Cinema

Mesmo com avanços, 007 ainda é um filho da mãe machista que amamos odiar

Natalia Engler

Do UOL, em São Paulo

Quando os produtores introduziram Daniel Craig como James Bond em 2006, deixaram claro que era um novo começo para o agente 007 no cinema. Ele voltava ao ponto em que acabava de receber sua licença para matar, não se importava se seu martíni seria batido ou mexido, não tinha muito humor e ainda se envolvia emocionalmente a ponto de isso afetar seu julgamento.

Junto com ele, as Bond girls também ganhavam um novo capítulo. Vesper Lynd (Eva Green) agia de igual para igual com Bond, colocando-o em seu devido lugar, e com um papel bem mais relevante na trama do que as beldades escolhidas para enfeitar a tela no passado. O agente 007 até se apaixona de verdade por ela, o que acaba imprimindo um caráter trágico ao herói.

"Quantum of Solace" (2008), apesar de não ser lá grandes coisas como filme, trazia outra Bond girl à altura de 007: a ex-agente secreta Camille Montes (Olga Kurylenko). Em busca de vingança contra um general sanguinário e corrupto, ela é atrapalhada por Bond, antes de ele se dar conta de que não está lidando com uma "donzela em perigo".

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Mas, mesmo com esses avanços, esta ainda é uma franquia de James Bond, um personagem quase fora de moda, que não é muito politicamente correto --veja bem, ele é um espião com licença para matar e, mesmo na versão atual, não hesita em colocar centenas de civis em risco para pegar seus inimigos, em missões que muitas vezes são mais pessoais do que de "segurança nacional".

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E, como o próprio Craig fez questão de pontuar diversas vezes, o machismo também é um de seus traços marcantes --apesar de o ator acreditar que seu 007 é menos misógino que os anteriores. Bond é um lobo solitário, mulherengo, que não confia em ninguém, muito menos nas mulheres, que muitas vezes não passam de instrumentos para chegar mais perto dos bandidos.

Não vemos mais o personagem usando sua mais recente conquista como escudo (como ocorre no início de "Goldfinger", de 1964), mas os produtores ainda acham normal que Bond, após conversar por cinco minutos com uma escrava sexual que vai levá-lo até seu chefe, surpreenda-a no banho, entrando nu no chuveiro com ela, como ocorre em "Skyfall" (2012). A moça, claro, acaba morta, assim como muitas mulheres da série, inclusive M (Judi Dench), a chefe do Serviço Secreto Britânico --apenas para criar novas motivações para o herói.

E não é muito diferente em "007 Contra Spectre".

Relembre os 50 anos de 007 no cinema

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O novo filme de Bond, que estreia na próxima quinta-feira (5), coloca o agente enfrentando sozinho uma organização criminosa sem precedentes, ligada de alguma forma ao seu passado, enquanto o Serviço Secreto Britânico corre o risco de ser extinto. Em meio a muitas referências à era anterior da franquia, pela primeira vez é introduzida uma Bond girl com uma idade próxima à do herói --a maravilhosa Monica Bellucci, 51, quatro anos a mais que Craig.

Divulgação
Monica Bellucci interpreta Lucia Sciarra em "007 contra Spectre" imagem: Divulgação

O diretor Sam Mendes, porém, desperdiça a presença de Bellucci dando a ela apenas duas sequências. Em um clássico da misoginia de Bond, 007 a coloca contra a parede e tira sua roupa depois de trocarem meia dúzia de palavras, apenas horas após o enterro do marido dela. A impressão de estupro só não se concretiza porque é Bellucci, uma mulher madura e segura de sua sexualidade, que parece estar em sintonia com a investida de Bond, embora a situação seja altamente inverossímil. Ao menos ela sai de cena viva.

O novo interesse amoroso de Bond tem destino apenas um pouco mais interessante: Madeleine Swan (Léa Seydoux), filha de um ex-integrante da organização criminosa que 007 está investigando, é independente, inteligente, preparada para lidar com a violência masculina ao seu redor e salva Bond em mais de uma ocasião. Mas, no final, apesar de conseguir operar algumas mudanças no caráter do herói, também é colocada na posição de "donzela indefesa".

Além disso, a mulher que novamente mexe com o coração do agente ainda é interpretada por uma atriz 17 anos mais nova do que o protagonista, o que é, sim, um problema em uma indústria na qual as atrizes praticamente desaparecem sexualmente após os 35 anos e são sempre muito mais novas que seus pares masculinos.

E o primeiro enlace do casal, quando Swan finalmente cede à sedução de Bond, se dá logo após os dois quase serem mortos por um psicopata em um trem em movimento. Porque, claro, não há nada no mundo que dê mais tesão do que ver sua vida por um fio, não é mesmo?

É óbvio que ninguém vai exigir verossimilhança de um filme de James Bond --sabemos que ele habita um universo do absurdo, onde o imperialismo britânico ainda faz sentido, um agente secreto usa seu nome verdadeiro e vilões megalomaníacos criam planos mirabolantes para dominar o mundo (OK, essa talvez seja a parte mais próxima da realidade).

O que pedimos é apenas um bom filme de ação, que não seja ofensivo para as mulheres e possa continuar sendo um "guilty pleasure" (aquela coisa que a gente gosta, mas não sem culpa), do qual aprendemos a gostar muito antes de nos tornarmos feministas, assistindo à versão canastrona de Roger Moore nas sessões vespertinas na TV.

"007 Contra Spectre" quase chega lá. Com todas as referências ao universo clássico de Bond, um roteiro que amarra bem os filmes da era Craig e o necessário toque trágico que marca esta fase de Bond, é entretenimento de primeira linha, que vale o ingresso do cinema tanto quanto os melhores filmes do gênero. Mas ainda provoca muitos suspiros de desaprovação quando se trata da relação do agente com suas mulheres.

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