Filmes e séries

De Toronto para o Oscar: 10 filmes que entraram na trilha da estatueta

Divulgação/Montagem
Toronto 2016: Cenas dos filmes "La La Land", "Nocturnal Animals" e "Jackie" Imagem: Divulgação/Montagem

Eduardo Graça

Colaboração para o UOL, em Toronto (Canadá)

18/09/2016 08h10

O mais pop dos grandes festivais anuais de cinema, Toronto (Tiff) é encarado como um dos principais termômetros para a corrida do Oscar e funciona, ao lado de Veneza e do mais alternativo Telluride, no Colorado, como o deslanchar outonal do período de campanhas para as premiações do inverno. As atenções estão voltadas tanto para surpresas de última hora quanto para a confirmação de possíveis sucessos de público que testam águas mais profundas na tranquila cidade canadense localizada à beira do Lago Ontário. E nenhuma grande produção saiu do festival tão bem posicionada para os prêmios da Academia de Hollywood no último fim de semana de fevereiro quanto o musical “La La Land – Cantando Estações”, nos cinemas brasileiros em 12 de janeiro.

No cenário oposto, quem saiu mais chamuscado foi “The Birth of a Nation”, que estreia no Brasil no dia 26 de janeiro, e que gerara enorme expectativa desde sua aclamada projeção no Festival de Sundance, em janeiro.

Em sua versão 2016, o Tiff viu a unção pelos críticos e público, de “Moonlight”, um filme que também trata de questões étnicas (tema onipresente no Tiff deste ano, sinal dos tempos), mas sem as pretensões épicas de “The Birth of a Nation”, em torno da ainda dificílima situação das relações homoafetivas no universo afro-americano. Assim como “Moonlight”, “Jackie” teve de abrir espaço para seguidas sessões extras de última hora por conta do sucesso da cine-biografia de Jacqueline Kennedy, carimbo de Natalie Portman para a disputa do Oscar de melhor atriz.

Nem tudo foram flores, no entanto. A crise econômica que assola o mercado cinematográfico cada vez mais dependente de arrasa-quarteirões bilionários e já sofrendo a diminuição de força da economia chinesa, antídoto para o despencar de vendas de DVDs e o crescente mas ainda pouco lucrativo streaming para Hollywood nos últimos anos, foi um personagem de destaque nas ruas do centro de uma das cidades que, ironicamente, cresce em ritmo mais acelerado na América do Norte. Menos negócios sendo fechados por estúdios na cidade (“Jackie”, adquirido pela mesma Fox que quebrou recordes com a compra dos direitos de distribuição de “The Birth of a Nation”, foi uma significativa exceção) e a consolidação de Netflix e Amazon como protagonistas importantes mas mais interessados em desenvolver conteúdo próprio do que em entrar em leilões por produções artesanais.

Veja os filmes que foram os destaques de Toronto/2016:

La La Land – Cantando Estações: A carta de amor de Damien Chazelle (diretor do celebrado indie “Whiplash – Em Busca da Perfeição”) aos musicais clássicos de Hollywood e a uma Los Angeles vivíssima nos dias de hoje levou o público a cantar a deliciosa trilha sonora na saída do teatro e trestemunhas garantem terem visto jornalistas dançando pela rua King, centro nervoso do Tiff. A escolha de Emma Stone como melhor atriz em Venice ajudou, Ryan Gosling encontrou seu melhor papel em anos, sua voz pequena é perfeita para ecoar o cool jazz da Costa Oeste americana, do qual seu personagem é fã, e a história de amor entre os dois protagonistas tem um final nada previsível. O filme, incluindo os muitos quesitos técnicos (foi filmado em Cinemascope, a cinematografia é belíssima), Emma e Gosling, saem de Toronto como francos favoritos à estatueta.

Fred Thornhill/Reuters
Michelle Williams se destacaou como coadjuvante em "Manchester By The Sea" Imagem: Fred Thornhill/Reuters
Manchester By The Sea: O outro lado da moeda de “La La Land”, o filme do dramaturgo Kenneth Logan confirmou o burburinho de Sundance e saiu de Toronto com indicações possíveis para um exato Casey Affleck e, para atriz coadjuvante, Michelle Williams, em uma de suas melhores interpretações. A reação de crítica e público à tragédia passada na Nova Inglaterra faz do filme produzido por Matt Damon o outro líder na corrida para as indicações ao Oscar. Curiosamente, ele estreia no Brasil no mesmo fim de semana de “La La Land”.

Loving: Não era uma estreia em festivais de grande escala, mas a fila de dobrar dois quarteirões no último dia de projeção em Toronto e a necessidade de se criarem sessões estras no fim de semana derradeiro do festival demonstram o poder de fogo do filme de Jeff Nichols que conta a história real do casal Richard e Mildred Loving, responsável, depois de muito sofrimento, pelo fim, via Suprema Corte, da proibição de casamentos inter-raciais no sul dos EUA. As interpretações de Ruth Negga e Joel Edgerton, contidas e poderosíssimas, são o principal trunfo rumo a um Oscar aparentemente destinado a ser o oposto do anterior, marcado pelas reclamações da ausência dos afro-americanos nas principais categorias.

Moonlight: Exatamente como o pequeno grande filme “Barry”, outro destaque de Sundance que ganhou fôlego extra em Toronto, em torno dos anos formativos de um certo Barack Obama, e produções já mais expostas à crítica como “Loving”, “Moonlight” tem, elenco majoritariamente afro-americano. O filme é centrado em Chiron, um jovem negro lutando para lidar com sua homossexualidade em uma comunidade cujos valores de resistência social e cultural não incluem o culto à diversidade de opção sexual. Divivido em três atos, o filme tem tudo para repetir a trajetória rumo ao Oscar de “O Quarto de Jack”, lançado na mesma Toronto pela mesma distribuidora A24 no ano passado. O diretor e roteirista Barry Jenkins sai do festival com grandes chances de múltiplas indicações. Os três atores a viverem Chiron em diferentes fases de sua vida (Trevante Rhodes, Ashton Sanders e Alex Hibbert), Naome Harris como a mãe, lidando com a dependência química, e Mahershala Ali, em papel crucial para o crescimento de Chiron, também são citados como candidatos aos prêmios de atuação.

Divulgação
Apesar da expectativa, "The Birth of a Nation" saiu chamuscado de Toronto Imagem: Divulgação
The Birth of a Nation: Em janeiro a Fox adquiriu, em valor recorde, os direitos de distribuição do filme épico de Nate Parker, em torno de uma revolta de escravos nos EUA na primeira metade do século XIX, por quase US$ 18 milhões. Para além da controvérsia sobre uma acusação de estupro quando o diretor ainda era um estudante universitário, a projeção do filme para a critica internacional, mais presente em Toronto do que em Sundance, não saiu como o esperado. Aplaudido de pé durante dois minutos ininterruptos na sessão de gala, e decididamente um favorito do público no festival, o filme se tornou, perigosamente para sua produção, antipático a críticos e jornalistas, muito por conta da péssima estratégia de Parker de fugir das perguntas relacionadas ao caso de violência sexual em uma coletiva de imprensa de mais de uma hora que foi um dos momentos mais dramáticos do evento. A alta expectativa em torno do filme gerada em Sundance também complicou a trajetória do filme em Toronto, com o mix de “Coração Valente” e “Paixão de Cristo” sendo percebido mais como um pastiche de Mel Gibson transportado para os anos pré-Guerra de Secessão Americana (1861-1865) do que a arriscada e corajosa tentativa de se criar, ainda no nascimento dos EUA, uma espécie de patriarca dos afro-americanos na pele do líder da revolta, o escravo Nat Turner, vivido por Parker, que também assina o roteiro do filme. Toronto diminuiu, e muito, as possibilidades de o filme se tornar um personagem central no Oscar 2017.

Lion: O filme é a aposta (melo) dramática dos Weinstein para o Oscar, tem lançamento garantido no Brasil, e foi recebido com emoção pela plateia e por parte da critica. Baseado na história real de um menino indiano separado de sua família por um trágico acaso do destino, adotado por australianos e decidido a encontrar seus parentes de sangue anos mais tarde. O reencontro, facilitado pelo Google Earth, é o clímax de um filme em todo feito para o Oscar, com boas atuações do protagonista Dev Patel e das coadjuvantes Nicole Kidman (como a sofrida e sábia mãe australiana) e Rooney Mara (a namorada que o incentiva a seguir em busca do reencontro com a mãe biológica e os irmãos vivendo em uma comunidade miserável na Índia).

Nocturnal Animals: O filme foi bem mais bem-recebido em Veneza do que em Toronto, dividindo critica e público. Houve quem saísse certo de uma quase repetição da premiação de Veneza (indicação a melhor diretor e  melhor filme) no Oscar, mas o arremedo de consenso foi o de que a segunda imersão de Tom Ford no universo do cinema é, ao mesmo tempo, mais ambicioso e desigual do que “Direito de Amar” (2009). Além de boas interpretações de Amy Adams e Jake Gyllenhaal preste atenção na cena em que Laura Lynney, em especialíssima participação, prenuncia o futuro da filha, vivida por Adams, se de fato decidir pelo casamento com o personagem de Gyllenhaal. Curta, mas quiçá um passaporte para o Oscar de melhor atriz coadjuvante.

Arrival: O outro filme estrelado por Adams é mais complexo, gira em torno de temas como a não-linearidade do tempo e a chegada de extra-terrestres à Terra, conta com interpretação ainda mais destaca da atriz e impressiona pelo cuidado com as imagens. O ritmo, lento, e a ausência de ação, no entanto, o deixam incapacitado para a briga pelas demais categorias.

Aquarius e Sonia Braga: O anúncio de que o filme não seria o candidato brasileiro ao Oscar não foi exatamente uma surpresa para o diretor Kleber Mendonça Filho e a protagonista do filme, Sonia Braga, mas o solitário representante puro-sangue brasileiro em Toronto saiu do festival com chances reduzidas de participar da festa da Academia de Hollywood em fevereiro. A competição para melhor atriz, apesar dos elogios seguidos da crítica a la Braga, se complicou, com a explosão de Natalie Portman em Toronto, a decisão de Isabelle Huppert de fazer campanha abertamente pela primeira vez, inclusive durante os eventos de divulgação de “Elle”, a partir de 17/11 nos cinemas brasileiros, e de “Things to Come”, ainda sem distribuição assegurada no Brasil. Também saíram maiores do que entraram em Toronto a já citada Emma Stone; Amy Adams, tanto por “Arrival” quanto por “Nocturnal Animals” e a impressionante Ruth Negga, por “Loving”. A reinvenção de Blake Lively no desigual “All I See is You”, de Marc Forster, em que vive uma mulher lidando com a cegueira e a crise de um casamento aparentemente perfeito, também foi devidamente notada em Toronto. O filme, de qualquer modo, segue uma carreira vitoriosa no exterior, e participará do prestigiado Festival de Cinema de Nova York imediatamente antes de seu lançamento nos cinemas americanos.

Jackie e a Indústria do Cinema: Se já era sombrio, o prognóstico para filmes ‘de arte’ ou ‘médios’, com cuidado artesanal mas possibilidade de explosão nos cinemas, ficou ainda pior depois de Toronto. Até o momento, a aquisição mais importante foi a de “Jackie”, a cine-bio dirigida com esmero pelo chileno Pablo Larrain (de “Neruda”, também presente no festival) em torno da ex-primeira-dama dos EUA nos momentos imediatamente posteriores ao assassinato de J.F.K. O filme chegou a Toronto animado pela recepção calorosa em Veneza, mas explodiu mesmo no Canadá. A decisão da Fox Searchlight de investir no filme, cuja protagonista, Natalie Portman, praticamente saiu de Toronto com a campanha para melhor atriz deslanchada, também diz muito sobre o destino de “The Birth of a Nation”. O braço indie da Fox não irá, acreditam analistas, investir pesado em duas campanhas para a temporada de premiação. A China, por sua vez, ainda que com a economia combalida e a diminuição de ingressos vendidos nos últimos anos, marcou presença com a aquisição de “Colossal”, ainda sem distribuidor ou lançamento no Brasil, por um grupo chinês que pretende anunciar em breve a formação de um novo estúdio com sede em Los Angeles. O filme é um drama sobre uma alcoólatra (Hathaway) que descobre ter uma misteriosa conexão com um monstro – pois é – que assola a Ásia. Foi recebido mais como uma curiosidade do que um sucesso entre público e crítica, mas pode representar o pontapé inicial para um novo modelo de parceria pan-pacífica na indústria do cinema, o que não é pouco.

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

{{subtitle}}

Essa discussão está encerrada

Não é possivel enviar novos comentários.

{{ user.alternativeText }}
Avaliar:
 

* Ao comentar você concorda com os termos de uso. Os comentários não representam a opinião do portal, a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

Facebook Messenger

Receba as principais notícias do dia. É de graça!

do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
Reuters
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
AFP
do UOL
Cinema
Roberto Sadovski
do UOL
do UOL
Chico Barney
UOL Cinema - Imagens
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski

As 25 melhores histórias em quadrinhos da Liga da Justiça

Pincelar as melhores histórias da Liga da Justiça é um trabalho complexo. Não pela falta de qualidade, mas pelo contraste: muita coisa entre os primórdios da equipe e o final dos anos 80 tem mais valor por sua inegável importância histórica do que por seus predicados artísticos. O gibi da Liga, afinal, viveu por anos na sombra da animação Superamigos, e isso deixou o tom das histórias mais ingênuo e infantil até a reformulação pós-Crise nas Infinitas Terras. Mas garimpar todas as fases em décadas de aventuras trouxe boas surpresas e ótimas descobertas - além do perceber que, em boas, mãos, a Liga pode ser incrível! A leitura rendeu algumas conclusões. Primeiro, não há absolutamente nada errado em usar histórias de super-heróis para fazer humor! Segundo, o horrendo período dos Novos 52, que privilegiou forma, ignorou substância e fez um flashback sinistro dos primórdios da Image Comics nos anos 90 (urgh), não foi tão cruel com a Liga. Terceiro, pouca gente escreve e entende os herói tão bem quanto Grant Morrisson e Mark Waid. No mais, a Liga da Justiça, em usas diversas encarnações, ainda é aposta certeira quando o assunto é entretenimento - afinal, só uma equipe criativa muito canhestra poderia melar uma mistura de personagens e personalidades e superpoderes tão diversa e tão bacana! Acredite, se os super-heróis mais lendários do mundo sobreviveram a Extreme Justice, nada é capaz de derrotá-los!

Cinema
Colunas - Flavio Ricco
do UOL
do UOL
do UOL
UOL Cinema - Imagens
do UOL
Reuters
do UOL
do UOL
do UOL
Reuters
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
do UOL
TV e Famosos
do UOL
do UOL
Topo