Filmes e séries

Corra!: Diretor queria um terror em que o negro não fosse o 1º a morrer

James Cimino

Colaboração para o UOL, em Los Angeles (EUA)

19/05/2017 04h00

Nos anos 1980, uma das características marcantes do gênero terror e suspense era a seguinte: personagem negro nunca sobrevivia a mais de 30 minutos de filme — quando acontecia, em geral tinha poucas falas. O mesmo acontecia com a “vadia” do grupo. Uma mulher que ousasse ser dona de seu desejo sexual era praticamente um atrativo a mais para o facão de Jason em “Sexta-Feira 13”.

A observação é do professor Douglas Kellner, da Universidade da Califórnia, em seu livro “A Cultura da Mídia”, que analisa os reflexos sociais das eras Reagan e Bush em produtos culturais.

Nesta semana, chega ao Brasil um filme de terror que, ao subverter esta lógica, tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria nos Estados Unidos em 2017. “Corra!” é um fenômeno de crítica e público. Custou US$ 4,5 milhões e, até agora, faturou mundialmente US$ 214 milhões. É a sexta bilheteria americana, até o momento, ficando atrás apenas das grandes franquias, como “A Bela e a Fera”, “Guardiões da Galáxia Vol. 2”, “Logan”, “Velozes e Furiosos 8” e “Lego Batman”.

Reprodução/Flickr/keved
O diretor Jordan Peele Imagem: Reprodução/Flickr/keved

No MTV Movie Awards, um termômetro das preferências dos adolescentes americanos, foi líder com seis indicações — melhor filme, ator/atriz, vilã/vilão, performance de comédia, nova geração e dupla. Logo após sua estreia, em 24 de fevereiro, os produtores começaram a fazer sua campanha para o Oscar, apresentando o filme para os eleitores da Academia. No site Rotten Tomatoes, que compila críticas de filmes, "Corra!" tem 98% de avaliações positivas.

O talento por trás deste sucesso é o comediante de stand-up Jordan Peele (“Mad TV”, “Keanu: Cadê meu gato?”), que neste filme estreia como diretor e roteirista. E embora muitos críticos classifiquem este filme como a história perfeita para representar o racismo da era Donald Trump, Peele contou durante uma entrevista ao UOL, em Los Angeles, que a história começou a ser escrita durante a era Barack Obama.

Segundo ele, após um presidente negro, criou-se a falsa ideia de que o racismo tinha sido superado, mas que o preconceito racial é como um crocodilo, sempre à espreita, com os olhos para fora da superfície, enquanto o monstro continua submerso.

A temática racial, portanto, está presente desde o início do filme — que começa com o protagonista Chris (Daniel Kaluuya, da serie “Black Mirror”), um fotógrafo afro-americano, preparando-se para conhecer os pais de sua namorada branca Rose (Allison Williams, de “Girls”). Mas o que conquista não apenas os negros, como também os brancos, é a originalidade doentia com que o assunto é abordado.

O diretor diz que, quando resolveu escrever “Corra!”, queria dar ao público um herói negro em um filme de terror que não fosse o primeiro a morrer. Ao mesmo tempo, ressaltou, não queria que o longa fosse visto como um tratado de ódio aos brancos. “O que eu adoro neste filme é que você vê a plateia metade branca, metade minoria, e elas têm perspectivas diferentes, experiências diferentes, mas [a partir do momento em que o filme começa] todo mundo se torna o Chris. Todo mundo se vê no protagonista. Este é o poder da história.” Leia a entrevista completa.

UOL - Como surgiu a ideia deste filme?

Jordan Peele - Oito anos atrás, eu estava pensando no que queria fazer da minha carreira. Eu ainda estava fazendo esquetes para o “Mad TV” e pensei que queria fazer um filme de terror. Percebi que havia esse vazio neste que é meu gênero favorito, que é a discussão racial. E isso ficou na minha cabeça. E fiquei pensando que tinha que ser um filme que desse um tapa na cara da sociedade. Então assisti a “Mulheres Perfeitas” outro dia, que é um filme que eu adoro. E este filme faz a discussão de gênero da mesma forma que eu quis fazer a discussão racial com “Corra!”

Divulgação
Daniel Kaluuya e Allison Williams em cena do filme "Get Out" Imagem: Divulgação

O que os brancos têm comentado sobre “Corra!”?
O que acontece é que os brancos parecem estar muito prontos para ver este filme. De vez em quando, eu vejo gente chamando o filme de racista e sei lá mais o que. Mas o que eu adoro neste filme é que a plateia e é metade branca, metade minoria, e eles têm perspectivas diferentes, experiências diferentes, mas [a partir do momento em que o filme começa] todo mundo se torna o Chris [Daniel Kaaluyia]. Todo mundo se vê no protagonista. Este é o poder da história. Então, em última instância, o que acontece é que os brancos acabam vendo o mundo através dos olhos deste afro-americano. E eles gostam desta catarse.

Era algo que você esperava que acontecesse? Quando você pensou no filme, queria que ele fosse uma experiência em que os brancos se olhassem no espelho ou um filme em que os negros vissem e pensassem: “Eu sei como é se sentir assim…”?
Eu pensei nos dois. Pensei que se eu desse aos negros um filme de terror pelo qual eles anseiam por tanto tempo…

Mas em que não morressem na primeira cena…
Exato! Em que o cara negro não fosse o primeiro a morrer, ou em que o cara negro conseguisse chegar até o fim. Mas voltando, eu ao mesmo tempo não queria que fosse um filme que os brancos vissem como um filme de ódio contra eles. Por isso “Mulheres Perfeitas” foi uma referência tão importante para mim. Eu adoro aquele filme. E eu não o assisto pensando que estou sendo vilipendiado por ser um homem. Simplesmente porque não me identifico com os caras maus do filme. Você se identifica com o herói do filme, quem quer que seja, que no caso é a Nicole Kidman. Eu sabia que o público não se identificaria com os vilões do filme só porque eles têm a mesma cor de pele.

Mas eles se identificam com o que há de real na história, certo?
A emoção do personagem é real. Nós temos as mesmas emoções, mas em contextos diferentes. Por isso que, com a primeira cena deste filme, quis dar ao público não negro o contexto de como é se sentir com medo da maneira como nós nos sentimos ao nos encontrarmos em uma vizinhança “errada”.

Este filme obviamente representa o espírito do que está acontecendo nos EUA e no mundo. Você vê este reflexo em outros filmes de terror?
O terror sempre reflete o espírito de uma época. Logo após o 11 de Setembro, ficou muito em voga o gênero que se chamou de “porn torture” [filmes de terror envolvendo tortura e mutilação, como “O Albergue”]. Este filme certamente fala sobre o medo da xenofobia que estamos vivendo neste momento. Acho que muitas alegorias no meu filme não fariam tanto sentido dez anos atrás como fazem hoje.

No filme alguns personagens dizem coisas como “eu votaria no Obama uma terceira vez” ou “eu gosto do Tiger Woods”, que são expressões que as pessoas usam na tentativa de provar que não são racistas. Aconteceu muito contigo?
Esta é uma parte muito presente da experiência afro-americana, ou melhor, das minorias em geral neste país. Eu diria que é parte das questões de gênero também. É o que geralmente acontece quando você está entre um grupo de pessoas do qual você não faz parte. E elas tentam se conectar contigo através do que elas veem, no caso sua cor de pele. E quando acontece o tempo todo você sente que você não está sendo considerado um ser em sua totalidade. Você não é visto como uma pessoa, mas como uma raça ou cor. Então, sim, já passei muito por isso.

Hoje muita gente se sente confortável em dizer abertamente que é racista ou que odeia este ou aquele grupo de pessoas, tudo em nome de uma deturpação do conceito de liberdade de expressão. Como você vê esse fenômeno?
Eu vejo o racismo como um crocodilo. Um monstro boiando na superfície, à espreita. Durante a era Obama, havia esta negação do racismo. Temos um presidente negro, logo, o racismo acabou. Foi exatamente quando eu escrevi este filme. Estas pessoas que hoje se sentem à vontade para expressar isso são os olhos do crocodilo saindo da superfície. Não é violento, como quando a pessoa diz “eu gosto do Tiger Woods”. Parece bonitinho, mas pra mim soa como esse monstro escondido sob a superfície da água, que não é nada bonitinho. O interessante é que a palavra racista nos Estados Unidos ainda é um tabu. Veja a Ku Klux Klan. É um grupo de ódio que diz: “Não somos racistas, apenas acreditamos no nacionalismo branco.” Dito isto, as ideias racistas têm ganhado muita plataforma. Há um orgulho racista. A única coisa boa disso é que estamos discutindo. E é isso que este filme faz.

No Brasil temos um vereador que é negro e gay, que abertamente diz que racismo e homofobia não existem. Aqui nos Estados Unidos tem o Milo Yannopoulos, que é gay, faz comentários horrivelmente transfóbicos e que virou ícone do movimento de extrema direita. O que você acha deste outro fenômeno?
Eu não gosto de dizer que as pessoas deveriam ser isto ou aquilo. Estar orientadas por esta ou aquela doutrina. Dito isso, eu chamo este fenômeno de Síndrome de Estocolmo. Em certo ponto você acaba acreditando nas pessoas que te privam do poder, porque é mais fácil de operar neste sistema daquele jeito. É um tipo de oportunismo.

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