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Partes mais "loucas" de "O Roubo da Taça" são as reais, conta diretor

Luna d'Alama

Colaboração para o UOL

06/09/2016 10h33

Na noite de 19 de dezembro de 1983, o troféu mais importante do futebol mundial até então, a taça Jules Rimet, foi roubado da sede da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), no Rio de Janeiro. Era o fim abreviado da posse definitiva do Brasil sobre a taça, obtida em 1970, após o tricampeonato mundial (1958, 1962 e 1970). As circunstâncias do crime, suas motivações, todos os envolvidos e, sobretudo, o que aconteceu com a taça são fatos até hoje não completamente esclarecidos.

Acervo UH/Folhapress
O então presidente João Goulart beija a taça Jules Rimet após o Brasil tornar-se bicampeão mundial na Copa de 1962, no Chile Imagem: Acervo UH/Folhapress

Toda essas incógnitas viraram, agora, tema da comédia “O Roubo da Taça”, que estreia nesta quinta-feira (8) e ganhou quatro prêmios no Festival de Gramado 2016 (ator, para Paulo Tiefenthaler, roteiro, fotografia e direção de arte). Em março, com o título em inglês "Jules and Dolores", o longa também conquistou o prêmio do público em março, no Festival South by Southwest, no Texas (EUA).

O diretor Caíto Ortiz, 45, diz que não buscou realismo, mas uma interpretação dos fatos. “Eu tinha 12 anos naquela época. Fiz muita pesquisa de tudo o que saiu nos jornais, mas faltavam vários detalhes”, conta, explicando que ele mesmo não sabia de algumas partes da história.“Não sabia da troca da réplica pela taça verdadeira [que estava em exposição, e não no cofre], do vidro à prova de balas com uma moldurinha ridícula de madeira, nem que iríamos ganhar tantos Kikitos”, brinca o cineasta.

Embora “O Roubo da Taça” – que se chamaria inicialmente “Ladrões de Caneco” – comece com a frase “Uma boa parte disso realmente aconteceu”, para Ortiz existe a impressão de que “várias partes loucas são ficção, que a gente inventou, mas essas é que são reais”. “Sabemos como foi o roubo, por que o Peralta [representante do Atlético Mineiro na CBF] fez isso – para pagar uma dívida de jogo. Que ele levou sem querer a taça verdadeira [pensava que era uma réplica, mas a verdadeira é que estava exposta] e que queria derreter o ouro. Essa é a história real. O que ficou mal esclarecido é o que aconteceu com a Jules Rimet”, afirma Ortiz.

“A história toda é mal contada, a versão oficial diz que a taça foi derretida, mas nunca encontraram o ouro, a base, nada", completa o diretor. "O cara que interceptou, um argentino, foi preso tempos depois. Agora, parece que a Fifa montou uma força-tarefa porque a Jules Rimet vai fazer cem anos [em 2029] e eles querem ver se têm algo mais a dizer", revela.

Nos Estados Unidos, depois da exibição do filme, os espectadores ficaram “aflitos” para saber quais eram os fatos e o que era ficção na trama, lembra o diretor. “Eles me falavam: ‘Mas isso não pode ser verdade! E aquilo lá, é real? Ah, sem chance. Ficavam tentando descobrir tudo”, conta Ortiz.

Caso abafado

A ideia para o filme surgiu depois que Ortiz leu na internet, há alguns anos, uma reportagem com fatos “malucos” sobre o roubo. “Tem um filme aqui”, pensou.

Ele acrescenta que todo brasileiro da sua geração tem uma ideia do que foi o caso Jules Rimet, mas não sabe dos pormenores da história, como as circunstâncias do crime, suas motivações, todos os envolvidos e, sobretudo, o que aconteceu com a taça. “[Isso se deu] Muito por conta da vergonha, pois era final de ditadura, e também porque a imprensa não era tão livre na época e não foi a fundo no caso, que acabou sendo meio abafado”, aponta.

“Até meu pai e meus tios, que são boleiros, não sabiam como a taça tinha sido levada, quem comprou, etc. Não fiz um documentário, tanto que uma das personagens [Dolores, vivida por Taís Araújo] é fictícia, e juntei três ladrões em dois [Peralta e Borracha, interpretados respectivamente por Paulo Tiefenthaler e Danilo Grangheia]. Apesar disso, todas as viradas da trama e as outras pessoas são de verdade. Um dos homens que jogam carta com o Peralta foi, inclusive, amigo do ladrão verdadeiro”, revela.

Até o improvável personagem interpretado pelo funkeiro Mr. Catra existiu. “Ele é um interceptador de ouro, o cara para quem os ladrões tentaram vender a taça, pois não tinham um plano do que fazer com ela. Esse personagem tinha que ter muita força, e o Catra foi a nossa primeira opção”. Para o homem ficar com um rosto ainda mais marcante, o diretor inventou de colocar um olho cego nele. “Mandamos fabricar uma lente especial em Los Angeles. Ninguém conhece direito o rosto de nenhuma dessas pessoas, então não houve a preocupação de elas serem parecidas. Tomamos algumas liberdades”, ressalta Ortiz.

Já o ator argentino Fabio Marcoff, que vive no Brasil há mais de uma década, trouxe a “malandragem argentina” para o filme, no papel do ourives Juan Carlos Hernandez, que foi condenado a três anos de cadeia em 1988, mas só foi capturado dez anos depois, em São Paulo, transportando cocaína para o Rio. Hernandez é apontado como o responsável pelo derretimento da Jules Rimet, mas nunca foi punido por esse crime, apenas por tráfico de drogas. Em 1984, o homem chegou a abrir uma loja chamada Aurimet Comércio de Metais Preciosos Ltda., o que poderia ser uma forma debochada de fazer alusão ao ouro (em latim, auri) e à taça Jules Rimet. “Mas nem todas as verdades em torno da história entraram no filme”, ressalta Ortiz.

Além da Jules Rimet, outros três troféus foram roubados da sede da CBF naquela noite de 1983. Um vigia foi rendido, amarrado e vendado. Quatro dos envolvidos (Sérgio Peralta, Chico Barbudo, Luiz Bigode e o argentino Juan Carlos Hernandez) foram condenados em 1988, mas passaram poucos anos presos. Hoje, segundo o diretor, estão todos mortos. E, desde 1986, uma réplica da Jules Rimet criada após o roubo é mantida pela CBF no Rio.