Filmes e séries

Quadros de pintor brasileiro inspiraram cores vibrantes de "Amélie Poulain"

Luna D'Alama

Do UOL, em São Paulo

21/05/2015 06h00

Lançada em 2001, a comédia romântica francesa "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" encantou o público com a história de uma jovem que tenta ajudar as pessoas à sua volta. Além de ter sido indicado a cinco Oscars, entre eles o de melhor filme em língua estrangeira, direção de arte e fotografia, o longa lançou ao estrelato a atriz Audrey Tautou. Poucos sabem, no entanto, que as cores fortes e vibrantes do longa foram inspiradas no trabalho do pintor brasileiro Juarez Machado, 74 anos, que há 30 vive em Paris.

Em entrevista por telefone ao UOL, Machado contou como conheceu o diretor do filme, Jean-Pierre Jeunet. Segundo ele, no início dos anos 2000, o cineasta fez uma visita à sua galeria na capital francesa, pois morava próximo ao local, no bairro de Montmartre, onde se passa "Amélie Poulain". “A primeira coisa que ele fez foi comprar um quadro meu, de uma mulher agarrando um homem na escada. Ele adorou a minha paleta, que não tem tantas cores primárias, uso sempre tons mais fechados. Então o Jeunet me pediu livros, imagens, tirou fotos e levou para a equipe dele”, conta o pintor, que é de Joinville (SC) e fazia um quadro de mímicas no “Fantástico”, da Globo, nos anos 1970.

“Na época do filme, eu estava fazendo 60 anos, com uma exposição chamada ‘O Libertino’, que reunia 60 pinturas e 40 desenhos com temas eróticos”, explica Machado. Algumas obras do pintor estão, inclusive, presentes no cenário do filme. “Do lado da cama da Amélie, no quarto, há dois quadros meus, de uma mostra que fiz batizada de ‘A Festa Continua’”, revela o artista, que gosta de trabalhar com temáticas bem definidas.

Reprodução
Os dois quadros vistos nas laterais do quarto de Amélie são de autoria de Machado Imagem: Reprodução
O artista e o diretor de “Amélie Poulain” acabaram virando grandes amigos, de “trocar figurinhas” e almoçar juntos com frequência. “Depois [em 2004], ele ainda fez outro filme baseado nas minhas cores, chamado ‘Eterno Amor’, com a mesma atriz", lembra Machado.

“Até hoje nos vemos, lhe dei algumas gravuras, o escritório dele fica na rua atrás da minha. Temos uma amizade muito honesta. Vi todos os filmes dele, e ninguém se aproveitou de ninguém”, aponta. “Nossa identidade em comum vem dessa coisa meio surrealista, que mistura humor e surpresa”, destaca o pintor.

Segundo depoimento do diretor nos extras do DVD do filme, a narrativa gira em torno de uma história positiva, razão pela qual ele queria uma “explosão de cores”. Em alguns takes, como em cenas externas do café e dentro do metrô, as imagens foram saturadas para o verde na pós-produção – trabalho minucioso que rendeu ao longa indicações ao Oscar, ao Bafta e ao César de melhor fotografia.

Reprodução
Além de contrastes, longa usa cores para destacar cenas, como o azul do abajur Imagem: Reprodução
“Ele [Machado] usa bastante vermelho e verde, mas sempre há, em algum local da pintura, uma outra cor. Geralmente azul, ou amarelo bem brilhante, ou branco. Assim, a obra fica com um visual equilibrado. Nós usamos muito isso", diz o diretor de fotografia do filme, Bruno Delbonnel, também nos extras do DVD. “Quando [em uma das cenas] ela [Amélie Poulain] está cortando as cartas bem rápido, há um abajur azul [foto ao lado], e o resto é todo amarelo, verde e vermelho. Não ficaria bom sem o azul. Mas não [aplicamos esse recurso] em toda tomada, senão ficaria previsível”, completa Delbonnel.

No mundo do cinema, Machado ainda conquistou o ator norte-americano Jack Nicholson e a eterna diva francesa Catherine Deneuve. “Ele [Nicholson] me ama de paixão. Comprou dois quadros meus, encomendou mais dois e pediu para entregarmos pessoalmente em Los Angeles. Já a Catherine tem umas quatro obras minhas”, conta o brasileiro.

 

Bicicletas

 

Além das cores, os trabalhos do pintor catarinense são marcados pela presença de figuras humanas, sempre lânguidas e meio andróginas, que parecem estar entre o fim do século 19 e o início do 20. A maioria de seus personagens é retratada em momentos de lazer, na praia, em festas ou andando de bicicleta.

 

Arquivo Pessoal
Pintura "Operários do Itaum", a primeira obra premiada de Juarez Machado Imagem: Arquivo Pessoal
A referência às duas rodas vem da infância do artista, pois Joinville foi por muito tempo conhecida como a “Cidade das Bicicletas”. Sua primeira tela premiada, inclusive, foi “Operários do Itaum”, que mostra dezenas de funcionários de fábricas indo para o trabalho de bicicleta, sob a chuva. “Venho de uma cidade industrial que já deteve a marca de duas bicicletas por habitante. Era normal ver até 5 mil pessoas pedalando juntas na entrada e saída das indústrias. Eu já desenhava essas cenas aos 6, 7 anos. Mas, como não queria trabalhar na fábrica, fui estudar artes em Curitiba, aos 18 anos”, lembra o pintor, cujo pai era caixeiro-viajante e a mãe pintava leques de seda.

 

“Ser artista naquela época era estranho, bobagem, não tive apoio de ninguém, exceto do meu pai, que era um homem com a cabeça mais aberta, tinha noção do mundo além do horizonte”, recorda Machado, que a partir do curso na capital paranaense começou a aparecer na Rede Tupi, fez amizade com personalidades como Ary Fontoura, mudou-se para o Rio de Janeiro, Londres, Nova York e, finalmente, Paris. “Essa era a cidade que ditava a moda, era elegante, o francês era a língua da diplomacia. Cresci vendo essa cultura, muito mais a europeia que a americana, que só ganhou força no pós-guerra”, afirma.

 

O vínculo do pintor com o Brasil, porém, ainda permanece: “Fico três ou quatro meses em Paris, depois faço pingue-pongue entre Rio, Joinville, Floripa e Curitiba, durante esse mesmo período. Não tenho mais casas, tenho ateliês”, diz Machado. Além de manter um estúdio na capital francesa e outro no Rio, o pintor tem telas, desenhos e esculturas em duas galerias de Paris, outra em Béziers, no sul da França, e mais uma em Bruxelas. “Viajo com 200 quilos de material e uma cueca no corpo", brinca. "Trago tintas que não existem aqui, bons papéis, quadros, desenhos, livros, pincéis”, enumera o artista, cujos quadros chegam a custar até US$ 50 mil (R$ 150,3 mil), dependendo do tamanho, e não costumam ir a leilão, por receio de que os preços sejam colocados num patamar muito baixo e o autor "queime o filme".

 

Instituto


Rodrigo Arsego/Divulgação
Fachada do Instituto Internacional Juarez Machado, aberto em 2014 em Joinville (SC) Imagem: Rodrigo Arsego/Divulgação
Além de dar nome a prédios de Joinville, Florianópolis e Curitiba, e também a um teatro de sua cidade natal, em novembro de 2014, após dois anos de restauro, a casa onde o artista passou a infância e a adolescência virou o Instituto Internacional Juarez Machado, inaugurada com a exposição "A Bicicleta na Vida e Obra de Juarez Machado".

 

"Queriam derrubar, fazer prédio, me dar um apartamento. O que eu ia fazer com isso? Chamei um especialista para deixar o imóvel do jeito que era, com a mesma madeira, azulejo, porta, lâmpada. Também construí um pavilhão de exposições, mas fiz de tudo para não estragar o jardim que era da minha mãe. Protegemos as plantas, e lá estão os antúrios, camélias, jabuticabeira, goiabeira, bananeira", cita. “As pessoas estão adorando, vão lá para namorar, bater papo, ver as obras.”

 

Segundo o pintor, o instituto o ajudou a resolver sua maior angústia, que era encontrar um lugar para estocar seus 3.000 quadros e 7.000 desenhos. “Também tenho esculturas, objetos e quilômetros de cartas trocadas com o Drummond, Millôr [Fernandes], Vinicius [de Moraes], Tom [Jobim], Antônio Houaiss. Tenho desenhos desde os 3 anos de idade. É um patrimônio que acumulei desde os tempos de colégio, quando apanhava dos professores por desenhar na classe, mas já tinha feito a lição em casa e só queria ganhar tempo, para poder produzir mais”, diz Machado.

 

No instituto, o pintor também expõe obras de outros artistas catarinenses. Entre seus planos para o futuro, estão uma mostra com seus colegas paranaenses, dos tempos do curso em Curitiba, e outra para destacar o trabalho de grafiteiros locais. “Esses artistas deixaram de ser pichadores e viraram pintores de parede, no bom sentido. Pintar com bomba e spray é extremamente difícil, é complicado fazer com qualidade. E eles pegaram o jeito”, afirma. “Essa é uma arte ainda meio discriminada, que começou na periferia, com o [norte-americano Jean-Michel] Basquiat.”

 

Para Machado, um artista só se aposenta quando morre. “Achei que eu ia ter uma velhice tranquila para poder brincar com meus netinhos, deitar numa rede, conversar com os amigos, mas cadê tempo? É uma trabalheira danada, é um vício, estou numa competição comigo mesmo. Acordo às 5h e trabalho até as 22h todos os dias, não tem Natal, feriado”, relata o pintor, que tem três filhos e, desde 2005, está casado pela terceira vez.

 

 

 

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