Cinema

Com drama sobre destino da China, Zhangke se torna favorito à Palma de Ouro

Thiago Stivaletti

Do UOL, em Cannes (França)

O chinês Jia Zhangke é hoje um dos melhores cineastas em atividade no mundo. Depois de vencer o Leão de Ouro em Veneza com "Em Busca da Vida" (2006) e a Palma de roteiro em Cannes pelo aclamado "Um Toque de Pecado" em 2013, ele arrancou fortes aplausos e tornou-se um dos favoritos à Palma de Ouro do Festival de Cannes 2015 com seu novo filme, "Mountains May Depart" (As montanhas podem partir).

O filme já abre lá em cima, com Tao (Zhao Tao, mulher de Jia) e amigos fazendo uma coreografia feliz e dançante para o hit "Go West", dos Pet Shop Boys. A mensagem é clara: o destino da China é ir em direção ao oeste, a cultura, aos valores (e ao mercado) do mundo ocidental.

A história começa em 1999, quando Tao é disputada por dois amigos: Liang, que trabalha numa mina de carvão, e Zhang, dono de um posto de gasolina. Casa-se com o segundo e com ele tem um filho, que ganha o sugestivo nome de Dólar. A história pula para o presente, 2014, com Tao já divorciada e tendo pouco contato com o filho. A grande sacada de Jia: a terceira fase se passa em 2025 na Austrália, quando muitos chineses já saíram da China, a nova geração (a de Dólar) fala inglês e mal conhece o chinês e o rapaz de 18 anos começa uma relação com sua professora de chinês, mais velha que ele.

Zhangke foi tema de "Jia Zhangke, um homem de Fenyang", um documentário do cineasta Walter Salles, diretor de "Central do Brasil" e "Diários de Motocicleta", que mostra as origens e a trajetória do cineasta e estreou no ano passado, na Mostra de São Paulo.

Divulgação
Cena do filme "Mountains May Depart", de Jia Zhangke imagem: Divulgação

"A música 'Go West' me mergulha nas lembranças que tenho de meados dos anos 1990", diz Jia. "A gente esperava com ansiedade o momento da festa no fim de semana. Toda vez que ela tocava, a gente dançava em trenzinho e fazia muita festa. Essa música tem uma potência em qualquer lugar do mundo. Mas a palavra West (oeste) não é tão importante pra mim. O importante é go (ir)", explicou Jia.

O diretor explicou um pouco o sentido poético do título: "Mesmo que as montanhas se separem, o sentimento que une as pessoas é imutável". Entre tantos lugares do mundo, por que imaginar o jovem Dólar na Austrália? "É uma distância sentimental. Em todos esses anos, visitei muitos amigos chineses em Nova York, Washington, Melbourne. A Austrália fica a apenas oito horas de avião da China, mas não no mesmo hemisfério. Quando estamos no verão, eles estão no inverno", falou.

Para Jia, o filme explora o contraste entre, de um lado, as intensas mudanças econômicas, tecnológicas e culturais por que passa o mundo, e do outro, a natureza humana e seus problemas. "Gosto de observar como a evolução do mundo não consegue alterar a natureza humana. Há coisas que não mudam jamais. Os seres humanos serão sempre confrontados com as emoções da vida", afirmou.

Zhao Tao, musa de Zhangke desde "Plataforma" (2000), um marco da quinta geração do cinema chinês, oferece uma interpretação pungente que também a coloca na disputa pela Palma de atriz. "Eu era uma simples professora de dança quando o conheci. Fizemos cinco filmes desde então. Jia é alguém com um enorme senso de responsabilidade, no trabalho e na vida pessoal. Tenho muita sorte de tê-lo encontrado", disse a atriz.

"Mountains May Depart" tem estreia garantida no Brasil, sem data definida.

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