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ONGs brasileiras apoiam boicote, mas veem lado bom em polêmica de "4 Vidas"

Luisa Mell, Fernanda Barros e Vanessa Mesquita, ativistas pelos direitos dos animais - Junior Lago/UOL, Marta Lopez Fotografia e Felipe Assumpção e Leo Marinho/AgNews
Luisa Mell, Fernanda Barros e Vanessa Mesquita, ativistas pelos direitos dos animais
Imagem: Junior Lago/UOL, Marta Lopez Fotografia e Felipe Assumpção e Leo Marinho/AgNews

Renata Nogueira

Do UOL, em São Paulo

25/01/2017 04h00

A poucos dias da estreia de "Quatro Vidas de um Cachorro", que acontece nesta quinta-feira (26), ronda a dúvida se o público brasileiro vai ou não apoiar o boicote internacional promovido pela Peta (People for the Ethical Treatment of Animals), grupo que luta pelo bem-estar dos animais. A entidade promove uma massiva campanha online com a hashtag #BoycottADogsPurpose (#BoicoteQuatroVidasDeUmCachorro) e já anunciou que pretende ir às portas dos cinemas nos Estados Unidos impedir que as pessoas assistam ao filme.

O repúdio vem depois da divulgação de um vídeo pelo site TMZ em que um pastor alemão é supostamente forçado a entrar em uma correnteza para gravar uma das cenas do filme. Baseado no livro homônimo de W. Bruce Cameron, "Quatro Vidas de um Cachorro" conta a história de Bailey, um cão que morre e renasce várias vezes em diferentes corpos sempre com um propósito a cumprir. Para isso, vários cães de diversas raças foram usados durante as gravações.

No Brasil, a apresentadora de TV e ativista Luisa Mell promete encabeçar uma campanha online com o seu instituto. Luisa é hoje um dos nomes mais conhecidos na defesa dos animais no país. Apesar de admirar e apoiar a Peta, ela não prevê ações físicas como as que devem acontecer nos Estados Unidos.

"Estamos em contato com mais três ONGs para que as pessoas troquem seus ingressos por uma doação para uma delas. A ideia é que elas não assistam ao filme e façam uma doação no valor que gastariam com os ingressos. Assim o dinheiro que iria para o estúdio ajudará no bem-estar de algum animal", explica em entrevista ao UOL.

É uma grande lição para Hollywood e para todo o mundo do entretenimento. A sociedade não aceita mais esse tipo de crueldade.
Luisa Mell

"Eu estava ansiosíssima para ver o filme, toda semana eu ficava perguntando para o meu marido: 'Será que já estreou?'. Li o livro e fiquei apaixonada, é lindo. E aí foi um horror ver que mesmo um filme que vai falar do amor pelos cachorros usa crueldade para fazer isso. Quando se faz um filme, o adestrador tem que ter poder para barrar uma cena como essa. Fiquei super chateada, horrorizada e decepcionada", diz Luisa.

Foi o Instituto Luisa Mell, inclusive, um dos primeiros veículos brasileiros a divulgarem o vídeo que começou a viralizar pelos EUA. A publicação na página do Facebook do instituto já conta com mais de 160 mil compartilhamentos e quase 70 mil comentários.

"A parte boa é que hoje em dia tem internet, isso viraliza e ninguém aceita mais. Tenho certeza que muitos filmes já utilizaram de maus tratos e nem ficamos sabendo. Hoje em dia cai nas redes e surge um movimento gigante. Todo mundo indignado. É uma grande lição para Hollywood e para todo o mundo do entretenimento. A sociedade não aceita mais esse tipo de crueldade. Não existe justificativa para maus tratos. Eles vão pensar mais antes de fazer isso, pois já é um fracasso. Que sirva de lição", opina a ativista.

Selo não é garantia

Juliana Camargo, presidente da Ampara Animal, também planeja uma ação online para estimular o boicote ao filme. A ONG, que é formada exclusivamente por mulheres, atua em ações para cuidar de cães e gatos rejeitados e abandonados. A Ampara conta com o apoio de diversos famosos como Sabrina Sato, Cléo Pires e Fernanda Paes Leme.

"A divulgação que o Peta fez pode colocar tudo a perder. Acredito que isso realmente vá acontecer. Muita gente que eu conheço e ia assistir o filme já desistiu. A manifestação nas redes sociais também tem sido muito maior do que nós imaginávamos. A ideia é fazer que as pessoas leiam o livro e não frequentem o cinema", explica Juliana.

A presidente da Ampara também lembra que o selo de aprovação de que animais não sofreram nas gravações - uma das justificativas usadas para tentar salvar o filme - pode não significar muita coisa. "Essa questão do selo pode ser uma coisa positiva, o problema é por qual instituição ela vai ser feita. Uma ONG que nós conhecemos há muito tempo e que sempre nos ajudou a trabalhar contra a exploração animal estava trabalhando em prol do hipismo porque recebeu apoio de um atleta. Infelizmente isso acontece, as instituições são corrompidas. Nunca é 100% confiável."

A revelação da ativista brasileira vai ao encontro do comunicado divulgado por um dos produtores do filme, que também é ativista pelo bem-estar dos animais e criticou a instituição que fiscalizou "Quatro Vidas De Um Cachorro". Gavin Polone admitiu que deveria ter se posicionado contra a American Humane Association e os treinadores escolhidos para conduzir as gravações.

Situação de risco

A campeã do BBB14 Vanessa Mesquita, que hoje estuda para se formar em medicina veterinária, destaca os conhecimentos que adquiriu durante os dez anos em que resgata animais vítimas de maus tratos e também no curso superior.

"No primeiro semestre de medicina veterinária você tem aula de bem-estar animal e aprende sobre as cinco liberdades dos animais. Uma das liberdades é que todo animal tem o direito de ser livre de dor e de estresse. Qualquer pessoa que fez pelo menos o primeiro semestre do curso deveria saber isso", pontua.

Vanessa também é idealizadora do projeto PetVan e dona de uma clínica veterinária, fruto de seu prêmio no reality show. Com bastante experiência no cuidado aos bichos, ela ainda destaca o perigo da situação em que o pastor alemão foi colocado.

"Você vê na gravação as pessoas com casacos pesados. O bicho tem pelo, mas ele tem frio também. Eles colocaram a vida do bichinho em risco. Se fosse um gato já teria infartado. gato é super sensível. Poderia ser muito pior do que foi. Então qualquer justificativa não vai colar. Eles erraram e ponto". 

Fernanda Barros, presidente e fundadora do Projeto Segunda Chance, uma associação que realiza o trabalho de recuperação física e emocional de cães e gatos, também destaca o sofrimento enfrentado pelo bicho. "As consequências para o cachorro são um trauma muito grande. Fica claro que ele foi forçado a fazer algo que não queria".

Ela diz que não foi convencida pelas justificativas divulgadas pela equipe que trabalhou no filme. "Provavelmente o cachorro foi escolhido pela aparência. Pelo vídeo dá para ver que não tiveram o mínimo de cuidado nem respeito pelo animal. Ele foi usado como um objeto, só que ele é uma vida. Ali mostra muito o que a gente vê no dia a dia. Por isso temos 30 milhões de bichos abandonados nas ruas", compara.

Fernanda diz que estava feliz e ansiosa por acreditar que finalmente veria um filme mostrando o animal como um ser que ama e não um objeto. "Chorei que nem louca quando assisti o trailer, estava contando os dias para assistir. Mas agora estou decidida que não darei meu dinheiro para quem lucra com sofrimento. As pessoas sempre tentam achar uma justificativa, inclusive nos acusando de radicais. É tudo desculpa esfarrapada e o bem-estar do animal fica por último como sempre."

Outro lado

A Universal Pictures, distribuidora de "Quatro Vidas De Um Cachorro", conduz uma investigação ao lado da Amblin Entertainment, que produziu o filme. Em uma nota enviada à imprensa, a Universal garante que todos os protocolos foram seguidos e que Hercules, o pastor alemão que aparece no polêmico vídeo, está "feliz e saudável".

Enquanto isso, o autor do livro e roteirista do filme W. Bruce Cameron, o produtor Gavin Polone e a empresa que forneceu o pastor alemão para as filmagens se posicionaram, reforçando a questão de que o vídeo divulgado pelo TMZ foi editado para que parecesse que fosse apenas um take, sendo que foi gravado separadamente.

As datas de estreia estão mantidas em todos os países. Até agora, o cancelamento da pré-estreia do filme e de entrevistas com o elenco nos Estados Unidos foi a única consequência para "Quatro Vidas De Um Cachorro". Resta ao estúdio e à distribuidora aguardarem os resultados nas bilheterias.

Veja o comunicado da Universal na íntegra:

"'Quatro Vidas De Um Cachorro', produzido pela Amblin Entertainment e distribuído pela Universal Pictures é uma celebração dos momentos especiais entre os humanos e seus cachorros. E, com esse espírito, a produção da Amblin seguiu rigorosamente os protocolos para assegurar um ambiente seguro e ético para os animais envolvidos. Enquanto seguimos analisando as circunstâncias mostradas na filmagem editada, a Amblin está confiante de que um grande cuidado e preocupação foram mostrados ao pastor alemão Hércules e também a todos os outros cachorros que participaram do filme. Foram vários dias de ensaio das cenas realizadas na água para garantir que Hércules se sentisse confortável com as gravações. No dia da filmagem, Hércules não quis gravar as imagens retratadas no vídeo divulgado, portanto, a equipe da Amblin não continuou as filmagens da cena. Hércules está feliz e saudável."