Festival de Cannes

Almodóvar critica Netflix em Cannes e diz que defenderá cinemas até a morte

Anne-Christine Poujoulat/AFP
Pedro Almodovar, Jessica Chastain e Will Smith integram o júri do Festival de Cannes Imagem: Anne-Christine Poujoulat/AFP

Bruno Ghetti

Colaboração para o UOL, em Cannes (França)

17/05/2017 11h24Atualizada em 17/05/2017 16h06

O Festival de Cannes pode ate ter começado frio em termos de programação (o longa de abertura, “Les Fantomes de Ismael”, de Arnaud Desplechin, causou bocejos), mas teve instantes de alta temperatura já na apresentação dos jurados à imprensa. Sob liderança de um carrancudo Pedro Almodóvar, o júri da competição oficial já entrou de cabeça no que promete ser a principal polêmica do festival este ano: a participação da Netflix na seleção oficial, com dois títulos.

O presidente do júri afirmou nesta quarta-feira (17) que seria um paradoxo que um filme premiado com a Palma de Ouro não pudesse ser visto nos cinemas. "Seria um paradoxo dar a Palma de Ouro a um filme que jamais vais ser visto em uma tela grande", disse Almodóvar, convocando as plataformas de streaming a "aceitarem as regras do jogo" e gerando certa suspeita de que os filmes da Netflix já saem em desvantagem na competição.

Um pouco adiante, a cineasta e colega de júri Agnès Jaoui preferiu amenizar, deixando claro que esse posicionamento não deverá afetar os julgamentos: “Não podemos fingir que a tecnologia não existe. Mas seria um absurdo penalizar esses diretores apenas por causa disso [seus filmes nunca serem exibidos em salas].”

A Netlfix tem dois títulos na seleção principal de Cannes este ano, "Okja" e "The Meyerowitz Stories", o que gerou protestos entre os exibidores franceses, já que os títulos que competem no festival seguem uma tradição de estrear nas salas do país. No entanto, a Netflix se recusa a seguir esta regra, especialmente porque na França os filmes que passam no cinema só podem ir para o streaming após três anos. Os protestos fizeram com que a direção de Cannes decidisse mudar as regras a partir de 2018 e exigir que os filmes selecionados sejam exibidos nos cinemas franceses.

Almodóvar viu a oportunidade de dizer o que pensa sobre o assunto quando uma jornalista indagou uma questão típica de entrevistas coletivas (sobre se achava mais importante ganhar uma Palma de Ouro, que o espanhol ainda não levou, ou ser visto em 190 países). Foi a deixa para o cineasta abordar a questão: “Mais do que ser visto em 190 países, para mim um filme meu precisa sempre ser assistido em uma tela grande”, disse, de maneira inflamada e contundente. Em seguida, leu um pequeno texto, ressaltando a importância para um espectador de assistir a um produto visto na tela grande.

“Não significa que eu não respeite esses filmes [vistos em streaming]. Mas enquanto eu estiver vivo, vou defender a capacidade de hipnose que uma tela grande tem sobre o espectador, algo que as novas gerações não conhecem”, disse Almodóvar, lendo um trecho do documento. “Creio firmemente que, ao menos na primeira vez que uma pessoa vê um filme, a tela não deve ser parte de nosso imobiliário. Devemos nos sentir diminutos, humildes, diante daquilo que vemos.”

O assunto já parecia encerrado quando o ator Will Smith resolveu vir com um “outro lado da moeda”, mostrando um posicionamento não somente bem menos radical que o do presidente do júri, como também algo favorável ao serviço de streaming. “Na minha casa, meus filhos vão ao cinema duas vezes por semana e também assistem à Netflix. Não atrapalha em nada a ida deles ao cinema. São dois meios completamente distintos de consumir entretenimento”, disse o ator.

“Sem a Netflix, meus filhos jamais teriam visto filmes que somente podem ver ali. [Esse tipo de formato] traz uma conectividade com o novo e também com coisas que eles jamais veriam. Isso só ampliou a compreensão global que eles têm das coisas”. Enquanto Smith falava, Almodóvar apenas ouvia, com uma expressão no rosto pouco amistosa.

Mulheres

Tido como um dos grandes diretores de personagens femininas no cinema, o cineasta espanhol surpreendeu quando indagado sobre a questão da representatividade feminina no júri – em varias edições anteriores, Cannes não deu muita importância à visão feminina; elas eram em bem menor número; neste ano, elas são quatro, diante de cinco homens. E ainda são poucas na competição oficial --apenas três filmes na disputa são dirigidos por mulheres.

“Sou suficientemente feminino para que minhas opiniões tenham feminilidade, então a questão seria de qualquer forma considerada [independente da composição do júri]. O mais importante agora são os filmes por si sós. Não interessa a presença de mulheres, gays etc. [nesses filmes]”, disse, decepcionando alguns que esperavam um discurso mais libertário. Mas suavizou um pouco, em seguida. “Mas espero que apareçam”. Mais adiante, porem, falou que não se preocupa com o "politicamente correto". "Sou aberto a qualquer tipo de incorreção".

Em outro instante mais fútil da entrevista, mais uma vez o clima acabou se tornando um tanto constrangedor. Um jornalista quis saber das dificuldades para um jurado se vestir nos dez dias de competição, e citou uma frase de Kirsten Dunst, que disse que, quando foi jurada, teve trabalho com o guarda-roupas, precisando separar 28 modelitos diferentes, entre sessões oficiais e tapetes vermelhos.

"Foi bom saber, porque se ela usou 28, eu vou querer usar 32”, disse Smith, em tom de brincadeira. Mas em seguida, Jessica Chastain disse: “Gosto muito de moda, mas prefiro o cinema. E esse é o foco aqui”. Pode não ter sido a intenção, mas o fato é que, a contragosto, pareceu uma alfinetada em Dunst, em uma entrevista que foi bem mais acalorada do que se imaginava.

O júri da competição oficial ainda conta com os cineastas Paolo Sorrentino ("A Grande Beleza") e Maren Ade ("Toni Erdmann").

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