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Filmes e séries


Festas "da firma" inspiram novo filme do diretor de "Minha Mãe é Uma Peça"

Carlos Helí de Almeida

Colaboração para o UOL, no Rio

08/06/2016 15h32

Marcos Veras atravessa lentamente um grande salão de festas decorado com motivos egípcios e animado pela música "Kátia Flávia", que sai do sistema de som na voz de Fernanda Abreu. O clima do ambiente é de celebração, com homens e mulheres bem vestidos, rindo, bebendo e dançando como se não houvesse amanhã, ao ritmo do rap de Fausto Fawcett. Veras, no entanto, faz todo o percurso expressando incredulidade e frustração.

A cena, acompanhada pela reportagem do UOL, é um dos momentos-chave da comédia "Festa da Firma", que o diretor carioca André Pellenz rodou em um salão de cerca de 500 metros quadrados de um hotel na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. Na trama, Veras interpreta Vlad, gerente de recursos humanos da Embelex, uma empresa de produtos de beleza, encarregado de organizar a festa de fim de ano da firma.
 
O objetivo da festa é melhorar o clima entre os funcionários da empresa, que passa por uma profunda crise financeira. Mas o sempre acomodado Vlad se agarra ao desafio de produzi-la para impressionar Aline (Rosane Mulholland), colega de trabalho e ex-namorada que não o vê como um homem maduro, ambicioso e responsável.

"Há alguns momentos da história em que tudo parece estar perdido", descreve Pellenz, autor de "Minha Mãe é Uma Peça - O Filme", o grande recordista de bilheteria de 2013, com mais de 4,5 milhões de espectadores. "É o momento emocional do filme, quando Vlad questiona se todo o esforço que fez valeu a pena, e a gente joga isso para o público".
 
Um bon vivant sem noção

Vlad tenta unir os vários departamentos da empresa da maneira mais torta possível. "É aí onde entra o humor, porque ele é um cara muito sem noção, meio bon vivant, não está preocupado em ser promovido na empresa. Ele quer fazer o arroz com feijão e está tudo certo", explica Veras, que intercala as filmagens de "Festa da Firma" com a temporada do monólogo "Acorda para Cuspir", em cartaz no Teatro Porto Seguro, em São Paulo. 

Uma das estratégias malucas imaginadas por Vlad para impulsionar a festa é convidar o amigo Selton, que é ator, e pedir para que ele traga colegas de profissão para aumentar o quorum do evento. O personagem é interpretado por Pablo Sanábio, o Max da recém-encerrada novela "Totalmente Demais", da Globo. "O problema é que o Selton é um ator vertical, intenso, e vê o convite como um trabalho. Então ele traz os amigos e fica se aquecendo numa sala ao lado da festa, fazendo exercícios de voz e corpo", conta Pablo.

Mergulho no universo corporativo

Produzido pelos irmãos Caio e Fabiano Gullane, "Festa da Firma" é ambientada no universo corporativo, e tem como ponto alto a tradicional confraternização de fim de ano entre funcionários. "Os Gullane me propuseram o tema e adorei. Mas a trama veio de uma experiência real de uma diretora de RH de uma grande empresa. Ela contou: 'Cara, a nossa festa de fim de ano foi cancelada, e eu ia usá-la para aproximar os departamentos da companhia'. A nossa história estava ali, ganhei um personagem".
 
Pellenz diz que "Festa da Firma" é "um mergulho no universo corporativo" --a confraternização propriamente dita só ocupa a parte final. Um prédio de escritórios de seis andares em Botafogo serviu de base para a produção e de locação para as cenas dentro da fictícia Embelex. "A festa é o momento em que as pessoas se transformam. Eu tinha que mostrar como elas eram antes dela, em suas salas, em postos de trabalho, dentro de cada departamento", explica o diretor.

Foram três semanas de filmagem entre computadores, fichários, salas de reunião, mesas de secretária e postos individuais de trabalho. "Não tem nada de estúdio, o que foi bom para o elenco entrar no clima. Na locação de Botafogo, os atores puderam sentir o clima de uma empresa de verdade. Eles entravam por uma recepção, apertavam o botam do elevador. O camarim foi montado dentro de uma das salas da antiga companhia que ocupava o endereço".

Entraram as referências ao tom das comédias de Tom Hanks, que também tem essa doçura, dos anos 1980, como 'Quero Ser Grande'. As pessoas riam e se emocionavam com ele
André Pellenz, diretor

O roteiro, de Pellenz, Danilo Gullane, Sylvio Gonçalves e L.G. Bayão, foi construído a partir de pesquisas sobre o mundo empresarial. "Nós nos encantamos pelo ambiente corporativo, que não é explorado pelo cinema brasileiro. Visitamos empresas, trocamos ideias com quem tinha experiência na área. O próprio Veras já tinha se apresentado em eventos de empresas", entrega o diretor. "Passei quase oito anos fazendo o show 'Falando a Veras' em festas de fim de ano. Fiz laboratório para o 'Festa da Firma' antes de saber que ele existia", brinca o ator.

Veras entrou no projeto depois que o roteiro já estava pronto. O personagem Vlad então foi retrabalhado para se aproximar do registro do ator e comediante carioca. "A gente passou a observar características do Veras que funcionariam bem no personagem. Ele é um cara que trabalha muito com silêncios, os intervalos de tempo, os meios tons. Trouxemos isso para o Vlad", descreve Pellenz. "Foi nessa fase que entraram as referências ao tom das comédias de Tom Hanks, que também tem essa doçura, dos anos 1980, como 'Quero Ser Grande'. As pessoas riam e se emocionavam com ele".

Início, meio e fim

"Festa da Firma" é o 13º filme de Veras (e o terceiro como protagonista), que estreou no longa-metragem na sátira "Copa de Elite" (2012). Ele conta que sete deles estão para estrear este ano, entre eles "O Filho Eterno", "Os Saltimbancos Trapalhões", "Porta dos Fundos - Contrato Vitalício", "Um Namorado pra Minha Mulher" e "Shaolin do Sertão". "Estou em um momento cinematográfico incrível. Tenho feito muitas comédias, mas 'Festa da Firma' a gente está contando uma história com início, meio e fim, não é um enredo de piadas soltas", distingue o ator.

Esse é o 10º filme da carreira de Pablo Sanábio, que começou no cinema um pouco mais cedo, em 2007, com o drama "Sem Controle", de Cris D'Amato. "Aprendi a não ter pressa. Acho que as coisas tem um tempo certo para acontecer, como o Max de 'Totalmente Demais', por exemplo, que foi marcante. Precisei passar por muita coisa para estar preparado para aquele personagem", aponta o ator, que trabalhou pela primeira fez com Pellenz em "Minha Mãe é uma Peça".

"Festa da Firma" é coproduzido pelo Telecine e a Miravista e distribuído pela Paris Filmes em conjunto com a Downtown Filmes. O filme, que tem estreia prevista para 2017, ainda tem no elenco Giovanna Lancellotti, Diogo Vilela, Nelson Freitas, Stepan Nercessian, Victor Leal e Maria Clara Gueiros, entre outros.