Festival de Cannes

Cannes chega aos 70 armado contra o terrorismo, mas sem paranoia

Stephane Mahe/Reuters
Policial francês patrulha o entorno do Palácio dos Festivais como parte da operação de segurança para a abertura do Festival de Cannes 2017 Imagem: Stephane Mahe/Reuters

Bruno Ghetti

Colaboração para o UOL, em Cannes (França)

18/05/2017 17h10

Maior e mais badalada mostra de cinema do mundo, o Festival de Cannes começou nesta quarta (17) já mostrando as duas tônicas que deverão predominar até o fim do evento (no dia 28): a celebração e o medo. O festejo é pelo 70º aniversário do festival, que inspirou uma programação especial nos cinemas do balneário francês. Já a insegurança é porque é a primeira mostra desde os atentados terroristas de Nice (cidade a apenas 30 km), em 2016, exigindo cuidados redobrados para prevenir ações semelhantes em um evento de projeção planetária.

A região dos arredores do Palácio dos Festivais, onde se concentram as atividades do evento, é costumeiramente cheia de seguranças, mas neste ano o número é visivelmente maior. Sobretudo na Croisette, avenida à beira-mar que começa em frente ao prédio do Palácio, é facilmente perceptível o aumento de rigor nas precauções visando a proteção de turistas e participantes do festival.

O reforço ali não é à toa: além de sede de alguns dos hotéis mais luxuosos de Cannes e principal ponto turístico da cidade, a avenida tem características que fazem lembrar a Promenade des Anglais, em Nice – foi naquela via litorânea que um caminhão seguiu livremente em alta velocidade, atropelando uma multidão e deixando 85 mortos, em 14 de julho do ano passado, quando se celebrava o feriado nacional do Dia da Bastilha. O incidente foi reivindicado pelo grupo Estado Islâmico.

Alberto PIZZOLI/AFP Photo
Soldados franceses da Operação Sentinela patrulham a Croisette, principal avenida de Cannes Imagem: Alberto PIZZOLI/AFP Photo

Para evitar ação em moldes parecidos, foram incluídas várias barricadas (a maior parte “disfarçada”, em forma de robustos canteiros de flores), em pontos estratégicos ao longo do bulevar. Correntes também foram estendidas em vários trechos, dificultando a passagem de transeuntes de uma pista para a outra da via. E o número de homens fazendo vigilância aumentou bastante, alguns fortemente armados, inclusive com fuzis. 

Investimentos em segurança

O UOL entrou em contato com o Ministério do Interior da França, que se ocupa da segurança pública no país, para saber detalhes sobre medidas de precaução, mas a entidade preferiu não se manifestar, por motivos de confidencialidade no plano de ação.

No entanto, de acordo com recente reportagem da publicação norte-americana “Variety”, o investimento em segurança foi às alturas neste ano. Só a prefeitura de Cannes teria gasto o equivalente a R$ 18,8 milhões com a instalação de obstáculos de ferro retráteis nas entradas da cidade. A mesma revista registra que o espaço aéreo sobre Cannes (que engloba o pequeno aeroporto local) conta com um sistema antidrones e uma movimentação drasticamente restrita, e que o plano de segurança da cidade contou com a ajuda de especialistas em contra terrorismo vindos de Israel.

Tais medidas comprovam que existe de fato uma preocupação com a possibilidade de atentados.

A organização do Festival de Cannes se pronunciou por meio de uma nota, um tanto genérica, mas com clara intenção de tranquilizar os frequentadores do evento.

“O dispositivo de segurança foi, como a cada ano, definido sob autoridade do prefeito dos Alpes Marítimos [departamento onde se localizam Nice e Cannes], juntamente da cidade de Cannes e de todos os serviços territoriais relacionados – as polícias nacional e municipal, a guarda nacional e os serviços de Segurança civil, marítima e aérea”, destaca o comunicado.

“O mesmo dispositivo utilizado em 2016, no quadro do Estado de Emergência [no qual a França ainda se encontra], será reconduzido novamente. As diferentes medidas foram adotadas a fim de garantir uma segurança otimizada aos participantes do festival, com a preocupação de não perturbar o bom desenrolar do evento”, diz ainda a nota, que conclui com a advertência de que procedimentos de segurança, por serem prioridade, podem causar eventuais transtornos e mesmo atrasos no andamento de algumas atividades.

Contratempos

Nem precisava avisar: desde quarta já ficou mais do que claro para qualquer frequentador dos arredores do Palácio que o excesso de revistas e zelo pode mesmo causar congestionamentos – de veículos nas ruas, e de pessoas, nas calçadas. Até os jornalistas, que antes eram apenas revistados sem muito rigor na entrada do prédio, agora precisam se submeter a um procedimento bem mais complexo, que consiste na passagem por um detector de metais, seguida de uma revista nos pertences pessoais (como bolsas) e de uma segunda detecção de metais, feita manualmente por algum funcionário da segurança. Malas ou sacolas de grandes dimensões não entram no prédio. Nas ruas próximas, carros são revistados e têm hora certa para trafegar nos entornos.

Embora nas regiões de Cannes mais distantes do Palácio a aparência seja de normalidade rotineira, ainda assim é possível observar de vez em quando, andando pela rua, grupos de homens armados empunhando fuzis de tamanho imponente. A reportagem já flagrou tais agentes com fuzis fazendo revistas em transeuntes que, aparentemente, não representariam algum tipo de ameaça – ao menos imediatamente visível.

Realizadas por um caráter simbólico ou por suspeitas causadas por motivos confidenciais, o fato é que essas ações por vezes constrangedoras não têm tido rejeição por parte da população – ao contrário, até. Na quarta, dia da sessão de gala de abertura, uma multidão ignorava os riscos de atentados e fazia vistas grossas para a chateação causada pelas dificuldades de se locomover, amontoando-se para ver astros como Marion Cotillard, Louis Garrel e Julianne Moore passarem pelo tapete vermelho.

“Com tantas medidas preventivas? Não tenho medo [de atentado]”, disse uma vendedora de banca de jornais da Croisette, que, no entanto, preferiu não se identificar.

A balconista de uma loja de roupas de luxo na avenida, Dali Hamida, 36, concordou que as pessoas se sentem mais tranquilas. “O número de policiais nas ruas triplicou este ano. Também já trabalhei na produção do festival e já frequento há 20 anos: mudou muito desde o ano passado”, disse. “Até as celebridades agora se sentem seguras, porque desde o ano passado não ficam mais hospedadas na Croisette, mas em locais como o hotel Eden Roc [na cidade vizinha de Antibes], que tem condições de segurança muito mais favoráveis”, contou.

Nesta quinta, segundo dia de festival, a movimentação perto do Palácio foi bem menor, mas o esquema de segurança parecia manter a mesma cautela do primeiro dia. Apesar de cuidadosa, a Cannes septuagenária definitivamente parece distante do sentimento de paranoia.

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