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Filmes e séries

Entenda por que caso "Chatô" não se repetiria hoje em dia

Mariane Zendron

Do UOL, em São Paulo

27/05/2015 14h57

Em 1995, Guilherme Fontes estava bombando. Com apenas 27 anos de idade, ele já tinha sido disputado pelas gêmeas Ruth e Raquel (Glória Pires) na novela “Mulheres de Areia” e perturbado vidas como o espírito Alexandre de “A Viagem”. No teatro, assumiu de última hora a produção da peça “Desejo” e encheu a plateia. Na mesma época, o cinema vivia a boa fase da retomada, e Fontes não teve dificuldades para receber o sinal verde do Ministério da Cultura para tocar a ideia ambiciosa de levar para as telas a vida de Assis Chateaubriand.

Sem um único filme no currículo como diretor, Fontes foi autorizado a captar R$ 15 milhões, dos quais conseguiu R$ 8 milhões. Já se passaram 20 anos, e o filme não saiu. Além disso, a Justiça encontrou irregularidades nas prestações de contas, e o dinheiro não foi devolvido aos cofres públicos.

Para saber o que o cinema brasileiro aprendeu com o caso, o UOL procurou profissionais do setor audiovisual e perguntou a eles se seria possível termos um novo caso "Chatô" no país.

Mais experiência, mais dinheiro

Advogado especializado em direito audiovisual, Gilberto Toscano explica que a Agência Nacional do Cinema (Ancine) foi criando e aperfeiçoando as regras para financiamento de filmes conforme o crescimento do mercado, mas destaca duas medidas que impedem um novo caso “Chatô”. “Desde 2006, a Ancine ranqueia os produtores, permitindo que eles captem mais ou menos recursos de acordo com seu histórico de produções”, explica.$escape.getH()uolbr_geraModulos('embed-citacoes','/2015/caio-gullane-1432672022242.vm')

Isso quer dizer que, se Guilherme Fontes quisesse fazer seu “Chatô” nos dias de hoje, ele poderia arrecadar no máximo R$ 1 milhão, por ser um diretor estreante. Esse ranking de produtores, que vai de 1 a 7, é progressivo. O cineasta sobe nessa escala à medida que produz e comprova que produziu suas obras. Para ter autorização para captar R$ 15 milhões hoje, ele tem que ter no currículo pelo menos três longas-metragens prontos e exibidos.

Outra medida destacada por Rosana Alcântara, diretora da Ancine, é o da liberação do dinheiro pela agência só quando o produtor captar 80% ou mais do valor aprovado para a obra. Isso é feito para garantir que o valor dê conta de levar o projeto até o final. O advogado Toscano também explica que, mesmo com todas essas medidas, ainda é possível captar e não entregar o projeto. Hoje, no entanto, o rombo seria bem menor.

O sistema de classificação (ver tabela) deve ter alterações em breve para aperfeiçoar as regras de captação. Segundo a diretora da Ancine, a ideia é diminuir a quantidade de níveis para simplificar o processo.$escape.getH()uolbr_geraModulos('embed-infografico','/2015/tabela-cinema-1432733927682.vm') 

"A coisa corria mais frouxa"

Quando Fontes deu início ao seu ambicioso projeto, em 1999, a Ancine, que fomenta, regula e fiscaliza a produção cinematográfica no país, ainda não tinha sido criada. Isso só aconteceria dois anos depois. “Ali era um início da retomada do cinema. Então, a retomada já diz: as regras não estavam tão claras”, diz Caio Gullane, que em 1996 fundou a Gullane Filmes com o irmão Fabiano. A produtora foi responsável por filmes importantes do cinema nacional, com “Bicho de Sete Cabeças”, “Carandiru”, “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, entre outros. “A fiscalização [hoje em dia] está muito mais em cima. É muito difícil acontecer um caso igual ao ‘Chatô’. A gente só tem crescimento no cinema brasileiro”, afirma Gullane."Ele ['Chatô'] foi um ponto fora da curva sob vários aspectos: tempo de produção, tempo de captação, formas de organização e etc...", complementa Alcântara.$escape.getH()uolbr_geraModulos('embed-citacoes','/2015/lira-1432672131106.vm') 

“Depois dessa história , a Ancine se burocratizou de uma maneira impressionante”, concorda Susanna Lira, diretora e produtora que realizou 17 documentários em sua carreira. “Antigamente, a coisa corria mais frouxa, aí chegava no final e degringolava. Hoje, o produtor tem que ter um controle muito maior em relação às contas. É um trabalho a mais, mas eu prefiro que me questione logo do que chegar no final e uma conta não bater.”

Efeito “Chatô”

Susanna conta que a burocracia já lhe rendeu situações engraçadas, como ter que escrever cartas para comprovar que é brasileira. “Isso já aconteceu várias vezes. Quando rola uma coisa meio absurda, a gente, que é do meio, diz que é o ‘efeito Chatô’”, conta ela. “Mas é importante deixar claro que, embora trabalhosa, a burocracia é necessária. É recurso público e tem que ter acompanhamento”, diz ela.

Segundo a diretora, isso vem mudando, mas ainda falta no meio a consciência de que um filme é um produto como qualquer outro. “O audiovisual não pode se ver de maneira especial. Mesmo o pintor que faz uma tela na casa dele tem que pensar na galeria em que ele quer expor, como aquilo vai gerar recursos para ele”, diz ela.

Caio Gullane tem discurso parecido. “Você tem que entregar o que vende, isso em qualquer setor. Se você vende dez carros, você tem que entregar dez carros.”

Apesar de apoiar a regulação, o produtor salienta que as regras ainda precisam de aprimoramento. “Como trabalhamos de forma profissional, não temos nenhum problema em prestarmos conta, mas as regras precisam ser aprimoradas. Nenhum empresário gosta de perder tempo com burocracia.”

Rosana Alcântara afirma que há esforços constantes de ajustes e aprimoramento dos procedimentos de captação da Ancine. "É uma agência reguladora em um mercado muito vivo, muito dinâmico, que sofre muito pelo impacto tecnológico. A agência está sempre ajustando e aprimorando seus procedimentos com objetivo de fazer com que o mercado mantenha uma estabilidade no processo produtivo. Estamos falando de um mercado que tem média de 115 filmes por ano."