Cinema

Tocha negro representa família do séc. 21, diz ator de Quarteto Fantástico

Eduardo Graça

Do UOL, em Nova York (EUA)

Não há personagens criados pela dupla dinâmica Stan Lee e Jack Kirby que tenham sofrido tanto em suas adaptações para o cinema quanto o Quarteto Fantástico. Os filmes da década passada --“Quarteto Fantástico”, em 2005, e “Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado”, 2007-- não foram exatamente favoritos de crítica e fãs, apesar de chegarem, juntos, a quase US$ 620 milhões de bilheteria nos quatro cantos do planeta. Do elenco, apenas Chris Evans, reinventado na pele do Capitão América, se manteve no centro das atenções em Hollywood.

“Era um outro momento. Agora tudo será diferente”, garante Jamie Bell, um dos quatro protagonistas do novo “Quarteto Fantástico”, que estreia nesta quinta (6). A seu lado estão Miles Teller como Reed Richards, o Homem-Eslástico; Kate Mara na pele de Sue Storm, a Mulher-Invisível e Michael B. Jordan encarnando o primeiro Tocha-Humana negro do cinema. A Bell coube Ben Grimm, o Coisa.

"A escalação do Michael espelha as possibilidades de uma família do século 21", comenta Bell sobre a polêmica causada por fãs descontentes com a escalação de um ator negro para o papel do Tocha-Humana. "Acabou a ideia de que família significava um casal formado por homem e mulher e seus filhos biológicos e ponto final".

Quinze anos depois de explodir em “Billy Elliott”, de Stephen Daldry, Bell --o Tintin de Steven Spielberg-- estreia como super-herói e já tem contrato assinado para a sequência, a ser lançada em 2017. Na entrevista exclusiva ao UOL, o ator inglês de 29 anos trata da ressurreição do Quarteto Fantástico e do que os fãs podem esperar dos heróis tais quais imaginados pelo diretor Josh Trank (da ficção científica “Poder Sem Limites”, com o mesmo Michael B. Jordan e Dane DeHaan). A seguir, os principais trechos do bate-papo.

UOL - Quando o seu nome foi anunciado como o novo Ben Grimm, parte dos fãs se surpreendeu. Jaime Bell não é um nome que se espera encontrar no elenco de um filme de super-heróis...
Jamie Bell - É que o tom que o Josh (Trank) quis dar ao filme é o de algo menos comum, mais extraordinário. Quando ele me convidou para fazer o Coisa, logo percebi que se tratava de um projeto corajoso. No meu caso, especialmente de como iríamos capturar a imagem deste Coisa. Trazê-lo à vida, fazer a “coisa”, sem trocadilhos, funcionar. E uma peça do quebra-cabeças que ele criou e precisa resolver para o filme funcionar, acredito, é justamente o fato de eu ser uma escolha não exatamente óbvia para o papel.

Reprodução/Entertainment Weekly
Michael B. Jordan como Tocha Humana em "Quarteto Fantástico"; a escalação de um ator negro para o papel causou polêmica entre os fãs dos quadrinhos imagem: Reprodução/Entertainment Weekly

Você há de concordar que há pelo menos uma surpresa ainda maior para os fãs na escolha do elenco do que a sua escalação: a de um Tocha-Humana negro...
Pois é! Um filme sobre o Quarteto Fantástico, por definição, tem de ser o que chamamos aqui de 'ensemble movie', uma produção sem uma estrela específica, em que o relacionamento dos quatro protagonistas é o cerne da história. O Miles (Teller), a Kate (Mara), eu e o Michael (B. Jordan), nos tornamos mesmo uma entidade única. É impossível, por exemplo, darmos entrevistas juntos sem cair na gargalhada. E a escalação do Michael espelha as possibilidades de uma família do século 21, é um espelho do mundo de nossos dias. Acabou a ideia de que família significava um casal formado por homem e mulher e seus filhos biológicos e ponto final. As variáveis são muito maiores, ainda bem! E Michael é sensacional, é um dos atores mais talentosos que já vi atuar. Resumo da ópera: somos um eclético Quarteto Fantástico, eu sei, e gosto disso (risos).

E você já era íntimo do Quarteto? Fazia parte de suas leituras da cabeceira na adolescência?
Sabe que não? Nunca fui um fã de quadrinhos. No cinema, era louco por Batman, especialmente os filmes dirigidos por Tim Burton. Mas era impossível para uma criança da minha geração, crescendo na Inglaterra dos anos 1990, não ter sido exposta à mitologia dos super-heróis, que certamente têm um lugar reservado na minha infância. Mas não particularmente, à época, o Quarteto Fantástico.

E agora, na preparação para o personagem, você mergulhou nos quadrinhos? Foi prazeroso?
Sim, e sim! (risos). Foi importante entender a origem do Ben, destrinchar sua história. Li as primeiras aventuras do grupo, uma a uma, a partir de 1961. E também mergulhei nas histórias da fase Ultimate do Quarteto Fantástico, publicadas entre 2004 a 2009, que procura repaginar o grupo e me deu um esboço de como eles seriam hoje em dia, na minha cabeça. Mas o roteiro (assinado pelo diretor, Simon Kinberg e Jeremy Slater) do filme é bem singular, independe das histórias em quadrinho, oferece um olhar bem original para o nascimento do grupo.

Houve então um distanciamento maior dos quadrinhos?
Não, não é isso! (mais risos). É que o filme é, ao mesmo tempo, bem fiel à história de cada um dos quatro heróis --mostra bem de onde eles vieram, de acordo com a história original-- mas é, também, definitivamente, uma tentativa de trazer a narrativa para o século 21. Os fãs podem ficar tranquilos, não cometemos nenhuma insanidade com os personagens. Eu juro! (mais risos).

E quem é exatamente este novo Coisa?
O Ben Grimm é um típico garotão americano, mais uma figura daquelas que a gente lembra bem do Ensino Médio, com uma vida familiar complicada, mas fiel a seus grandes e queridos amigos, que não se desgrudam nunca. Especialmente depois da transformação, ele funciona como uma especie de protetor do Quarteto. Se o Homem Elástico é a cabeça do grupo, o Coisa é seu coração e músculos. É um personagem bem interessante de se fazer.

A transformação, no caso dele, é talvez a mais brutal em termos físicos. Como foi o processo para você?
O esforço principal do Josh, com apoio da Marvel, foi o de tentar manter, sempre que tivéssemos uma brecha, um pé na realidade. Se isso acontecesse, como este rapaz reagiria? Isso para mim foi bem legal, porque pude explorar os sentimentos de como algo assim seria sentido por ele. Claro, fisicamente, há muitas cenas em que tivemos de usar imagens criadas em computação gráfica e eu tive de usar pernas de pau para que os outros atores soubessem onde o Coisa estava exatamente e como se movia. É que ele tem mais de dois metros de altura e eu, não exatamente, né? (risos, Bell jura de pés juntos ter 1,70 m cravados). Para mim, foi fundamental imaginar, nas filmagens, que eu era o garoto preso dentro desta estrutura massiva de músculos. Que o exterior do Coisa era diferente do interior, e que os olhos do menino permaneciam no corpo do monstro. Foi no que prestei mais atenção.

Você viu os dois filmes anteriores? A interpretação de Michael Chiklis o influenciou de alguma maneira?
Eu vi os filmes. Aquele era um momento diferente para adaptações de super-heróis, estamos falando do início da década passada. Os quatro personagens, até por conta das possibilidades tecnológicas e graças ao sucesso de outras adaptações da mitologia da Marvel, podem agora ser apresentados de uma forma bem mais complexa do que anteriormente. Mas acho que, para aquele momento, os filmes são bons, eu me diverti quando os vi no cinema. Por outro lado, não achei que deveria prestar atenção no que o Michael Chiklis fez com o Ben, não me ajudaria em nada para construir meu Coisa. É importante lembrar que nosso filme não é uma sequência dos anteriores, ou um reboot ao pé da letra, ou um tributo. Ele existe separadamente dos outros. É uma outra década, é uma outra coisa.

Pois lá se vão 15 anos desde “Billy Elliott”. O que aquele momento, aquele filme, representa para você?
Rapaz, estamos ficando velhos, hein, nós todos! (risos). Aquele filme representa absolutamente tudo para minha carreira profissional, para meu trabalho, para a minha vida. Ele me deu tudo. Sou quem sou e estou onde estou por conta daquele trabalho. Eu nunca entendi exatamente porque o filme fez tanto sucesso e porque as pessoas se identificam, se emocionam tanto com aquela história mundo afora. Mas arrisco dizer que o Billy toca em temas universais, especialmente o fato de ele defender até o fim o direito de ser quem ele é, algo especialmente relevante nos dias de hoje, quando levamos em conta --olha aí o tema voltando à minha cabeça--  mudanças das estruturas familiares, nas possibilidades mais complexas de entender de fato a identidade de cada um. Sorte minha de ter feito tão cedo na minha trajetória profissional --eu tinha 13 anos durante as filmagens-- um papel tão denso, tão rico. Devo tudo a ele.

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