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Filme sobre guru conservador Olavo de Carvalho quer abraçar a direita

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

25/10/2016 12h40

A direita já tem seu "Aquarius". Enquanto o filme protagonizado por Sonia Braga perdia a chance de representar o Brasil no Oscar, na esteira de sua posição contra o governo de Michel Temer, uma outra trupe cinematográfica alardeava nas redes sociais que também sofria "perseguição": desta vez, pelos defensores da presidente impichada Dilma Rousseff.

Produzido via crowdfunding, "O Jardim das Aflições" arrecadou R$ 300 mil em doações para se tornar o primeiro documentário sobre o famigerado filósofo conservador Olavo de Carvalho. Mas, diferente de "Aquarius", que viajou pelo mundo através de festivais, o documentário sofre para emplacar sua presença na programação do Festival do Rio e do Festival de Gramado.

Alguns de seus 3.000 financiadores foram para o ataque. "Onde está o maior filme brasileiro? Isso é censura", dizia uma das mensagens nas redes sociais de Gramado, na época de divulgação dos selecionados, em agosto.

Apesar disso, os dois filmes não poderiam ser mais diferentes. A julgar pelas poucas cenas divulgadas, no lugar da Clara, protagonista do filme de Kleber Mendonça Filho, jornalista aposentada com claro viés à esquerda e que passa os dias em seu apartamento à beira-mar no Recife, "O Jardim" foca em um senhor pacato, que vive na cidade de Richmond, capital de Virgínia, um dos estados mais conservadores dos Estados Unidos, onde dá palestras online sobre filosofia e caça animais. A reportagem não assistiu ao filme.

Passada a época da recusa, o diretor Josias Teófilo, 29, afirma que não encara o fato como "censura", "mas os critérios exclusivamente políticos se mesclam com julgamentos estéticos", defende. "Selecionar para uma mostra competitiva um filme sobre Olavo de Carvalho, o filósofo que previu a ascensão do PT e todos os seus crimes, seria dar um trunfo ao inimigo".

O UOL entrou em contato com o Festival do Rio e de Gramado, e ambos eventos afirmaram que recebem muitas inscrições, e que as escolhas não reproduzem questões pessoais ou políticas. "Censura mesmo foi tentarem constranger os profissionais a não trabalhar no meu filme", pontua o diretor.

Divulgação
Produtor Matheus Bazzo, o protagonista do filme, Olavo de Carvalho, e o diretor Josias Teófilo durante filmagem da caça diária do filósofo Imagem: Divulgação

Um dos novos nomes do cinema pernambucano, Daniel Aragão havia acabado de estrear como diretor de "Boa Sorte, Meu Amor" quando integrou a equipe de "O Jardim das Aflições" como fotógrafo. Nas redes sociais, ele relatou que sofreu ameaças dos amigos e preferiu se exilar nos Estados Unidos.

Teófilo diz que também recebe ameaças suspeitas. "Daniel saiu do país por causa da perseguição que se seguiu. E eu farei o mesmo em novembro", avisa, em contato por e-mail.

Dias depois, dessa vez por telefone, avisou que, antes de ir embora, fará um filme com Danilo Gentili. O comediante do SBT e seguidor de Olavo inclusive assistiu ao documentário. "Ele gostou muito e combinamos de fazer um projeto juntos."

Caminhos opostos

Josias Teófilo e Kleber Mendonça Filho, contudo, já tiveram mais em comum do que a escolha de seus protagonistas. Recifense radicado em Brasília, Teófilo fez parte da equipe de Kleber no curta "Recife Frio", e alega ter emprestado sua casa como locação para o filme "O Som ao Redor". Diz gostar ainda do amigo, mas revela: "Depois que eu saí do armário, tudo mudou."

"Eu sabia que, quando eu começasse a ser contra marcha das vadias, falasse sobre o Olavo, eu ia ser expulso", ele conta por telefone, direto de Paris, onde filma para seu novo projeto, "Iconostasis", sobre a tradição cristã do ícone, como ponte entre o divino e o mundano.

Embora replique em seu Facebook críticas e piadas contra petistas, movimentos sociais e, principalmente, o cinema pernambucano, Teófilo rechaça, assim como Mendonça Filho, a ideia de que seu filme seja sobre política. "É um filme sobre filosofia."

Identidade cultural

Gravado em dez dias, o documentário segue o cotidiano de Olavo entre a família, as idas a missas e sua coleção de rifles. Mais do que ser contra os movimentos minoritários e o comunismo, como costuma fazer no Facebook, no filme ele se dedica a defender a consciência do indivíduo contra o coletivismo representado pelo Estado. "Ele diz que dinheiro do Estado faz mal, dá doença", conta Teófilo.

Por isso mesmo, no lugar do incentivo público, "O Jardim" conta com cotas de patrocínio de uma empresa de advocacia, uma editora --que prepara uma biografia do deputado Jair Bolsonaro-- e de um site que defende o ensino domiciliar, longe das escolas, uma das bandeiras mais caras do conservadorismo.

Após a recusa nos festivais brasileiros, Teófilo mira agora nos eventos internacionais e planeja estrear o filme em janeiro de 2017, firmando uma parceria com redes de cinema. Com o feito, ele espera, enfim, ser reagregado ao cinema e criar uma identidade cultural para "os milhões e milhões que saíram às ruas".

"Essa gente [que foi às ruas contra a presidente Dilma Rousseff] não tem representação cultural", afirma. "Vamos procurar mobilizar esse povo. Esse filme não teve o apoio de nenhum político, nem mesmo do partido DEM ou de partidos chamados de direita. Essa gente nem sabe o que é cultura".

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