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Com prêmios no exterior, Brasil vive "aurora" do cinema de animação

Reprodução
"Guida", de Rosana Urbes, foi eleito melhor curta-metragem de estreia em Annecy; é o terceiro título consecutivo de cineastas brasileiros no tradicional festival francês Imagem: Reprodução

Felipe Blumen

Do UOL, em São Paulo

01/07/2015 19h31

No penúltimo domingo de junho (21), a cineasta brasileira Rosana Urbes subia ao palco do Festival de Cinema de Animação de Annecy, na França, para receber o prêmio "Jean-Luc Xiberras" de melhor curta de estreia por sua obra “Guida”. Mas além do reconhecimento do filme de pouco mais de 11 minutos, a premiação representou algo ainda mais importante: pelo terceiro ano seguido, um brasileiro saiu vencedor do festival.

“Annecy é para o cinema de animação mais do que o Oscar é para o cinema tradicional”, diz a cineasta, jurando que não é exagero pela premiação recente. “É um festival que existe há 55 anos e acompanhou toda a história do cinema de animação. E o legal é que ele reconhece todas as dificultades que a animação tem tido diante de um mercado voltado para o industrial”, explica.

Rosana fala sobre mercado e indústria do cinema com a propriedade de quem passou oito anos trabalhando para um gigante do setor, os Estúdios Disney. Depois de integrar as equipes de  “Mulan”, “Tarzan” e “Lilo & Stitch”, entre outros longas, a ilustradora resolveu investir em um projeto próprio. Para ela, o Brasil “está na aurora da animação”.

"Guida", que conta a história de uma senhora que trabalha há 29 anos como arquivista de um fórum e que tem sua vida alterada quando decide posar como modelo vivo em um centro cultural, já havia ganhado os prêmios de melhor curta nas edições paulista e carioca do Anima Mundi, além de levar também o Prêmio BNDES.

Em entrevista ao UOL, Rosana contou como é o processo de criação de um curta internacionalmente reconhecido, da ideia inicial até o palco, e o que isso significa para o cinema de animação brasileiro.

Confira a seguir.

UOL – Como é chegar até Aneccy e sair vitoriosa?

Rosana Urbes – Eu tenho um sonho de vir a Annecy desde o começo da minha carreira de animação, porque aqui é meio que a Meca dos animadores. É um festival que existe há 55 anos, acompanhou toda a historia do cinema de animação e, o mais importante, reconhece todas as dificultades que a animação tem tido no mercado. Annecy continua fiel ao formato de curta, que é o que mais permite a experimentação dentro da animação, que permite a existencia da animação como arte. A estrela do festival é o curta metragem e é muito bacana ver isso no momento em que esse formato luta para sobreviver por não ter um mercado.

Como assim?

Como se trata de um formato de experimentação, os festivais são o meio pelo qual você alcança o público para passar sua mensagem. Annecy não só permite isso como também reúne todas as principais pessoas relacionada à animação no mundo. Para o animador, para o artista de animação, é muito importante. É mais importante do que o Oscar é para o cinema tradicional, de formos comparar.

E o reconhecimento nesse cenário é a coroação de “Guida?”

Olha, foram 3 anos trabalhando no filme e durante todo esse tempo eu mudei a história algumas vezes. Eu tinha as minhas inseguranças e, na época que terminei, já me sentiria vitoriosa só se eu tivesse uma praça para exibir para os meu amigos. Então esse alcance que tivemos me surpreende num grau que ainda não caiu nem a ficha do que aconteceu. Um filme se faz para as pessoas e o processo de transformação dele é justamente partilhar o resultado. Eu não sei se pode existir alegria maior para um artista.

De onde veio a Guida?

Logo quando eu comecei a trabalhar com animação eu rabisquei uma velhinha dançante. Ainda não era a Guida, mas eu me apaixonei por ela. Aí eu pensei em fazer uma pessoa muito velha, mas também muito nova. Essa ideia já estava contida nesse desenho e eu acho que foi aí que ela nasceu. E daí para o filme foi um longo caminho. Eu fui trabalhar nos estúdios, aprendi o processo de se fazer um filme de animação, que é algo quase industrial, com pilhas de desenhos e muitos envolvidos. Para o curta foram usados oito mil desenhos. A média é de 10 desenhos por segundo para ter ilusão de movimento. Mas é por isso que o cinema de animação é a forma mais completa de arte, porque envolve a música, o cinema em si, claro, e  também o aspecto do artista artesão, que confecciona os quadros do seu filme.

Cineasta Rosana Urbes sobre animação brasileira

  • A opinião internacional está com a impressão de que o Brasil é capaz de criar uma espécie de Semana de 1922 do cinema de animação.

    Rosana Urbes, cineasta brasileira

E como foi sua passagem dessa indústria para o autoral?

Eu queria fazer cinema autoral de animação desde o começo, mas tinha muitas inseguranças como artista. Eu precisava aprender o ofício da animação e foi maravilhoso poder ter trabalhado nos grandes filmes. Em todos eles eu aprendi alguma coisa nova. Se pudesse, talvez eu tivesse demorado uns seis anos na Guida, porque as possibilidades da animação são infinitas. Mas cheguei em um ponto em que eu já tinha estourado todos os orçamentos e tive que fechar. Curiosamente o resultado final é o filme que eu queria fazer. Assumo ele do jeito que está, é um retrato fiel da minha realidade e da realidade da animação no brasil.

Que realidade é essa? Tem a ver com ser o terceiro ano seguido de vitórias brasileiras em Aneccy, com "Uma história de amor e fúria", de Luiz Bolognesie, em 2013 e "O menino e o mundo", de Alê Abreu, no ano passado?

A comunidade da animação mais antiga do Brasil, que é essa geração que batalhou para criar a cena da animação, está radiante com esse reconhecimento. Ele legitima uma história desse nicho no Brasil. Nossa luta é pelo reconhecimento da animação como arte, para que ela tenha o seu lugar, o seu espaço e o seu investimento. Esses prêmios estão trazendo os olhos do mundo da animação para o país. Quando um filme como esses ganha um prêmio, é uma oportunidade incrível para fortalecermos a cena. E a luta é para que os orgãos responsáveis pelo fomento cultural tenham consciência dessa importância.

E eles têm?

Existe uma tendencia à industrialização da animação, que são as séries e games. Elas são boas por movimentar o mercado e gerar empregos, mas não dão muito espaço para o desenvolvimento da arte. São subprodutos do que é explorado nos formatos de longa e curta, principalmente. É um erro muito grande ignorar a necessidade do investimento nos curtas e na arte. Nos ultimos 10 anos, houve um investimento e nós somos o fruto desse investimento. Isso é ótimo, mas não pode parar. Não existe árvore se não cultivarmos a semente, que é o autoral.

Como funciona fora do Brasil?

Mesmo na indústria internacional, se você pegar a Disney como exemplo, são décadas de trabalho da empresa para formar pessoas e descobrir talentos. “Branca de Neve” é de 1937, se a gente parar para pensar. Só depois dessa experiência eles se sentiram seguros para compreender o potencial de entretenimento da animação. E o Brasil está na aurora da animação, ele precisa de muito curta metragem para desenvolver sua linguagem, sua identidade. Precisamos de décadas de investimento para consolidar esse mercado e o curta é a pérola desse processo.

O que precisa ser feito, portanto?

A gente precisa pensar no cinema de animação como uma expressão artística extrema. Eu acho que já estamos entendendo isso, mas não dá para se distrair. É a riqueza cultural de um país em jogo. A opinião internacional está com a impressão de que o Brasil é capaz de criar uma espécie de Semana de 1922 do cinema de animação. E eu acho que há há uma geração inteira que está amadurecendo agora, lutando para expressar sua arte através da animação, que é capaz de realizar isso.

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