimento de projetos começasse a ser aplicada este ano.

Para diretores como Roberto Farias (“Sob Nova Direção” e “As Noivas de Copacabana”) e Hilton Lacerda (“Augustas”, “Tatuagem” e “Capitães da Areia”), o Fundo Setorial é a melhor alternativa para driblar a escassez de dinheiro por parte da estatal.

"O cinema não morre"

“O cinema sempre viveu de seus próprios recursos”, disse ao UOL Farias. Ele lembra que nas décadas de 1950 e 1960 praticamente não existia financiamento público para o cinema no Brasil. O diretor define que o cinema vive de "surtos" ao longo de sua história, com momentos de declínio e impulso.

Na sua opinião, este momento de crise é apenas um “tropeço”. Ele lamenta a falta de editais: “É uma pena. O cinema é um fração dessa crise. Apesar dos prognósticos não tão animadores, não será por falta de dinheiro da Petrobras que os diretores deixarão de rodar filmes.

“O cinema sempre viveu de recursos privados de pessoas que acreditavam. Os filmes também contavam com as vendas na bilheteria. Quem nasceu para fazer cinema, tem talento e vive disso, não vai deixar de filmar mesmo sem recursos da Petrobras. O cinema não morre, é anterior à Petrobras, não é por causa da crise que vai acabar”.

Para Hilton Lacerda, uma coisa é certa: a falta de patrocínio da empresa evita que as produtoras se envolvam em qualquer investigação da PF em meio ao escândalo da Lava Jato. “A gente não corre o risco de ser investigado e paralisar as atividades. Há tempos a Petrobras já não participa como a grande patrocinadora. É uma tempestade política que causa uma certa insegurança. Uma hora iria bater na cultura”, comentou ao UOL.

Mesmo não se mostrando pessimista, Lacerda admite que “fará falta” o dinheiro da estatal. O cinema brasileiro não ficará órfão de recursos, garante. Se não fosse a criação do Fundo Setorial, “voltaríamos a uma estaca perigosa”, alertou. “Tivemos uma experiência traumática no começo dos anos 1990 e a retomada foi lenta. Estamos hoje num momento de amadurecimento do cinema e, para se afirmar, é preciso investimento constante”, frisou.

André Sturm segue na mesma direção ao defender uma política contínua de incentivo no setor. “Não se consegue ter uma produção forte e relevante de uma hora para outra. É necessário que sejam investimentos continuados. Na hora em que existe uma supressão de recursos, corre-se o risco de ter uma regressão na atividade e depois, para recuperar e recolocar nos eixos, pode levar tempo”.

Ele prevê que a possibilidade de a Petrobras retomar os investimentos no cinema brasileiro poderá vir apenas depois de 2017.

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