Cinema

"Blockbuster" argentino faz plateia americana se identificar pela violência

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Cena de "O Clã", do diretor Pablo Trapero imagem: Reprodução

James Cimino

Colaboração para o UOL, em Los Angeles (EUA)

“Eu fiquei aliviada de ver que esse tipo de violência ‘logo ao lado’ não é uma coisa só americana, como costumamos ver em nosso cinema.” Foi assim que publicitária Joanna Younger avaliou o campeão de bilheteria argentino “O Clã” após sua pré-estreia no AFI Fest (American Film Institute Festival), na última semana, em Los Angeles. “Agora eu preciso urgentemente de uma comédia!”, completou aos risos.

O choque e o alívio demonstrado por vários dos espectadores americanos presentes à sessão são perfeitamente compreensíveis. O filme, que é dos mesmos produtores de “Relatos Selvagens”, conta a história real dos Puccio, que, na verdade, não era apenas uma família, mas uma quadrilha que ganhava dinheiro sequestrando e matando pessoas no período de transição entre a ditadura militar argentina e o retorno do regime democrático.

Entre os anos de 1982 e 1985, eles chocaram os argentinos quando vieram a público as histórias do sequestro seguido de morte de três pessoas, mesmo após o pagamento do resgate.

O que mais choca é que as três primeiras vítimas eram pessoas conhecidas dos Puccio, especialmente do filho mais velho. O promissor jogador de rúgbi Alejandro Puccio servia como informante do pai, que praticava os sequestros e os assassinatos em companhia de dois cúmplices (e mais tarde com outro de seus filhos).

Para ator Peter Lanzani, que interpreta Alejandro, o filme tem feito muito sucesso em outros países devido a seu teor universal. “Creio que este filme faz sucesso porque é uma história que poderia ter acontecido em qualquer país. E do ponto de vista da música, da fotografia, dos atores, é um filme que imprime uma intensidade muito grande, que transcende as fronteiras nacionais. E, pessoalmente, eu acho que lembra muito os filmes do Martin Scorcese.”

O pai, Arquímedes Puccio (em uma interpretação assustadora do ator Guillermo Francella), era uma figura que, no Brasil, chamamos de “viúva da ditadura”. Ex-militar, agia impunemente durante o período de repressão, sob as vistas grossas da polícia e de seus companheiros de farda.

Assista ao trailer original do filme, em espanhol

Conhecido como o “velho da vassoura”, ele passava o dia e, algumas vezes, as noites varrendo a calçada em frente a sua loja de artigos esportivos, que servia de fachada para o verdadeiro negócio familiar. Fazia isso, segundo relatos da época, para abafar o choro dos reféns.

O conflito principal do longa, no entanto, é a relação de Arquímedes com o filho mais velho, de quem menosprezava o talento para o esporte, no intuito de fazê-lo crer que o crime era um negócio de família que deveria ser perpetuado. Mas nem a coerção do pai, nem o dinheiro dos sequestros poupou o filho da loucura. Quando foram descobertos, tentou matar-se quatro vezes.

“Foi muito complexo [de criar esse personagem]", diz Lanzani. "Tivemos contato com um monte de gente que os conhecia para termos diferentes pontos de vista para montar o perfil psicológico de Alejandro. Ele tinha uma dualidade interior muito grande. Por um lado sabia que o que fazia era errado, mas também era uma pessoa muito ambiciosa tanto por dinheiro quanto por poder”.

Em entrevista ao UOL, o diretor Pablo Trapero conta que já faz muitos anos que queria filmar essa história, mas que lhe sobravam informações policiais e lhe faltavam as histórias pessoais.

“Comecei a pesquisa em 2007, mas como não tinha qualquer declaração da família, era como se fosse uma lenda urbana. E eu queria fazer um retrato da intimidade dessa família, especialmente a relação pai e filho. Então falamos com vizinhos, os colegas do rúgbi. Tentamos falar com a família, já que os amigos nos passaram os contatos deles, mas ninguém quis falar. O que percebi durante a pesquisa foi que o universo deles era tão fechado e eles gostavam tanto de pertencer a ele que aceitavam a loucura do pai”, conta Trapero.

O filme venceu o Leão de Prata no Festival de Veneza 2015, foi selecionado para representar seu país no Oscar 2016 e é campeão de bilheteria na Argentina, Uruguai e Chile. A estreia no Brasil deve ocorrer em dezembro, segundo o diretor.

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