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Filmes e séries

Selton Mello volta a abordar questões familiares ao dirigir o seu 3º filme

Flavia Guerra

Do UOL, em Cotiporã (RS)

26/05/2015 07h00

Depois de quase dois meses, as filmagens de “O Filme da Minha Vida”, novo longa-metragem dirigido por Selton Mello, chegam ao fim nesta semana, em Bento Gonçalves (RS). Baseado no livro “Um Pai de Cinema”, do escritor chileno Antonio Skármeta, o filme conta a história de Tony (Johnny Massaro), um jovem professor que, aos 21 anos, após concluir a faculdade, volta para sua cidade natal e descobre que o pai (vivido pelo francês Vincent Cassel) foi embora.

“Enquanto tenta descobrir por que o pai partiu, Tony dá aulas de francês, se encanta por duas irmãs [uma delas vivida por Bruna Linzmeyer], mas ainda é virgem e inexperiente. Aos poucos, vai descobrindo a vida”, revela Mello. “É a clássica história de um jovem virando adulto, sobre reparação, desejo, família. É muito sensível, como o livro do Skármeta é”, comenta o diretor, cujo filme anterior, “O Palhaço” (2010), levou mais de 1,5 milhão de pessoas aos cinemas.

No novo longa, além de dirigir e escrever o roteiro em parceria com Marcelo Vindicatto, Mello interpreta Paco, amigo de Tony. “Atuo em um personagem menor desta vez. Foi perfeito, porque eu não me mato tanto.”

Reprodução/Facebook
Em sentido horário, a assistente de direção Kity Féo, o diretor de fotografia Walter Carvalho, Selton Mello e o escritor Antonio Skármeta, nos bastidores de "O Filme da Minha Vida" Imagem: Reprodução/Facebook
Quem também atua no filme, fazendo uma participação, é o escritor Skármeta. “Ele faz um monólogo que ele mesmo escreveu, sobre um ciclista que disputa uma corrida com a morte. E eu, como Paco, ouço tudo”, revela o diretor. Sobre ter dirigido o escritor, Mello comentou que a parceria de Skármeta foi decisiva para todo o projeto. “Ele sempre foi muito generoso e amoroso. Muito pela experiência de ter tido outros livros adaptados para o cinema, estava tranquilo, confiou que eu ia cuidar bem dos personagens que criou”, contou Selton, referindo-se a outras  obras do escritor que renderam filmes premiados, como “Ardente Paciência”, que se tornou “O Carteiro e o Poeta” (1994) sob direção de Michael Radford, indicado a vários Oscars; “O Baile da Vitória”, que virou “A Dançarina e o Ladrão” (2009), dirigido por Fernando Trueba, além da peça “O Plebiscito”, que Pablo Larraín transformou no longa “No” (2012, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro).

“Ser dirigido pelo Selton foi delicioso. Seus filmes têm muito a ver com meus livros, que contam histórias dos personagens secundários da vida, que não são protagonistas, mas que têm desejos, vontades, fantasias intensas. Estão perdidos nestes lugares”, declarou o escritor ao UOL, pouco antes de deixar Bento Gonçalves.

Mello também falou sobre as questões familiares sempre presentes nos seus filmes, além de sua relação com a TV e o cinema. “Dizem que todo cineastas faz o mesmo filme a vida inteira. Eu agora começo a olhar para os três filmes e começo a entender  isso”, diz o ator e diretor. Skármeta, que acompanhava a entrevista de Mello, também aproveitou fazer uma pergunta ao diretor. Confira abaixo:

Skármeta: “Eu quero te fazer uma pergunta importante: Por que você escolheu Vincent Cassel para viver o pai no filme? E por que Johnny Massaro para viver Tony?”

Selton Mello: Porque Cassel é um grande ator. E ele emprestou para este personagem uma coisa muito interessante. Ele tem uma vulnerabilidade e, ao mesmo tempo, é forte. Ele foi muito importante para a história. O pai deixa um vazio, que um ator como o Vincent traduz perfeitamente. Já o Johnny é um talento em quem estou de olho há algum tempo. É um jovem ator sensível, que também é um pouco gauche, muito humano, que também pode ser divertido, encantador. E é um tipo, uma máscara, muito especial, perfeito como filho do Cassel.

UOL: Como foi a decisão de desta vez filmar uma história inspirada em um livro? 

Foi natural. Eu estava em busca da história para meu terceiro filme. E quando Skármeta surgiu, eu até pensei que fosse trote, mas depois vi que era de verdade e me encantei pelo livro. Tem tudo que eu gosto, tem todos os elementos. É uma história muito humana, lírica, passada ao sul do Chile, que tem muito em comum com o Sul do Brasil. É um drama vivido pela lente da memória. É como se fosse uma lembrança do Tony. A memória nem sempre é focada, mas sim difusa. Minha missão é tentar fazer com que o público sinta o encantamento que eu senti que eu senti quando li a história que ele escreveu.

Este é um filme sobre um drama familiar, algo que você sempre trata na sua obra. Estas escolhas têm a ver com sua própria história?

É curioso isso. Porque não é algo consciente. Não sei responder racionalmente. Dizem que todo cineasta faz o mesmo filme a vida inteira. Eu agora começo a olhar para os três filmes e começo a entender  isso. Os três personagens têm algo em comum, o Caio de ‘Feliz Natal’, o Benjamim de ‘O Palhaço’ e agora o Tony de ‘O Filme da Minha Vida’, se sentem deslocados no mundo, são peixes fora d’água.

E os três têm assuntos importantes a resgatar com a família.

Exato. Nos três filmes, os protagonistas têm questões familiares e se deslocam para algum lugar para enxergar de outra perspectiva o que estavam vivendo. E voltam mudados. É engraçado isso. Se tem algo a ver com minhas questões familiares? Deve ter. Vai saber! É assunto para ‘Sessão de Terapia’. Mas o fato é que esta é uma história dramática, familiar, mas há algo único: o humor. Os personagens têm sua relação intensa, mas sabem dosar a proporção entre o drama e o humor.

Este equilíbrio entre humor e dor também dá o tom em ‘O Palhaço’. É outra marca sua, não?

DivulgaçãoReprodução
Selton Mello, em cena de "O Palhaço" Imagem: DivulgaçãoReprodução
Sim. ‘O Palhaço’ foi um filme muito importante. Tinha uma coisa intuitiva de juntar um filme de arte com um filme de público. Intimamente, foi como se eu tivesse encontrado a minha veia. O filme se comunica com muita gente, mas não perde a ternura. Tem espaço para a imaginação, mas que não seja hermético. Este é o caminho que eu quero continuar trilhando. E no material do Skármeta eu encontrei isso. É a mesma prateleira de ‘O Palhaço’. É como a vida. A vida é louca, é patética, surpreendente, divertida. Meu desafio é tentar colocar em duas horas um pouco do carrossel que é a vida.

A propósito, você é um ator e agora diretor que lida muito bem com a TV. O que acha da disputa que há atualmente entre cinema e televisão?

Adoro TV. Acho que o importante é unir as duas coisas. Sou espectador de todos os seriados. E algo que foi muito bom na minha trajetória como diretor, que foi incrível, foi que, entre o ‘Feliz Natal’ e  o ‘Palhaço’, não teve nada. Mas entre o ‘Palhaço’ e ‘O Filme da Minha Vida’, teve três temporadas de ‘Sessão de Terapia’, que dirigi sozinho.

E essa experiência com ‘Sessão de Terapia’ o ajudou a voltar ao set de cinema?

Sim! Muito! ‘Sessão de Terapia’ foi muito importante na minha formação como diretor. Foram 115 episódios de meia hora. Ou seja, tive muita estrada entre ‘O Palhaço’ e este filme, em dramaturgia, em trabalho com os atores, de descobrir meu jeito de trabalhar, minha linguagem, minha técnica. E venho com muita estrada para o set de ‘O Filme da Minha Vida’, muito aquecido. Foi um trabalho lindo, concentrado numa sala, com atores, delicado, sensível. Amei fazer. E me deu muita quilometragem. Isso falta no Brasil. A gente faz um filme, depois fica até dez anos sem fazer outro. E nisso se perde a mão, pois temos de praticar. A TV, neste sentido. pode ser muito boa. Para mim, foi decisivo.

Em tempos de Netflix e distribuição por streaming, a TV briga com o cinema ou complementa?

Complementa. Existem bons e maus filmes. Existe a TV boa e a TV ruim. Não necessariamente o cinema é melhor que a TV. Há coisas em TV e seriados que são melhores do que em muitos filmes. E há mercado para todos. Eu gosto de ver tudo para saber o que andam aprontando, como espectador, como fã. Esses seriados são incríveis. “A Sete Palmos”, “Mad Men”, “Família Soprano”... “House of Cards” é genial. Eu adoro assistir. Ainda não comecei “Game of Thrones”, mas vou ver.

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Rolando Boldrin, no set de "O Filme da Minha Vida", dirigido por Selton Mello Imagem: Reprodução/Facebook

Em seus filmes e também na TV, você deu oportunidade a atores que o mercado não valoriza ou não descobriu. As séries são um espaço para atores de cinema serem mais valorizados no Brasil, como já ocorre nos Estados Unidos?

Sim. Gosto de trabalhar com atores conhecidos, mesclados com novos talentos e uma pitada de atores que admiro e que o mercado não utiliza. No primeiro filme, foram Darlene Glória e Paulo Guarnieri; no segundo, foi Moacir Franco e Ferrugem. No “Sessão de Terapia” foram o Claudio Cavalcanti e a Selma Egrei. E agora é o Rolando Boldrin, um cara que eu adoro. É um grande ator, que não atuava havia muito tempo.

Já virou uma marca sua trazer este elemento surpresa, do resgate de um grande nome.

A surpresa é para o público, pois eu já admiro estes atores há muito tempo. O Boldrin e o Moacir Franco eu via na infância. Admiro muito o “Som Brasil”, o projeto do Boldrin de resgatar nossa música de raiz. Neste filme, tem também a Ondina Clais, que faz a mulher do Cassel.  É uma grande atriz de teatro que não tinha ainda protagonizado um filme. Tem ainda a Martha Nowill, que é outra grande atriz. Esta mistura dá um frescor muito grande. Acho que este é um caminho bom para as séries de TV e para o cinema.

*A repórter viajou a convite da Bananeira Filmes