Filmes e séries

Documentário revela verdadeira história de Kurt Cobain? Há controvérsias

Clarissa Wolff
João Vitor Medeiros

Do UOL, em São Paulo

16/06/2015 13h50

Apesar de amplamente elogiado, há quem não tenha gostado de "Cobain: Montage of Heck", primeiro documentário oficial sobre o líder do Nirvana, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (18) e que fica em cartaz por uma curtíssima temporada. Charles R. Cross, que escreveu três livros sobre a banda e sobre Cobain, incluindo a consagrada biografia "Heavier Than Heaven", é um deles. "Um dia vai haver um documentário realmente incrível, mas esse é, no máximo, bom. E, em alguns momentos, quase impossível de assistir", disse ele ao UOL.

Cross foi uma das primeiras pessoas a saber da morte do músico, no dia 8 de abril de 1994, como conta em seu livro "Kurt Cobain - A Construção do Mito" (Nova Fronteira, 2014), uma obra sobre a influência do Nirvana 20 anos depois da morte de seu líder --e, consequentemente, da banda. "Ele era um gênio criativo, muito capaz de colocar sua dor no seu trabalho. É por isso que as pessoas se identificam", reforça.

Já Buzz Osbourne, amigo e líder da banda Melvins, da qual Cobain era fã, escreveu no site The Talkhouse: "Antes de tudo, vocês precisam entender que 90% de 'Montage of Heck' é besteira. Isso é uma coisa que ninguém entende sobre Cobain --ele era um mestre em tirar com a sua cara". Até mesmo um dos fatos mais conhecidos sobre o artista e uma das explicações mais utilizadas para seu vício em heroína, sua fatídica e incurável dor de estômago, é contestado por Osborne. "Ele me disse que não tinha nada de errado com seu estômago. Ele inventou isso para ter simpatia das pessoas e poder usar como desculpa para se drogar".

A legião de fãs, porém, é incansável na busca pela verdadeira essência de Kurt Cobain. "Todo mundo quer uma explicação para o seu suicídio e todo mundo quer buscar um culpado para isso", Cross enfatiza, explicando que essa atitude comum ignora o fato de que Cobain fez suas próprias escolhas. "Muitos fãs querem culpar qualquer pessoa, menos ele, porque não querem aceitar que ele os deixou. Eles se sentem traídos. Há muitas razões para se tornar um viciado e se suicidar, mas nada nem ninguém pode ser culpado. Todos nós que temos viciados e suicidas na família sabemos disso".

Divulgação
Diretor do Brett Morgen, diretor de "Cobain: Montage of Heck" Imagem: Divulgação

Curiosamente, uma das questões que Cross levanta na resenha que escreveu sobre o documentário para o jornal "Seattle Times" é sobre o título, retirado de uma mixtape antiga feita pelo vocalista. Ao UOL, o diretor Brett Morgen justifica a escolha: "Senti como se fosse um portal para a mente de Kurt. Foi uma das formas de expressão mais puras que eu ouvi dele. Era um cara que trabalhava em todas essas mídias diferentes, mas nessa fita específica parecia que tudo se juntava em uma coisa só: seu humor, sua angústia, suas influências culturais, sua alegria. No momento que eu descobri aquela fita, eu quis chamar o filme de 'Montage of Heck' porque eu queria esse tipo de efeito".

O documentário é de fato uma colagem de materiais inéditos, desde filmagens até áudios e mixtapes, sequências em animação e entrevistas com sua família, companheiros de banda e envolvimentos românticos, mostrando da infância ao declínio causado pelo vício em heroína, muitas vezes na voz do próprio astro. Parece ser o retrato definitivo de Cobain: com acesso exclusivo aos arquivos pessoais do músico e a pessoas de sua família, o diretor passou oito anos mergulhado para produzir o filme de pouco mais de duas horas.

O diretor, contudo, não clama verdades. Não há um veredicto final sobre quem é, realmente, Kurt Cobain. O que ele faz é nos revelar os detalhes mais importantes descobertos em oito anos de garimpo e deixar que escolhamos no quê acreditar. "Nos últimos 20 anos, Kurt foi um farol para muitas pessoas que se sentem sozinhas, mas até agora nós tínhamos tido muito pouco acesso ao que ele produziu. 'Montage of Heck' é como conhecer um velho amigo pela primeira vez".

Mãozinha de Frances Cobain e Courtney Love

O documentário aconteceu a partir de um contato da viúva Courtney Love com Brett Morgen em 2007. Com fama de controladora com relação à memória do marido e personagem principal de uma série de teorias conspiratórias, Courtney confiou cegamente em Morgen. "O que ela fez foi extremamente corajoso. Deixou que eu revirasse a vida dela e só assistiu o filme dois dias antes da estreia. Eu sinceramente não conheço ninguém que faria isso", contou ele por telefone. Afastando qualquer boato sobre a influência da roqueira no resultado final, ele é direto e bastante enfático: "O público precisa saber que o filme não tem nenhum objetivo a não ser o definido por mim mesmo".

A produção executiva é de Frances Cobain, filha única do vocalista. "Eu não queria nada que reforçasse o mito Kurt Cobain". Essa foi a mensagem da jovem a Morgen durante a produção de "Montage of Heck". O pedido é compreensível: Frances viveu a maior parte dos seus 22 anos sem a presença da figura paterna (ela tinha menos de dois anos quando ele morreu), mas rodeada de referências a ela. A fama magnânima, as músicas nas rádios, a constante presença na mídia, como ela disse em entrevista à "Rolling Stone" norte-americana: "Kurt é inescapável". Ao encontrar os ex-integrantes do Nirvana, Dave Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear, Fraces contou que ouviu sem parar o quanto é semelhante ao pai.

Para o cineasta, "Montage of Heck" é diferente de tudo que já foi falado sobre o músico. "A história do Kurt Cobain nunca foi contada usando sua música. Existem livros, mas livros são livros, eles não te proporcionam experimentar a arte, no caso a coisa que fez com que você quisesse ler o livro", declara. "Oitenta e cinco por cento [do filme] são filmagens jamais vistas ou raras, que revelam partes da personalidade do Kurt nunca antes mostradas", completa, enfatizando a ambivalência entre o artista que aparecia nesses excertos, que, para o diretor, revelam sua personalidade sem filtro, e a versão das entrevistas do auge do Nirvana. Cobain, inclusive, não escondia o quanto falar com a imprensa o deixava desconfortável: "Está tudo na música".

A consciência de quem Cobain queria se tornar, mesmo que efêmera, é permanente no filme. "Eu queria ser um vândalo", ele fala ao entrevistar Buzz Osbourne. "Ele queria se tornar um junkie, essas são as palavras dele", Courtney revela no documentário. Não resta dúvidas quanto à sua sensibilidade extrema: desde sua expressão artística até o cuidado e o carinho explícitos nos vídeos caseiros, é inegável que Cobain era uma pessoa empática e sensível. "Se você é racista, machista ou homofóbico, não compre nossos discos", diz o encarte de "Incesticide", disco de 1992.

Em uma das apresentações do próprio Nirvana, em Buenos Aires em 1993, a banda Calamity Jane, vinda de Portland e formada só de mulheres, convidada para abrir a noite, foi vaiada pela plateia e alvo de inúmeros xingamentos misóginos. Ao saber do ocorrido, Cobain queria cancelar o show à beira do palco, mas foi convencido pelo baixista Krist Novoselic a não fazer isso para não perder o cachê. A solução que eles encontraram foi apresentar um set de lados B, em que cada música começava com os primeiros acordes de "Smells Like Teen Spirit" e se transformava em uma confusão sonora barulhenta e desconhecida.

Por isso, é estranho que Tobi Vail, supostamente a garota citada no hit mais famoso da banda ("she's overbored and self assured") e declaradamente a musa de "Lounge Act", não seja em nenhum momento citada no documentário. Feminista radical e membro da banda riot grrrl Bikini Kill junto com Hanna, ela foi namorada de Kurt por alguns meses e segundo vários biógrafos teve um grande impacto na vida do artista, sendo muitas vezes apontada como a maior inspiração para a composição de "Nervermind" --fato negado pelo compositor.

Ausência ainda mais sentida, o ex-baterista do Nirvana e líder do Foo Fighters, Dave Grohl, só aparece no filme por meio de entrevistas dos anos 90. A agenda do músico impediu o encontro com o diretor que só conseguiu falar com Grohl pouco tempo antes da primeira exibição de "Montage of Heck". "Se ele tivesse se colocado à minha disposição enquanto eu estivesse produzindo o documentário, ele certamente estaria nele. Mas esse foi um filme que demorou oito anos para ficar pronto e não era do tipo que eu poderia simplesmente encontrar um espaço para encaixá-lo depois que eu já tinha o resultado final. Eu tentei, mas fiquei sem tempo antes da estreia e após as primeiras exibições e críticas da imprensa, ficou claro pra mim que eu tinha perdido a objetividade com relação ao filme. Meu trabalho havia terminado".

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