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"Animais Fantásticos" é uma evolução natural de "Harry Potter", diz diretor

Natalia Engler*

Do UOL, em Nova York (EUA)

18/11/2016 12h22

Quando foi anunciado em 2013 que o universo de Harry Potter voltaria às telas, mas sem seu personagem principal, muita gente se perguntou se a escritora J.K. Rowling não estaria dando um passo em falso. Afinal, quem ousaria deixar para trás uma franquia de US$ 7 bilhões para começar uma história totalmente nova?

Mas Rowling fez isso, e o resultado acaba de chegar aos cinemas em “Animais Fantásticos e onde Habitam”, um filme que compartilha o mesmo universo mágico de Harry Potter, só que com um tom mais adulto e realista. Algo que, para a equipe envolvida na produção, era tão natural quanto o fato de que os fãs do bruxo, que leram o primeiro livro em 1997, também amadureceram.

“Da maneira em que J.K. escreveu as histórias dos filmes [serão cinco, no total], elas são uma espécie de evolução natural do que ela fez antes”, disse em entrevista ao UOL o diretor David Yates, que voltou ao universo de Rowling depois de ter dirigido os quatro últimos filmes de Harry Potter.

“J. K. está amadurecendo junto com o material. E, inevitavelmente, as pessoas que acompanharam os livros e os filmes cresceram também. Tem um paralelo legal aí”, acredita ele, pontuando que espera que o filme atraia tanto os velhos fãs quanto um novo público. “Mas adoro a ideia de você ter crescido com as histórias, e agora as histórias estarem crescendo”, completa.

Yates também acredita que a nova história é, ao mesmo tempo, familiar e nova. “Eu gosto de usar a analogia de um restaurante. Você vai ao seu restaurante preferido, eles colocam Radiohead para tocar, te dão uma mesa com uma linda vista, as pessoas que te atendem são fantásticas e você vai lá toda semana. E daí eles trazem um prato que você nunca experimentou antes e você pensa: 'Isso é diferente!'. Mas você está em um lugar que te parece seguro. Foi assim que o roteiro pareceu para mim. Eu pensei: 'É o DNA da J.K., sua filosofia, seus valores, o dom que ela tem para personagens'”, explica o diretor. “Parecia 'Potteriano' por causa desse clima, mas senti que estava comendo um prato que nunca havia experimentado. E isso é uma vitória dela, da sua ambição de romper com o que já havia criado”.

Para a própria Rowling, começar algo novo era a única maneira de voltar ao universo de Potter. “Eu sabia desde o fim de ‘Harry Potter’ que as pessoas queriam mais, e teria sido fácil continuar produzindo, mas nunca fui esse tipo de pessoa”, disse a autora, durante uma entrevista coletiva em Nova York. “Eu planejei sete livros e aquela história terminou ali. Mas sempre fiquei intrigada com Newt. Quando me perguntavam se eu escreveria mais, Newt estava lá, no fundo da minha mente. Espero que as pessoas consigam ver que o filme nasceu de coisas que são muito importantes para mim. E acho que assim é o melhor jeito de fazer algo”, acredita.

Realismo

Em “Animais Fantásticos”, Rowling, que assina seu primeiro roteiro para o cinema, pegou um personagem que é apenas citado nos livros originais --Newt Scamander (Eddie Redmayne), especialista em criaturas mágicas e autor do livro fictício que dá nome ao filme, usado como material didático por Potter-- e o jogou em Nova York, em 1926, onde os bruxos vivem totalmente na clandestinidade, com medo da perseguição pela comunidade não-mágica. E, mesmo que os vários bichos fofos contribuam para o clima de magia, o tom é mais sombrio --e também mais realista.

“Em termos de tom, eu pude fazer um filme mais adulto. Eu adoro estar em Hogwarts, mas essa era uma história de adultos, no mundo real, e isso era original”, conta Yates. “Adoro a ideia de estar em Nova York, em uma determinada época. Tem algo mais imediato, que te envolve mais. É um pouco mais realista estar nesse cenário real do que naquele lindo e fantástico mundo de Hogwarts”, diz o diretor.

O tom mais realista também acabou incorporando temas que ressoam no mundo atual, como a intolerância a quem é diferente e projetos de dominação totalitária, apesar de o paralelo mais óbvio, pela época em que o filme se passa, ser o clima que levou à quebra da bolsa de Nova York em 1929 e à Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

É o que pensa o protagonista, Eddie Redmayne. “O filme se passa nos anos 1920, mas tem questões de segregação, de repressão. Com o toque mais suave, J.K. coloca muita profundidade dentro de uma história que tem diversão e humor. Tem algumas coisas bem sérias sendo retratadas”.

Seria o resultado da eleição para a presidência dos Estados Unidos uma dessas coisas? Não exatamente, diz Rowling.

“Esta história foi concebida alguns anos atrás, então não posso fazer nenhuma relação direta com o que aconteceu ontem”, afirmou a escritora, no dia seguinte à vitória de Donald Trump, vista por muitos como um triunfo da intolerância sobre a diversidade, pelo tom que ele adotou durante sua campanha. “Porém, se vocês leram os livros de 'Potter', sabem que nesse período da história o mundo ameaçou se tornar muito distópico. Vocês estão vendo a ascensão de uma força muito sombria. Mas concebi a história alguns anos atrás e acho que foi parcialmente influenciada pelo que vejo como a ascensão do populismo no mundo”, explica a escritora.

Para Yates, inevitavelmente o mundo real acaba se inserindo em qualquer trabalho artístico, mesmo que de forma inconsciente, e o diretor acredita que ver valores tão importantes como tolerância serem questionados acabou marcando o trabalho de Rowling em “Animais Fantásticos”. “Houve um consenso progressista [na política] que guiou a maior parte das nossas vidas. E esse consenso agora está sendo colocado em cheque, o que é saudável. Mas se ele for substituído por algo um pouco assustador, então é importante protegermos as coisas que mantiveram a estabilidade, a paz, a prosperidade e a segurança para todas as nossas comunidades”, diz.

E o diretor acredita que esses temas podem se fazer ainda mais presentes nos próximos filmes da franquia. “Os filmes podem vir a refletir um pouco isso. Depende do que vai acontecer nos próximos anos. Mas acho que as pessoas estão com medo, e eu nunca havia visto isso nesse nível durante a minha vida. Então, é importante que sejamos capazes de entender o que está acontecendo e expressar e dividir o que sentimos sobre isso”, conclui.

Futuro da franquia

Mesmo com essas dicas, o que vai acontecer nos próximos filmes ainda é “top secret”. Sabemos apenas que Alvo Dumbledore, o excêntrico diretor da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts na época de Potter, estará de volta; que esta volta deve envolver sua amizade de juventude com o bruxo das trevas Gerardo Grindelwald (Johnny Depp, que já faz uma pequena participação no primeiro filme); e que sim, sua sexualidade deve ser abordada --Rowling revelou em 2007 que o personagem é gay e teve uma paixão por Grindelwald.

“É uma história com cinco partes, então obviamente há muito para desenvolver nesse relacionamento [entre Dumbledore e Grindelwald]”, diz Rowling. “Vocês vão ver um Dumbledore mais jovem, e um jovem bem problemático, porque ele sempre foi muito inteligente, mas nem sempre foi o bruxo que conhecemos. Vamos ver o que acho que foi um período crucial de formação na vida dele. Em relação à sexualidade dele, esperem e verão”, conclui, em tom de mistério.

O produtor David Heyman, que acompanhou todos os filmes de Harry Potter desde o início, também prometeu mais ligações com o universo que os fãs conhecem. “Já li o roteiro do segundo filme e é mais do que eletrizante. As conexões que vocês podem ver neste filme são só o começo. Conforme a história se desenvolver, essas conexões com o que vimos e lemos de Harry Potter em sete livros e oito filmes vão se tornar mais explícitas”, conta.

Para saber do que Heyman está falando, teremos que esperar mais dois anos, até 2018, quando “Animais Fantásticos e onde Habitam 2” deve estrear.

Eddie Redmayne apresenta o novo mundo mágico de J.K. Rowling

* A jornalista viajou a convite da Warner Bros.

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