Cinema

Presença em eventos menores diminui peso do "selo Cannes" para o Brasil

Thiago Stivaletti

Do UOL, em Cannes (França)

O Brasil está em baixa em Cannes. Nas últimas cinco edições, apenas um longa-metragem inteiramente nacional foi selecionada para as mostras oficiais --"Trabalhar Cansa", de Marco Dutra e Juliana Rojas, na Um Certo Olhar em 2011. Além disso, outras duas co-produções internacionais com participação de brasileiros tiveram espaço no evento francês: "O Sal da Terra" (Um Certo Olhar, 2014) e "On the Road" (Competição, 2012).

Diante da dificuldade em emplacar nossos filmes na seleção, qual a importância que os produtores brasileiros dão hoje ao "selo Cannes"? Ainda faz diferença ter um filme no maior festival do mundo e poder estampar o símbolo do evento nos cartazes promocionais?

A resposta é sim e não --porque Cannes também está em baixa no Brasil, substituído por festivais menores, com seleção mais variada.

"Cannes é um festival de muita visibilidade e poderia ser importante para os filmes brasileiros. Não dá para dizer que ainda seja, porque há anos nenhum filme de longa-metragem do país é selecionado", diz André Sturm, presidente do Cinema do Brasil, programa governamental que ajuda a difundir o cinema nacional no exterior.

Para ele, o Festival de Berlim, que acontece em fevereiro, é hoje a principal janela para o cinema brasileiro. "Nos dois últimos anos, tivemos sempre um filme entre os selecionados lá que vendeu muito bem. 'Hoje eu quero voltar sozinho' vendeu para mais de 20 países, e 'Que horas ela volta?', para mais de 25".

Divulgação
Cena do documentário "O Sal da Terra", co-produção entre Brasil, França e Itália, que ganhou o Prêmio Especial do Júri da mostra Um Certo Olhar em 2014 imagem: Divulgação

Se há dez anos Cannes era a única meta dos produtores, agora festivais menos conhecidos do grande público como Toronto, Locarno e San Sebastián assumiram o papel de grandes vitrines do cinema brasileiro e latino. No ano passado, Locarno escolheu o Brasil como homenageado do ano, exibindo longas nacionais e dando um prêmio para a finalização de longas do país.

"Ter um filme em Cannes pode ter um lado bom e outro ruim. Se o filme é bom e estourar aqui, vai fazer a melhor carreira possível. Mas se não tiver uma grande repercussão, ou receber muitas críticas negativas, é o pior lugar para estar", diz o diretor Kléber Mendonca Filho, cujo "O Som ao Redor", indicado pelo Brasil ao Oscar em 2013, foi lançado em um festival dito de segunda linha --o de Roterdã, na Holanda. "Se meu próximo longa ['Aquarius'] ficar pronto a tempo, claro que vou enviar a Cannes no ano que vem. O que não dá é esperar seis meses para tentar uma vaga aqui."

Distribuição mundial

Duas das maiores produtoras do Brasil, Sara Silveira ("Cinema, Aspirinas e Urubus") e Vania Catani ("O Palhaço") dizem que o selo Cannes ainda é importante e não pode ser descartado. "Cannes ainda faz a diferença. Aqui, você consegue uma world sales [agente internacional de vendas de filmes] e convites para todos os festivais do mundo, inclusive do Brasil", diz Vania, que vem a Cannes há 12 anos e teve "A Festa da Menina Morta" selecionado em 2008.

"Estamos cientes de que é muito difícil colocar filme aqui. Os latinos selecionados têm sempre um diálogo com favela, miséria, prostituição. Não é o que eu faço". Um dos novos filmes produzidos por ela, "Mate-me por Favor", da carioca Anita Rocha da Silveira, foi um dos que quase conseguiu a sonhada vaga em Cannes --recebeu fortes elogios dos selecionadores do festival, mas ficou de fora da lista final.

Sara, que frequenta o festival há 15 anos, teve dois filmes selecionados em Cannes: "Cinema, Aspirinas e Urubus", em 2005, para o qual o selo Cannes só fez bem --o filme foi vendido para 15 países-- e "Trabalhar Cansa" em 2011, que segundo ela "teve uma repercussão bem menor do que o esperado" e foi vendido para apenas sete países.

"Mas Cannes ainda é a meca. Um filme latino selecionado aqui aproveita muito mais a projeção do festival do que filmes europeus e americanos de diretores consagrados." Para ela, outros países americanos estão com espaço bem mais cativo em Cannes do que o Brasil. "A Argentina e a Colômbia estão encontrando o seu espaço aqui. E o Chile vem aí. A gente ainda está aprendendo a desenvolver nossos roteiros. Vamos chegar lá, mas é um avanço gradual".

Sandro Fiorin, diretor da Figa Films, agência internacional de vendas que tem no catálogo filmes independentes de pequeno orçamento como o dominicano "Dólares de Areia" e os brasileiros "Castanha" e "Ventos de Agosto", discorda. Segundo ele, Berlim, no início do ano, e Toronto em setembro, são plataformas melhores de venda para seus filmes.

"Em Cannes, os filmes pequenos são abafados pelos grandes nomes da competição". Para ele, o cinema latino vem conseguindo crescer no festival francês, mas sem o mesmo espaço que teve em 2008, quando Walter Salles, Pablo Trapero e Lucrecia Martel disputaram a Palma. "Os selecionadores não prestam atenção em como o Brasil já se desligou do filme de favela, de pobreza, de exploração. O que ha de novo no país eles não estão interessados. Isso é o que mais me magoa. A gente continua lutando por uma vaga aqui, eles dizem que gostam, ficam até a hora final mandando e-mail, dando esperança, e na hora H nunca entra", critica.

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