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Othon Bastos relembra Yoná Magalhães: "Era ótima no jogo da interpretação"

Do UOL, em São Paulo

20/10/2015 12h49

A atriz Yoná Magalhães, que morreu nesta terça-feira (20), era uma atriz iniciante quando sua carreira foi atingida por um furacão chamado "Deus e o Diabo na Terra do Sol", clássico dirigido por Glauber Rocha em 1964.

Tendo vivido o Corisco no filme, Othon Bastos relembrou o mês em que todo o elenco morou em Monte Santo (BA) para trabalhar no filme que retratou o Brasil profundo. Othon conheceu a atriz, com 29 anos na época, no set de filmagens, no meio do sertão. Apesar de viver a sofrida Rosa, Yoná era "alegre e divertida, uma excelente colega. Em cena, era ótima no jogo da interpretação", contou o ator, sobre a colega, que morreu nesta terça (20).

"Depois disso, nossas carreiras seguiram rumos diferentes. Eu fiquei no teatro e ela foi para a televisão, mas voltamos a trabalhar juntos em várias telenovelas, como 'Os Imigrantes', 'Roque Santeiro" e 'Despedida de Solteiro'", disse. "O trabalho separa muito a gente, mas, quando nos encontrávamos, parecia que nunca estivemos separados, era uma alegria".

"Quando você recebe uma notícia dessa, vem aquele clipe todo na cabeça, do que você passou, da juventude, você faz uma série de viagens", disse Othon.

Em 2014, quando "Deus e O Diabo" fez 50 anos, Yoná deu um depoimento ao UOL relembrando os bastidores do filme, sua participação no longa e a experiência do convívio com Glauber Rocha, a quem ela classificou de "meigo" e de "enorme simpatia".

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Leia o depoimento de Yoná ao UOL na íntegra

"'Deus e o Diabo na Terra do Sol' foi um marco no cinema brasileiro e, creio, um marco na carreira de todos que tiveram a felicidade de participar. Glauber Rocha, na época, era um jovem de mais ou menos 20 anos, um gênio que ficaria conhecido e respeitado no mundo inteiro.

Eu estava morando em Salvador, recém-casada com Luiz Augusto Mendes da Costa, um dos produtores do filme. Por essa razão, tive a sorte de interpretar a Rosa. Sim, meu marido forçou minha participação no filme.

Creio que Glauber teria outra atriz em mente, porém se viu levado a me aceitar, cofiando mais em sua habilidade como diretor do que em meu talento. E ele estava certo: criou a Rosa e conseguiu fazer com que uma atriz iniciante, apesar de já ser profissional, realizasse uma grande performance.

O fato de ter ficado em Monte Santo (BA) durante quase um mês, antes de iniciar minha parte na história, deu-me a oportunidade de vivenciar o cotidiano dos que moravam lá e aqueles que vinham da caatinga buscar ajuda na Igreja, que recebia alimentos para serem distribuídos aos mais carentes.

Começávamos a subir o Monte para filmar ainda de madrugada para que pudéssemos aproveitar o dia. Filmávamos até o fim da tarde, quando a luz do dia começava a diminuir. Ventava muito, o que aliviava o calor.

Conheci um Glauber meigo, de voz mansa e uma enorme simpatia. Era grande experiência prazerosa vê-lo dirigir. Ele era, ao mesmo tempo, os atores, a câmera, a luz. Enfim, transbordava de força, emoção e dinamismo.

Com relação a Rosa, eu sentia o que ele queria transmitir. Era mágico. Quando estávamos gravando na caatinga, certa vez, meu lanche desapareceu --consequência de algum bichinho faminto, habitante da região-- e assim mesmo consegui terminar a jornada daquele dia.

Acredito que não tínhamos ideia da importância da obra na qual estávamos participando. Não pude ir a estreia do filme, estava com meu filho que acabara de nascer.

Glauber impressionou diretores e críticos europeus com 'Deus e o Diabo na Terra do Sol', filme cheio de uma selvagem beleza que excitou a todos com a possibilidade de um grande cinema nacional."

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