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"Pequeno Segredo" faz campanha de US$ 250 mil para chegar ao Oscar

Carlos Helí de Almeida

Colaboração para o UOL, no Rio

17/10/2016 17h39

Representante do Brasil para tentar uma vaga no Oscar de melhor filme estrangeiro, "Pequeno Segredo" precisa ser visto lá fora e chegar especialmente aos olhos da Academia de Hollywood. E, para isso, o diretor David Schürmann orçou uma campanha de US$ 250 mil para fazer com que o drama caia nas mãos certas.

"Pequeno Segredo" entra em circuito brasileiro no dia 10 de novembro, após ficar em cartaz por duas semanas em uma sala de Novo Hamburgo (RS) para se tornar elegível ao processo de seleção ao Oscar, mas ainda não tem distribuidor americano, nem participou de mostras internacionais. Mas Schürmann está otimista.

"Como qualquer cineasta apaixonado por cinema, venho seguindo o Oscar há muito tempo. Sempre lembro do caso de 'Quem Quer Ser um Milionário', do Danny Boyle, que não foi aceito por nenhum festival grande, mas acabou levando oito estatuetas da Academia", contou Schürmann, que já embarcou para Los Angeles, onde acompanhará de perto a campanha de "Pequeno Segredo" ao prêmio.

Um longo caminho por festivais

Em fevereiro deste ano, Schürmann e o produtor João Roni Garcia organizaram uma sessão secreta do filme durante o Festival de Berlim, a Berlinale. Foi ali, entre os elogios ouvidos após a projeção fechada à profissionais do mercado de cinema que começou a tomar força a ideia de inscrever a produção catarinense na corrida ao Oscar de melhor longa-metragem estrangeiro de 2017.

"Nós já acreditávamos no filme, o achávamos muito bonito, mas éramos como pais falando do próprio filho. O que nos encorajou foi a reação dos agentes estrangeiros, que viram nele potencial para o prêmio da Academia americana", lembrou Schürmann.

O diretor confessou que havia inscrito o filme em Cannes, mesmo sabendo que ele "não tinha a cara, nem a linguagem dos filmes que concorrem" no evento francês, o maior do mundo. Também havia oferecido a Berlim mas, à época da seleção, não dispunha de uma cópia do filme com corte final. "Soube que havia gente da Berlinale no Festival do Rio. Quem sabe 'Pequeno Segredo' não seja convidado para a próxima edição?".

Os produtores já inscreveram "Pequeno Segredo" no Festival de Sundance, o mais notório evento americano dedicado ao cinema independente, que acontece entre 19 e 29 de janeiro --as indicações ao Oscar 2017 serão reveladas no dia 6 de fevereiro. "Nosso filme tem mais cara do Sundance, mas não sabemos se vamos entrar. O importante, mesmo, é fazer o filme chegar ao conhecimento dos eleitores da Academia. Não adianta exibir em festival sem que eles o conheçam".

Missão: Oscar 2017

À frente dessa missão está Steven Raphael, da Required Viewing, empresa de marketing e publicidade sediada em Nova York. O cinema brasileiro não é estranho ao agente americano. Em 2008, ele conseguiu colocar "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", de Cao Hamburger, entre os nove finalistas à estatueta. Em 2012, batalhou pela carreira de "O Palhaço", de Selton Mello, na corrida de 2013, e fez o mesmo por "O Som ao Redor", de Kleber Mendonça Filho, no ano seguinte.

Em seu histórico de vitórias, a Required Viewing tem a campanha da produção mexicana "O Labirinto do Fauno", de Guillermo del Toro, que venceu três (direção de arte, fotografia e maquiagem) das seis categorias do Oscar que disputou em 2007. Também tem em seu currículo o projeto de promoção que acabou dando o prêmio de melhor filme estrangeira ao espanhol "Mar Adentro" (2004), de Alejandro Amenábar.

A campanha, elaborada também de olho nos Globos de Ouro, premiação que serve de parâmetro para o Oscar, inclui projeções especiais, publicidade em jornais e revistas especializadas, e encontros promocionais com os realizadores. A Ancine (Agência Nacional do Cinema) contribuiu com US$ 60 mil; o resto do montante foi levantado junto a "investidores brasileiros do setor privado". "A campanha para uma das categorias principais do Oscar está em torno de US$ 1 milhão", comparou Schürmann.

"O mais bacana é que o Steve [Raphael] amou o nosso filme, e ressaltou as qualidades que eu via nele como candidato  a um prêmio como o Oscar. Ele vai trabalhar lá fora esses pontos chaves de um filme que fala de família, bullying, preconceito, adoção, e que tem um visual diferente dos filmes que estamos acostumados a ver na categoria de melhor filme de língua não-inglesa. Uma história brasileira, sobre brasileiros, mas internacional", destacou o diretor.

 

Uma história real

"Pequeno Segredo" conta a história de Kat Schürmann (Mariana Goulart), irmã adotiva do diretor, que morreu em consequência de complicações da Aids em 2006, aos 13 anos de idade. Ela aparece no documentário "O Mundo em Duas Voltas" (2007), também dirigido por Schürmann, que registra as viagens da família de velejadores pelos sete mares. O filme é baseado no livro homônimo escrito pela mãe do diretor, Heloísa, publicado em 2012.

Marcello Antony, que no filme interpreta Vilfredo, pai do diretor, não chegou a conhecê-lo pessoalmente. "Ele tinha começado uma nova viagem, e a gente se desencontrou. Construí o meu personagem a partir das indicações que o David me deu e do que ouvi da Heloísa sobre ele", contou o ator.

Julia Lemmertz, que na tela vive a mãe de Kat, conheceu a verdadeira Heloisa quando ela veio ao Rio lançar o livro "Pequeno Segredo". "Trocamos ideias até o momento em que ela e o Vilfredo partiram em viagem com o veleiro novo da família. Foi um contato importante para o meu personagem", explicou a atriz, que não pretendia imita-la. "O que eu quis foi me aproximar da mulher, da alma dela. Queria entender o que move uma pessoa como ela, esse amor que ela sente pelos filhos, e a dedicação especial à vida de Kat".

Para o diretor, trabalhar com as memórias de pessoas tão próximas era um perigo. "Tanto que não mostrei nem o roteiro nem o filme para os meus pais antes de terminar o filme", contou ele, que é coautor do roteiro, ao lado de Marcos Bernstein e Vitor Atherino. "Há muitos anos vim fazendo esse trabalho de distanciamento. Deixei a família de lado, passei a vê-los como personagens de um filme de ficção, de contar a história deles como se fossem outras pessoas".