Filmes e séries

Sem lei de incentivo, terror nacional arrecada R$ 250 mil e vai a festivais

Guilherme Solari

Colaboração para o UOL, em São Paulo

15/10/2015 07h00

É difícil encontrar hoje um filme nacional que não seja financiado ao menos em parte através de leis de incentivo à cultura ou editais. O longa de terror brasileiro "O Diabo Mora Aqui", no entanto, mostra que é possível uma produção nacional se bancar através de financiamentos coletivos, permutas e até inserção paga de produtos.

O longa, que arrecadou um total de R$ 250 mil para a produção, parte da familiar premissa de quatro jovens que vão passar um fim de semana em uma casa isolada com fama de mal-assombrada, mas inclui o folclore e lendas urbanas brasileiras.

O filme tem no elenco a ex-Malhação Mariana Cortines, Pedro Carvalho ("Hoje Eu Quero Voltar Sozinho"), Sidney Santiago, que estará na próxima novela da Record, "Escrava Mãe" e Ivo Müller, que estrelou no filme "Tabu", com o qual o diretor Miguel Gomes foi premiado no Festival de Berlim em 2012. "O Diabo Mora Aqui" estreia nesta semana no Sitges Film Festival, em Barcelona, um dos principais festivais de cinema de terror e fantasia, e deve chegar ao Brasil no ano que vem.

"Nós temos esse modelo de financiamento através de edital no Brasil e acho que o mercado cinematográfico acabou ficando dependente dele," disse ao UOL o produtor e idealizador do projeto, Marcel Izidoro. "O problema do edital ou lei de incentivo é que você está sendo julgado por alguém, seja o diretor de marketing de uma empresa ou analista da Ancine. Nós não queríamos ter essa dependência, portanto resolvemos encarar o filme como se fosse uma startup, levantando dinheiro com investidores particulares, alguns deles internacionais".

A produção também buscou formas criativas de enxugar os gastos para as gravações –que duraram cerca de duas semanas em uma casa de fazenda em Amparo, interior de São Paulo. Entre elas, buscar o apoio de locadoras de equipamento para conseguir um desconto de até 90% e até fazer uma inserção paga de uma marca de vodca. "Eles só pediram para a gente não matar ninguém com a garrafa deles", diz Izidoro.

O produtor conta que, nas gravações, a dupla de diretores Dante Vescio e Rodrigo Gasparini buscou principalmente a naturalidade das atuações, para que os jovens atores parecessem amigos conversando. "O terror tem muito timing, não dá para telegrafar o que está vindo. Tivemos antes umas três semanas de ensaio, também assistindo muitos filmes de horror como referência".

Folclore brasileiro

"Os filmes de terror nacionais são vistos com um certo preconceito no Brasil. As pessoas costumam pensar de cara que vai ser uma pornochanchada", acredita Izidoro, que conta que o filme foi muito bem recebido pela imprensa internacional especializada em terror. "Lá fora, estão olhando muito para o Brasil e eles acham interessantíssima a nossa perspectiva. No nosso filme, tentamos incluir o nosso folclore e lendas urbanas, como o Negrinho do Pastoreio, os zumbis das religiões afro-brasileiras e o Bebê Diabo do ABC".

Para o produtor, o próprio gênero do horror é ideal para quebrar a barreira cultural do cinema nacional no exterior. "Historicamente, o terror costuma ser o gênero que banca o cinema. Se o filme for legal vende mais, claro, mas se ele é ruim, às vezes vira cult. Do ponto de vista do negócio é um gênero mais seguro".

"O terror também permite fazer comentários sociais sem ser pedante", explica. "O George Romero usava os zumbis dele para criticar o consumismo, por exemplo. No nosso filme, também buscamos principalmente incluir também um comentário sobre o nosso passado de escravidão e o racismo".

Izidoro acredita que está começando um boom de cinema de terror no Brasil, empurrado em parte pelo barateamento dos equipamentos e pelo interesse internacional no gênero. "Acho que esse modelo de distribuição internacional poderia funcionar para outras regiões do Brasil, como o Nordeste ou Sul. Os filmes poderiam inclusive ser em outro idioma, em inglês ou espanhol. Países como Espanha, França e China fazem muito isso. Aqui, pela cultura do edital, achamos que o cinema é uma arte exclusiva, alguém ganha um edital em detrimento do outro. Mas ela pode ser inclusiva conforme mais filmes vão aparecendo e o público sendo formado."

O produtor acredita que "O Diabo Mora Aqui" é um experimento de como fazer um filme brasileiro usando nosso folclore. "Mas, além de um experimento narrativo, acho que é também sobre como fazer um produto viável comercialmente sem a nossa cultura de editais."

"O Diabo Mora Aqui" continuará passando por festivais no começo do próximo ano e deve chegar ao Brasil no segundo semestre de 2016.

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