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Pai de Amy Winehouse sai mal na fita em novo documentário sobre a cantora

Divulgação
Pôster do documentário "Amy", dirigido por Asif Kapadia Imagem: Divulgação

Jotabê Medeiros

Colaboração para o UOL, em São Paulo

26/09/2015 06h00

Duas conclusões inevitáveis sobre o documentário "Amy", que estreia no Brasil neste sábado (26): 1) o pai da cantora, Mitch Winehouse, sai do filme com a imagem tão abalada quanto a do pai de Michael Jackson; 2) os documentários raras vezes viveram um momento tão glamouroso, emoldurado por uma delicada garimpagem nos momentos de grandeza artística da cantora.

Dirigido por Asif Kapadia (o mesmo cineasta que fez "Senna", sobre o piloto de Fórmula 1), o filme foi rejeitado pela família. O motivo é evidente : à exceção da avó, quase todos são retratados na produção como ausentes, imprudentes, oportunistas ou mercenários (caso de Mitch).

O filme começa com Amy Winehouse brincando de personificar Marilyn Monroe (cantando para John Kennedy) no aniversário de 14 anos de Lauren Gilbert, em 1998, e termina com seu funeral estranhamente sóbrio, 13 anos depois. Ela morreu aos 27 anos, em 2011, após uma carreira meteórica de extremos, da aclamação crítica que lhe rendeu o Grammy e os cachês de US$ 1 milhão por show às dolorosas vaias em Belgrado, no auge da alienação.

Relação com o marido

O filme identifica na sua relação com o ex-marido, Blake Fielder-Civil, o início do fim: foi ele quem a introduziu aos vícios da heroína e do crack, a partir de 2005, e também a convenceu de que todos estavam destinados ao fim clássico do romantismo: viver intensamente, morrer jovem.

O retrato de Blake traçado por Kapadia é até um pouco mais simpático do que o de Mitch Winehouse. Ele aparece como um malandrozinho de pouca inteligência. “Vou amar você incondicionalmente, até o dia em que meu coração parar e eu cair morta”, disse Amy, sobre Fielder-Civil.

A família de Amy não gostou do resultado e definiu o filme como “desequilibrado” e “equivocado”. O pai da cantora, Mitch, chamou os produtores de “desgraças” e afirmou que deviam se envergonhar de si mesmos por ter concluído daquela forma. Não era para menos. Ele é mostrado perseguindo a própria filha com uma equipe de filmagem na Ilha de Santa Lúcia, onde ela ficaria 6 meses para tentar recuperar a saúde.

Mas a verdade é que os cineastas têm a seu favor as próprias declarações e imagens da saga de Amy, que corrobora a tese. Eles não dão palpites, deixam que as imagens falem –é claro que eles escolheram as que impõem um julgamento. Não há um narrador em off, são os próprios protagonistas da história que descrevem a cantora. Impressiona a quantidade de imagens inéditas, vídeos, fotos e até filmetes de celulares que o cineasta coletou.

A música

Há cenas musicais de chorar de tão emocionantes. A gravação da voz para "Back to Black" com Mark Ronson, somente ele e Amy no estúdio, é de cortar os pulsos. A gravação com Tony Bennett, mais conhecida, é outro ponto alto.

As combinações de visitas a certos lugares de afeição da cantora e as canções que escreveu, como "Some Unholy War", funcionam como um relógio. “Ela era tão grande quanto Bille Holiday e Ella Fitzgerald”, diz Bennett. “Ela era uma alma velha num corpo jovem”, afirma um executivo da gravadora Islands Records, acentuando a tendência de a cantora mirar-se num repertório extemporâneo para criar sua música.

Amy cita, ao longo do filme, as influências de Dinah Washington, James Taylor, Carole King, Tony Bennett. “Acho que não vou ficar famosa, o tipo de música que eu faço não tem essa dimensão. Se isso acontecesse, acho que eu enlouqueceria”, ela disse em 2003.

Gostava de fumar Camel, jogar sinuca por até 4 horas seguidas e ouvir discos antigos. “Escrevo música porque sou zoada da cabeça, e para tirar proveito de algumas coisas ruins”. Amy rompe com sua gravadora por não achar agradável ficar na mesma empresa que tem as Spice Girls no catálogo.

Pode parecer que um documentário sobre Amy é uma via crúcis para sadomasoquistas, já que todos sabem o que vai acontecer com a cantora em sua corrida para a autodestruição. Mas seu senso de humor dá um contraponto bacana à narrativa. Ela é uma palhaça imitando uma empregada doméstica estrangeira quando apresenta a casa nova, em Camden, Londres.

Quando ganha o Grammy, batendo Beyoncé, Rihanna e Justin Timberlake, entre outros, Amy está com sua banda em um teatro em Londres, participando por meio de um link. Ao anunciar o disco de Timberlake, "What Goes Around Comes Around", ela faz uma careta de espanto e pergunta para o pessoal da banda. “O disco dele chama 'What Goes Around Comes Around'?”, como se não acreditasse em tamanha falta de imaginação.

Na visão de Kapadia, o que matou Amy Winehouse foi uma combinação de ganância da indústria, despreparo emocional da artista e a ausência de uma figura paternal. Ela é mostrada como uma vítima, não apenas dos outros, como de si mesma. Uma profusão de imagens colhidas até em banheiros de boates ajuda a montar o painel. É um grande filme.

Curioso notar que a trilha sonora do documentário é do brasileiro Antonio Pinto, e a execução de alguns temas foram feitos por ele, pelo violinista também brasileiro Ricardo Herz, pelo argentino Gabriel Ferreira e pelo violoncelista cubano Yaniel Mattos.