Cinema

Tecnologia e terror da Aids: Atores de "Califórnia" comparam gerações

Mariane Zendron

Do UOL, em São Paulo

Parte da geração Whatsapp-Facebook-Snapchat-Periscope, Clara Gallo, 20, e Caio Horowicz, 19, tiveram que se comunicar por carta, usar telefone com disco e pesquisar em livros para viver os protagonistas de "Califórnia", filme de Marina Person que chegou nesta semana aos cinemas e se passa nos anos 1980. Eles podem ser exceção, mas viram muitas vantagens em viver numa época em que o mundo digital ainda não tinha dado as caras.

"Para falar a verdade, eu não sou muito fã de tecnologia. Acho que era melhor se comunicar por carta e fita. É muito mais humano", disse Clara, que no filme vive Estela, uma adolescente que lida com sua primeira menstruação, primeira transa, além da chegada da Aids no Brasil.

Hoje você tem a informação ao seu dispor. Antes, um filme e um disco demoravam muito tempo para chegar ao Brasil. Hoje, posso buscar na internet qualquer banda que eu quiser e vou conseguir ouvir todas as músicas e saber a história - Caio Blat

Em meio à crise adolescente, Estela conhece JM (Horowicz), um jovem gótico que gosta de ler no intervalo das aulas. "De certa forma, sou um pouco parecido com o JM, que tinha o tempo dele. Tenho problemas em de repente me ver em cinco conversas do Whatsapp ao mesmo tempo. Teve uma época que eu saí do Facebook, mas tive que voltar porque não conseguia mais ver meus amigos, que combinavam tudo por lá", disse Caio. "Não é legal sentar no bar e não olhar para a pessoa que está na sua frente. É bom parar um pouco e conversar de verdade, viver de verdade", afirmou.

Vivendo o tio de Estela no longa, Caio Blat, 35, tem mais intimidade com o mundo analógico. Ele concorda que a qualidade do papo das pessoas está prejudicada apesar da vasta conexão, mas vê vantagens no mundo atual. "Agora você tem a informação ao seu dispor e isso é uma ferramenta poderosíssima. Antes, um filme e um disco demoravam muito tempo para chegar ao Brasil. Hoje, posso buscar na internet qualquer banda que eu quiser e vou conseguir ouvir todas as músicas e saber a história. É um privilégio".

Informação em favor da luta contra Aids

A informação também é uma poderosa aliada na luta contra Aids, outro tema tratado no filme. No início dos anos 1980, a doença era um monstro misterioso, sobre o qual não se sabia nem as formas de contágio. "A Aids ainda existe, mas agora a gente sabe como é. Não sei o que é viver num período em que você não sabia como podia ser infectado, se era pelo ar", disse Clara. 

Ao contrário dos jovens de hoje, Blat diz que sabe o que é ver os ídolos morrendo por causa do vírus HIV, como Cazuza e Freddie Mercury. "Acho que a minha geração foi a primeira que teve a iniciação sexual com camisinha. A gente tinha um medo muito grande do vírus. Os anos 70 foram de total liberação dos costumes, emancipação da mulher e bem na nossa vez teve essa freada brusca". 

Apesar de tanta informação, Horowicz se diz preocupado com a sua geração. "Outro dia, a Marina [Person], a Clara e eu discutíamos os dados que o número de infectados caiu nos últimos anos, mas subiu muito entre os jovens. A gente tem mais informação, mas essa parte está relaxada. Eu sou muito crica com isso, mas muitos amigos não usam, algumas amigas não fazem questão. Acho isso preocupante".

Destaque no Festival do Rio e na Mostra de SP, Clara diz que quer continuar na atuação, mas também tem outros planos para o futuro. No momento, ela faz cursinho e presta vestibulares para Psicologia. "Gosto que hoje em dia tem menos preconceito e mais movimentos feministas, LGBT. Fico feliz de viver em uma época com esses avanços. Estou no cursinho e não tenho tempo para nada. Mas quando entrar na faculdade, quero participar de um grupo feminista. É importante. É o futuro".

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