Cinema

Não há ameaça à democracia nem ao audiovisual, diz futuro diretor da Ancine

Divulgação
Sergio Sá Leitão foi indicado pelo ministro Roberto Freire para a diretoria da Ancine imagem: Divulgação

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

A apresentação de "Joaquim", filme brasileiro que disputa o Urso de Ouro do Festival de Berlim, foi palco de uma manifestação da classe cinematográfica nacional nesta quinta-feira (16), em protesto contra medidas do que chamaram de "governo ilegítimo".

O cineasta Marcelo Gomes, diretor do longa, leu uma carta assinada pelos profissionais brasileiros presentes no festival, em que expressam temores de que novas medidas atinjam o setor audiovisual e citam com apreensão a troca da diretoria da Ancine (Agência Nacional de Cinema), com dois novos membros a serem anunciados em breve.

Indicado no início do mês para a diretoria da Ancine, Sérgio Sá Leitão garantiu: "Na minha visão, não há, na realidade brasileira, nenhuma ameaça à ordem democrática presente e muito menos qualquer ameaça à política de audiovisual."

Ao UOL, o jornalista defendeu o protesto em Berlim e afirmou que a "liberdade de expressão precisa ser valorizada e exercitada sempre", mas pontuou que não concorda com alguns trechos do texto. "O que está na agenda do governo é manter o que há de bom e o que gerou resultados positivos na política cultural implementada nos últimos anos e aperfeiçoar."

Sá Leitão foi diretor da Ancine entre março de 2007 e dezembro de 2008, e terá que ser sabatinado pelo Senado antes de confirmada sua nomeação.

Assim que seu nome foi indicado pelo ministro da Cultura, Roberto Freire, profissionais do setor protestaram contra a escolha. Entidades como a Associação Brasileira de Documentaristas do Rio de Janeiro e o Movimento Reage, Artista! repudiaram o "personalismo, concentração de poder e perseguição aos realizadores cariocas" que o jornalista teria empreendido durante sua gestão na presidência da RioFilme e na pasta municipal de Cultura do Rio.

Sá Leitão minimizou as críticas e diz que pretende resolver os problemas identificados pelos profissionais do setor. "Há problemas e há propostas para resolver, simplificar, otimizar e, com isso, maximizar os resultados da política audiovisual."

Procurada pela reportagem, a Ancine não se manifestou sobre o protesto.

A carta lida por Marcelo Gomes, e assinada também pelos cineastas Laís Bondaznky, Luiz Bolognesi, Daniel Ribeiro, Julia Murat e Daniela Thomas, exalta o trabalho que vinha sendo realizado nos últimos anos, que levou o Brasil a atingir um número de 27 produções participando de grandes festivais internacionais apenas neste início de 2017. 

Leia a íntegra da carta:

Para a comunidade cinematográfica internacional

Estamos vivendo uma grave crise democrática no Brasil. Em quase um ano sob esse governo ilegítimo, direitos da educação, saúde, trabalhistas foram duramente atingidos. Junto com todos os outros setores, o audiovisual brasileiro, especialmente o autoral, corre sério risco de acabar. A diretoria da Ancine (Agência Nacional de Cinema) está agora em processo de substituição de dois de seus quatro diretores, que serão anunciados pelo ministério do atual governo.

O Brasil é formado por uma diversidade étnica-racial-cultural-religiosa e de gênero gigantesca. E a consciência dessa pluralidade tem se mostrado peça-chave na hora de planejar os programas educacionais, econômicos, culturais e de saúde do nosso país.

Na política do audiovisual brasileiro, não foi diferente. Nos últimos anos, a Ancine tem direcionado suas diretrizes observando com atenção esses muitos Brasis. Ampliou o alcance dos mecanismos de fomento, que hoje atingem segmentos e formatos dos mais diversos, do cinema autoral ao videogame; das séries de TV aos filmes com perfil comercial: do desenvolvimento de roteiro à distribuição.

O resultado é visível. O ano de 2017 começou com a expressiva presença de filmes brasileiros nos três dos principais festivais internacionais, totalizando 27 participações em Sundance, Rotterdam e Berlim. Não chegamos a esse patamar histórico sem planejamento, continuidade e diálogo entre Ancine e a classe realizadora, principalmente por meio de duas ações de fomento: a criação de uma lei que obriga os canais de TV a cabo a exibirem 3h30 de programação brasileira e a criação do Fundo Setorial do Audiovisual, que investe em várias linhas, em todos os tipos de audiovisual em qualquer fase de produção.

Entre as políticas do Fundo Setorial, gostaríamos de destacar, em especial, as políticas regionais, o edital de TV pública, o edital voltado para filmes de arte com perfil internacional, os editais e acordos de coprodução internacional.

As ações implementadas incidiram de forma positiva no setor audiovisual, que cresce 8,8% ao ano. Uma taxa superior à média do conjunto dos outros setores da economia brasileira, representando um valor adicionado de 0,54% na economia nacional. Esse percentual é maior do que o gerado pela indústria farmacêutica, de produtos eletrônicos e de informática, por exemplo.

O percurso trilhado nos últimos anos posiciona a Ancine e o Setor Audiovisual em possibilidade de aprimoramento de suas ações, com disposição para o diálogo e desenvolvimento de instrumentos capazes de proporcionar, em um curto espaço de tempo, um programa de ações afirmativas com recorte de raça e gênero em consonância com a pauta global que impõe a necessidade de aprimoramento e ajuste do setor audiovisual para garantia de maior representatividade e participação da população negra e das mulheres. E acreditamos, ainda, que deve ser incrementada uma política de formação de público, artística e técnica para que novas pessoas possam se qualificar e atuar em toda a cadeia da produção audiovisual. Além de uma política de acervo, para garantir condições para manutenção e acesso ao público da grande produção audiovisual brasileira, realizada ao longo de quase um século de atividade.

Tudo que se alcançou até aqui é fruto de um grande esforço do conjunto de agentes envolvidos entre Ancine, produtores, realizadores, distribuidores, exibidores, programadores, artistas, lideranças, poder público, entre outros. Acima de tudo, queremos garantir que toda e qualquer mudança ou aperfeiçoamento nas políticas públicas do audiovisual brasileiro sejam amplamente debatidas com o conjunto do setor e com toda a sociedade.

Assim, pedimos às instituições, produtores e realizadores de todo o mundo que apoiem a luta e a manutenção de todos os tipos de audiovisual no Brasil. Defendemos aqui a continuidade e o incremento dessa política pública.

Assinam esta carta os diretores e produtores dos filmes:

As Duas Irenes (Fabio Meira, Diana Almeida e Daniel Ribeiro)
Como Nossos Pais (Laís Bondaznky e Luiz Bolognesi)
Em Busca da Terra Sem Males (Anna Azevedo)
Está Vendo Coisas (Barbara Wagner e Benjamin de Burca)
Joaquim (Marcelo Gomes e João Vieira Jr.)
Mulher do Pai (Cristiane Oliveira, Graziella Ferst e Gustavo Galvão)
Não Devore Meu Coração! (Felipe Bragança e Marina Meliande)
Pendular (Julia Murat e Tatiana Leite)
Rifle (Davi Pretto e Paola Wink)
Vazante (Daniela Thomas e Sara Silveira)
Vênus - Filó a Fadinha Lésbica (Sávio Leite)

Para a lista completa de assinaturas, com mais de 300 nomes da comunidade cinematográfica de todo o mundo, vá para:
https://goo.gl/qz4Api

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