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"Joaquim" recria Tiradentes mais sujo e violento do que nas salas de aula

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

20/04/2017 11h34

Esqueça a figura mítica daquele líder de barba e cabelo comprido, impávido mesmo com a corda no pescoço. Após passar três anos preso, Tiradentes provavelmente tinha a cabeça raspada no momento de sua morte em 1792 e teve seus membros cortados e espalhados por aquelas terras como punição. Imagem violenta bastante distante das demais ilustrações pálidas mostradas nos livros de História e que confundiam o diretor Marcelo Gomes quando criança: “Eu achava que se tratava de Jesus Cristo”.

Sem espaço para o romantismo, é a cabeça decepada do mártir da Inconfidência Mineira que filosofa sobre a própria morte logo na primeira cena de “Joaquim”, que chega aos cinemas nesta quinta-feira (20), um dia antes do feriado em sua homenagem. “Não se trata de alguém que os deuses se reuniram para dizer: ‘você vai ser o herói da pátria’. Você vai ser herói a partir das vivências e das experiências que você tem na vida e o que você faz com elas”, observa o pernambucano, diretor de "Cinema, Aspirina e Urubus", em conversa com o UOL.

Em busca de um herói mais terreno, Gomes constrói um Joaquim José da Silva Xavier comum, que possuía escravos, aspirações militares e até mesmo um incipiente ‘complexo de vira-lata’. Filho de português, ele é um alferes, caçador de contrabandista de ouro, que espera ser promovido a tenente da coroa portuguesa, mas que dá de cara com o nepotismo no final do século XVIII.

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"Joaquim": Julio Machado vive um Tiradentes em busca do ouro e de uma carreira militar na corte portuguesa Imagem: Divulgação

Sem documento

Com a documentação oficial resumida à certidão de nascimento e aos autos da devassa da inconfidência mineira, o cineasta seguiu pistas sobre os costumes daquele meio social para explicar a grande virada da história: Como um cidadão pouco altruísta se tornou líder de um dos principais movimentos pela independência do Brasil.

“Ele é um homem de ação, não é um estudioso da USP [Universidade de São Paulo] que fica refletindo sobre as questões políticas da realidade”, ironiza. A aproximação com os intelectuais e representantes do clero local pode ter apresentado as revoluções a Tiradentes, mas o cineasta observa: "É ao lado de mestiços, os índios, os escravos que Joaquim enxerga a face mais cruel da colonização”.

Tão importante quanto Joaquim, Preta, a escrava pela qual o alferes se apaixona e promete a libertar, lidera sua própria revolução quilombola. “Na verdade, [o filme] é sobre mim também. É sobre a origem dessas rejeições sociais”, explica a atriz portuguesa Isabél Zuaa, que emprestou à personagem fictícia seu conhecimento de dança africana e a fluência da língua crioula.

Desde que chegou ao Brasil, há sete anos, Zuaa se perguntava quem era esse Tiradentes que tinha praça em cada cidade. A “A gente só aprende na escola que os portugueses são bravos e valentes homens que gentilmente compartilharam o cristianismo e sua cultura”.

“Parece que o ensinamento da história passa batido em pontos cruciais”, concorda Julio Machado, na pele (e no suor) desse herói reimaginado. “A gente foi entendendo que quase tudo na história oficial é uma invenção, baseado em poucos documentos de fato, mas que mesmo assim, é um documento oficial da coroa, é contado pelo inquiridor.”

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Joaquim (Julio Machado) e Preta (Isabél Zuaa): líderes revolucionários no século XVIII Imagem: Divulgação

Passado feio

Em sua estreia mundial no Festival de Berlim em fevereiro, “Joaquim” saiu sem nenhum prêmio, mas foi elogiado ao estampar na tela um passado sem o tom épico próprio de filmes com temas históricos.

Com a câmera na mão, o diretor invade os espaços e mostra a crueza daquele passado. A imersão foi literal. O elenco pegou carrapato e os carros atolavam diariamente ao levar os atores às locações durante as quatro semanas de filmagem em Diamantina (MG) e entornos. “O passado é sempre muito pomposo. É retratado de forma muito engessada, como se ele ainda não estivesse impregnado no nosso presente”, explica o diretor.

“Os portugueses vieram [ao Brasil] sem família. Essa é a diferença entre a colonização portuguesa e espanhola. E o que eles faziam? Estupravam as escravas. Isso é uma coisa cruel que está presente na nossa cultura. A cada 15 minutos um estupro. É uma sociedade violenta e a gente tinha uma ideia que o passado era romântico”, critica Gomes.

“Precisamos nos olhar no espelho. Brinco com os amigos que assim como você faz análise e fala sobre seus pais, no filme é a mesma coisa. Foi o nascimento da nação.”

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