Filmes e séries

Com filme em Hollywood, escritor Fernando Morais abraça Cuba e o cinema

Karime Xavier/Folhapress
O escritor mineiro Fernando Morais Imagem: Karime Xavier/Folhapress

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

Em tempos de proliferação de notícias falsas na internet, um movimento passa praticamente incólume às lucrativas comédias do cinema nacional. Desde a virada do milênio, dramas biográficos e/ou jornalísticos despontaram como um dos mais ricos e importantes filões da produção brasileira, e um dos grandes responsáveis por isso é o jornalista e autor mineiro Fernando Morais, 70.

Bê-á-bá nas escolas de jornalismo, seus livros-reportagem “Olga”, “Chatô, o Rei do Brasil” e “Corações Sujos” levaram milhões aos cinemas e fizeram dele o que se pode chamar de "escritor pop”. Mesmo rejeitando a alcunha, Morais admite que, após cinco décadas de dedicação às letras, hoje está mais para a sétima arte do que para o mercado editorial.

Entre os projetos cinematográficos engatilhados, está a participação em um documentário sobre a desmobilização das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), a ser se exibido na TV paga. Depois, Morais voará ainda mais alto com a adaptação de "Últimos Soldados da Guerra Fria” (2011), que virará filme em Hollywood pela lente do diretor francês Olivier Assayas.

A história, premiada, acompanha um grupo de espiões cubanos que invade os Estados Unidos nos anos 1990 e, tempos depois, acaba preso, revelando uma intrincada rede terrorista com sede na Flórida e ramificações na América Central.

Ao mesmo tempo em que começa a produção do filme, Morais segue acompanhando o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, algo que faz desde a posse de Dilma Roussef, com o intuito de escrever um livro sobre ele. A política é a mola mestra de Fernando Morais.

Divulgação
Fernando Morais visita acampamento das Farc para produção de documentário Imagem: Divulgação

UOL - Como o livro “Últimos Soldados da Guerra Fria” foi parar no cinema?

Fernando Morais - Eu já tinha vendido os direitos para o Rodrigo [Teixeira, da RT Features, que coproduzirá o filme com a CG Cinema] antes mesmo de começar a escrevê-lo. As pessoas sempre me perguntavam sobre quando sairia, mais por razões políticas, principalmente depois que foi publicado no Reino Unido e Inglaterra. Não sei quando sairá. O direito não é meu mais. Não interferi em nada nem perguntei ou liguei depois.

Muita gente achou que o momento ideal para lançar o filme seria quando os espiões começaram a ser libertados, na mesma época que o livro foi lançado. Mas cinema você não faz da noite para o dia. O Rodrigo me mandou mensagem dizendo que o Olivier Assayas leu o livro, se apaixonou e fez questão de dirigir e roteirizar a história. Fiquei feliz. Gosto muito dele. Acho que não poderia estar em melhores mãos.

Será seu primeiro filme produzido por estrangeiros. O que esperar?

Acho bom poder entrar em contato com o “mundo civilizado” do cinema. É bom do ponto de vista do autor. Do ponto de vista do diretor, acho que também é, principalmente pela capacidade de difusão. É um esquema imenso de distribuição. E é uma história que não é só cubana, mas americana também. Para fazer o livro, fui dez vezes a Cuba, mas também a Miami, Nova York e Washington. Não será um filme somente para o espectador norte-americano e também não é um filme sobre Júpiter. É uma realidade que os americanos manjam.

É provável que o longa saia nos próximos anos, ainda no governo Donald Trump. É uma boa para falar de Cuba?

É muito interessante que um filme como este seja produzido agora. Sobretudo por esta ameaça meio paralela que estamos vivendo da volta da Guerra Fria. Por mais que aparentemente as relações entre Trump e Rússia não sejam hostis, ele é um belicista, um típico personagem da Guerra Fria. E é muito interessante refletir um pouco sobre algo que aconteceu há tão pouco tempo. Faz pouco mais de 15 anos que aqueles espiões foram presos.

Seus livros estão no cinema com frequência e são sempre recomendados por professores de jornalismo. Qual é a receita para ser um escritor/jornalista “pop”?

Olha, se eu tivesse uma receita, estaria rico (risos). Mas acho que há alguns ingredientes para algo virar “pop”. Em primeiro lugar, é preciso algum ineditismo. História todo mundo sabe, e ninguém quer ler só porque foi você quem escreveu. Depois: personagens precisam ser fortes e imprevisíveis. Eles me perguntam por que não faço biografia do Tancredo ou do Juscelino. São personagens fascinantes, mas previsíveis. No primeiro capítulo, o leitor já vai saber como termina. Eu acho que se você consegue personagens cuja história, comportamento e caráter sejam imprevisíveis e diferentes do nosso cotidiano, você já sai na frente. Acho também que você tem que tratar bem o leitor, escrever bem, bonito. No fim, o que todo autor quer é seduzir quem lê. Adoro quando alguém me fala ‘peguei um livro seu, e fui com ele até 3h, 4h da manhã”.

Como se sente como um representante da "literatura pop” que produz jornalismo?

Eu não me sinto um escritor pop. Eu trago a herança de uma geração de repórteres da virada dos anos 1960 para 1970 e começo de 1980. Era um período em que você realmente conseguia investigar. O jornal colocava o repórter três, quatro meses em cima de uma história, pagando salário, hospedagem e tudo mais. Quando dava, você tinha tempo para escrever. Acho que a minha conversão ao que você chama de “literatura pop” no fundo tem a ver com conseguir fazer o que se fazia nas redações de jornal antigamente.

Ismael Francisco/AP Photo
Fernando Morais, Lula e o político cubano Ricardo Alarcón participam de evento em Havana Imagem: Ismael Francisco/AP Photo

É verdade que você quer deixar de ser escritor para focar no cinema?

É verdade. Tenho alguns compromissos, mas só um formal, com a editora Companhia das Letras, para fazer um livro sobre um período específico da vida do Lula, da prisão até o fim do mandato. Não é uma biografia. Só que, desde então, da posse da Dilma para cá, comecei a acompanhar o Lula e a testemunhar um pedaço da história do Brasil de um lugar privilegiado. Pensei: “Como posso escrever esse livro do Lula e não falar do que o país está vivendo?". Seria tratar mal o leitor. E o leitor tem que ser tratado bem sempre. É ele quem paga seu aluguel.

Quando o livro sai?

Estou escrevendo e apurando. Já era para ter saído. Meu editor deve estar bravo comigo. Estou fazendo esforço, mas acho que sai no começo do ano que vem. Ao mesmo tempo, também estou tocando meu blog. Tenho pouco tempo, e não sou exatamente um adolescente. Tenho 70 anos. Mas estou me divertindo com isso. Gostei de ir para a selva na Colômbia e ficar dormindo, fazendo cocô e xixi no mato [para participar do documentário sobre as Farc do diretor Maurício Dias]. Eu, que sou repórter, tirei de letra. Volto lá se precisar. Mas eu faço isso porque gosto e também porque preciso. Sou freelancer, não juntei dinheiro. Sou mais de gastar do que ganhar.

Recentemente, os escritores tiveram uma vitória com o fim da autorização prévia para as biografias. Caso o Brasil siga com governos mais conservadores, acha que a Justiça pode volta atrás?

Acho que sim. Talvez não pela via direta da censura, mas por mecanismos paralelos. Por exemplo, o caso do blogueiro Eduardo Guimarães, que foi preso. Aquilo foi uma intimidação, uma forma de censura. Tenho muito medo de que, apesar da clareza da definição do Supremo, um juiz de uma cidade qualquer tenha outro entendimento. Com essa possibilidade, os editores ficam assustados. Na dúvida, eles passam o livro para o departamento jurídico. E o jurídico vai dizer ‘ih, aqui pode dar processo”.

Isso tudo é um esterilizador para todo mundo que é comprometido com a não fiçção. Se você fizer um livro sobre a Guerrilha do Araguaia, você pode fazer observações que podem desagradar gente de um lado ou do outro. Se o livro for uma “bomba”, o neto de um personagem pode te processar. Há uma insegurança muito grande. Como alguém vai botar US$ 40 mil, US$ 50 mil na sua mão se você vai fazer um livro que um juiz de esquina ainda pode tirar de circulação?

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