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Spike Lee aborda violência e mulheres empoderadas no Festival de Berlim

Bruno Ghetti

Colaboração para o UOL, em Berlim (Alemanha)

16/02/2016 16h22

Não tem jeito: Spike Lee não consegue fugir das polêmicas. Na mesma linha de seus filmes mais famosos e de suas habituais declarações sobre a questão racial nos Estados Unidos (é ardoroso defensor do boicote ao Oscar deste ano), o novo trabalho do cineasta toca em temas atuais e controversos da sociedade americana.

Desta vez, o foco é na violência urbana e no “empoderamento” feminino. “Chi-Raq”, exibido na tarde desta tarde terça (16) no Festival de Berlim, recebeu alguns gritos de apoio e aplausos (ainda que não muito efusivos) no final da sessão de estreia.

O filme se baseia na comédia clássica de Aristófanes “Lisístrata”, passada durante a chamada Guerra do Peloponeso, no século 5 a.C., quando cidades-estados gregas estavam em uma sangrenta batalha. A personagem-título convence as mulheres a se articularem em uma ardilosa estratégia para forçarem os homens a acabarem com a guerra: fazer uma greve de sexo com seus maridos, voltando a liberar seus próprios corpos apenas depois de encerrado o conflito.

A ação da peça foi adaptada por Lee para a cidade de Chicago moderna e para o contexto das disputas entre gangues rivais nos subúrbios mais pobres da metrópole. O título do filme vem de um jargão urbano que une sílabas de “Chicago” e “Iraque” (em inglês), criado como maneira de descrever o chocante aumento da violência na terceira maior região metropolitana dos EUA nos últimos anos.

Lee contou que conheceu o prefeito de Chicago, que não apreciou muito o projeto. “Ele disse que não gostou do título, pois poderia atrapalhar o turismo e o desenvolvimento econômico da cidade. Mas a verdade é outra: não existe desenvolvimento econômico ou turismo no sul da cidade [onde se concentra a ação do longa]”, afirmou o diretor, durante entrevista coletiva.

“Diariamente, 99 americanos morrem por causa de tiros – dois terços é por suicídio. É uma batalha diária”, disse o cineasta, que faz em seu filme uma dura crítica à indústria "do porte de armas" nos EUA. “Quando há confronto entre dinheiro e vida humana nos EUA, o dinheiro vai sempre vencer”.

Mulheres empoderadas

As falas do filme são em cadência que sugerem versos de rap. O longa traz cenas musicais e muito humor para contar a história de Lisístrata (Teyonah Parris), uma mulher segura de si, que usa roupas justas e cabelo black power (quando ela caminha, balança tanto as ancas que é um milagre que não despenque dos seus altíssimos saltos).

Namorada de um rapper e líder de gangue (Nick Cannon), ela se enfurece diante da morte de uma garota em seu bairro e chefia um movimento feminino de negação do prazer sexual aos homens em nome da paz. Na sequência, mulheres de todos o mundo aderem à causa (há inclusive cenas em São Paulo, com moças nas ruas gritando: “Sem paz, sem x...”). Por fim, o conflito muda de agentes: passa a ser entre os dois sexos.

“A maior parte dos jovens americanos nunca ouviu falar em Aristófanes. Mas além disso, há outro problema: em muitas escolas públicas nos EUA, as aulas de arte e música foram cortadas do currículo. A educação rola ladeira abaixo. Se a pessoa não tem dinheiro [e vai ao ensino particular], não vai ter acesso a nada disso", acredita o cineasta.

O filme é bastante irregular e abusa do estilo kitsch. Embora tenha temática pró-mulher, é possível que algumas feministas o rejeitem (afinal, as mulheres têm outras armas que não apenas o sexo); mas no campo da alegoria política, o longa funciona bem.

O elenco conta ainda com Samuel L. Jackson, como o narrador da trama, Jennifer Hudson, como a mãe de uma vítima das gangues, e Angela Basset, como uma líder feminista. O único ator branco de destaque é John Cusack, como um religioso pacifista, “Todos os atores que estão no filme são muito engajados na conscientização sobre a violência em Chicago. Chamei John porque o personagem dele se baseia em um padre católico da vida real – e que era branco”, contou Lee.

Oscar branco

É claro que os jornalistas questionaram sobre a polêmica do Oscar - afinal, Lee é uma das celebridades mais exaltadas na questão sobre o racismo no prêmio. Ele reiterou que acredita que o fato de, neste ano, nenhum dos 20 indicados nas categorias de atuação do prêmio serem negros é um sintoma de um enorme preconceito racial por parte da Academia de Hollywood.

“A questão verdadeira é: quando eu 'não' boicoto o Oscar? Eu e minha mulher não vamos de novo neste ano, mas quem quiser ir, vai. Se Chris Rock quer apresentar ele pode ir”, disse Lee. “Se a questão não tivesse sido colocada, a Academia jamais teria tomado alguma atitude a respeito disso. Uma semana depois de falarmos em boicote, a Academia propôs uma série de mudanças. Mas dizer o que fazer, eu não disse nada a ninguém”. Por fim completou: “O problema não é a Academia, mas os executivos de estúdios, eles que decidem o que vão ou não fazer. São em geral homens brancos, não há diversidade alguma ali”.

O cineasta foi também indagado sobre em quem vai votar nas eleições americanas de novembro. Antes dele, John Cusack se manifestou. “Se houver algum democrata contra Donald Trump, ele terá meu voto”, disse o ator. “Mas não quero um democrata que continue estimulando a guerra”. Já Lee foi bem mais direto: “Bernie, do Brooklyn!”, disse, referindo-se ao pré-candidato democrata Bernie Sanders.

“Chi-Raq” é a primeira produção de cinema do serviço de streaming Amazon Original Movies, fazendo frente ao rival Netflix (que estreou no ramo da produção em 2015, com “Beasts of No Nation”). Mas a Amazon prefere lançar os seus filmes antes nas salas e só depois no site da empresa (ao contrário do Netflix, que estreia nos dois suportes ao mesmo tempo). ”Chi-Raq” entrou em circuito reduzido nos EUA em dezembro último e já pode ser conferido na Amazon norte-americana.