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"Girls" mostrou que millennials são geração ferrada, mas que tem esperança

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Allison Williams e Lena Dunham em cena do último episódio de "Girls" Imagem: Divulgação

Natalia Engler

Do UOL, em São Paulo

17/04/2017 01h50

Para quem hoje já tem mais de 30 anos, assistir a “Girls” nem sempre foi das tarefas mais fáceis. A série criada por Lena Dunham, 30, que se encerrou neste domingo (16), muitas vezes conseguiu ser tão irritante quanto os piores representantes da geração millennial (aqueles nascidos entre os anos 1980 e os 2000), da qual se tornou porta-voz (se lembram da declaração da protagonista a seus pais no primeiro episódio? “Acho que posso ser a voz da minha geração. Ou, pelo menos, uma voz, de uma geração”).

Recém-saídas de boas faculdades e filhas de famílias de classe média, as amigas Hannan (Dunham), Marnie (Allison Williams), Jessa (Jemima Kirke) e Shoshanna (Zosia Mamet) surgiram em 2012 como representantes dos jovens que tentam viver uma vida “instagramável” em Nova York --ou qualquer outra grande cidade--, mesmo sem nenhuma grana. Em maior ou menor escala, todas elas tinham a certeza de serem especiais, destinadas a realizar grandes coisas na vida, mas, claro, sendo sempre “autênticas” e “fiéis a si mesmas”. Isso te lembra alguma coisa?

E, claro, tudo isso em um universo bastante limitado, de uma classe média branca e educada, habitando as partes mais hipsters de uma grande cidade --o que rendeu à série muitas críticas sobre a falta de diversidade.

AVISO DE SPOLIER: NÃO CONTINUE LENDO SE VOCÊ NÃO QUER SABER DETALHES DO EPISÓDIO FINAL DE "GIRLS"

Agora, seis temporadas depois, continua não sendo fácil assistir às garotas cometendo os mesmos erros de sempre.

No episódio que encerra a série, Hannah continua sendo Hannah --depois de uma gravidez inesperada, de decidir ter o bebê e de deixar Nova York pelo bem dele, todas decisões que pareciam tirar seu umbigo do centro do mundo, ela volta a seu estado normal de acreditar que ninguém no mundo tem uma vida mais difícil do que a sua, enquanto enfrenta as dificuldades para amamentar, as mudanças em seu corpo e as inseguranças de ser mãe.

Marnie também continua sendo Marnie: com sua própria vida desmoronando, ela resolve ajudar Hannah a criar o bebê e, claro, projeta na amiga seus ideais de perfeição sobre a maternidade, apesar de sua própria existência ser para lá de medíocre.

A boa notícia é que, apesar de continuarem a ser as pessoas autocentradas que foram desde a primeira temporada, tanto uma quanto a outra finalmente consegue colocar sua vida em perspectiva, depois de um dia turbulento, com direito a uma bela lição de moral da mãe de Hannah.

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Imagem: Divulgação

Geração desiludida

Mesmo que por vezes irritante, do começo ao fim a série teve como mérito retratar as desilusões de uma parcela específica da população jovem que, especialmente nos países mais ricos, nasceu em tempos de prosperidade, teve muitas oportunidades enquanto crescia, mas chegou à vida adulta em um dos piores momentos da economia mundial nas últimas décadas.

Para quem não nasceu em berço de ouro ou acertou a sorte no Vale do Silício, significava ver a realidade destruir a ideia de ser uma “pessoa especial”, destinada a ter uma vida interessante e cheia de aspirações, e aceitar que nossa geração tem que fazer essa vida interessante caber em orçamentos sempre mais apertados, enquanto lida com as consequências de todas as más decisões que essas ilusões nos levam a tomar.

Até certo ponto, foi interessante ver na TV garotas cheias de falhas, mas na maioria das vezes era cansativo vê-las repetindo os mesmos erros. Elas se relacionavam com caras babacas ou muito problemáticos, não conseguiam manter empregos por muito tempo porque não eram exatamente funcionárias exemplares, eram cruéis umas com as outras… A lista é longa.

A não ser que a série servisse para nos assegurar de que existe gente com vidas mais ferradas que as nossas, não era fácil seguir personagens que pareciam não evoluir e que não provocavam empatia, especialmente para quem já havia deixado para trás essa fase da juventude.

A certeza de Hannah de que não deveria estar em nenhum emprego “normal” porque era uma grande escritora, mesmo sem dar muitas provas disso; a busca constante de Marnie pela vida “perfeita”; a excentricidade dramática e teatral de Jessa; e mesmo a busca de Shoshanna pelo sucesso profissional quase sempre pareciam, de longe, um grande “mimimi”.

Felizmente, apesar de lento, o amadurecimento chega para quase todos, e “Girls” conseguiu mostrar isso nas últimas temporadas, especialmente nesta sexta e última. Mesmo a desintegração do grupo formado por Hannah, Jessa, Marnie e Shoshanna já era um sinal de que elas chegavam ao ponto de não dependerem mais umas das outras --com exceção, talvez, de Marnie, que chegou ao fim da série ainda se apoiando em Hannah para ter um gostinho de vida "perfeita".

O ponto final colocado por Shoshanna durante seu noivado, no nono episódio, também foi prova disso. Ela mal aparece durante a sexta temporada para surgir noiva de um cara que nem os espectadores nem suas amigas conheciam, porque estava realmente vivendo sua vida, em vez de perder tempo com amizades que, no limite, eram bastante tóxicas.

Hannah também toma decisões melhores, incluindo aí finalmente entender que ela e Adam (Adam Driver) não tinham como ficar bem juntos, além da mudança de Nova York para ter uma vida mais estável como professora em uma universidade no norte do estado. É claro que o último episódio nos lembra que seu narcisismo ainda está bem presente, mas ao menos ela está tentando.

Além de mostrar que mesmo as personagens mais irritantes podem sim evoluir, “Girls” deixa para a televisão o legado de ter colocado na tela gente mais parecida com pessoas de verdade, com problemas reais (embora às vezes tediosos e fora de proporção), corpos reais e fora dos padrões, e cenas de sexo honestas, às vezes boas, às vezes desastrosas, sem meia-luz e trilha sexy. Como na vida real.