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Na Colômbia, "Narcos" mexe em feridas que ainda não cicatrizaram

Wagner Moura interpretou o traficante Pablo Escobar nas duas primeiras temporadas de "Narcos" - Divulgação
Wagner Moura interpretou o traficante Pablo Escobar nas duas primeiras temporadas de "Narcos"
Imagem: Divulgação

Natalia Engler

Do UOL, em Bogotá (Colômbia)*

04/09/2017 04h00

Quem anda pelas ruas tranquilas e cheias de turistas do centro de Bogotá pode esquecer facilmente que a Colômbia emergiu há bem pouco tempo de um dos momentos mais sangrentos da história recente da América do Sul --estimativas conservadoras dão conta de que apenas Pablo Escobar foi responsável por ao menos 4.000 assassinatos.

De fato, os visitantes só são lembrados que este é o país dos cartéis de Medellín e de Cali, das Farc e de outras guerrilhas quando se deparam com o policiamento e a segurança privada fortemente militarizados que ainda se espalham pela capital.

Mesmo os colombianos hoje fazem um esforço para deixar as memórias daquele período para trás, especialmente depois do acordo de paz com as Farc no ano passado, e preferem olhar com otimismo para o futuro. Mas produções como “Narcos” --cuja terceira temporada acaba de estrear na Netflix, e que enfoca a guerra do governo colombiano e de seus aliados americanos, contra os cartéis-- tornam as coisas um pouco difíceis.

“Isso aconteceu nos anos 1980 e 1990, Pablo Escobar foi morto em 1993. Estamos em 2017, 20 anos depois, e estamos cansados desse tipo de história”, acredita Nicole Lesmes, 25, guia de turismo formada em antropologia e história. “Temos que reconhecer que Pablo Escobar e os cartéis são parte da nossa história, é verdade. Mas agora estamos tentando construir algo diferente, fora do estereótipo, outra reputação. A Colômbia é mais do que isso. Mas entendo o interesse”, diz ela, que conta que os turistas em geral têm se interessado mais em conhecer a história dos cartéis desde a estreia da série, em 2015.

Cerco do Exército Colombiano ao Palácio de Justiça, em Bogotá - AP - AP
Cerco do Exército Colombiano ao Palácio de Justiça, em Bogotá, que foi atacado por guerrilheiros do M-19 em 6 de novembro de 1985. Mais de 100 pessoas morreram, incluindo 11 ministros da Suprema Corte, e suspeita-se que Pablo Escobar estivesse por trás da ação, com o objetivo de destruir provas contra si
Imagem: AP

E os números confirmam: no primeiro semestre de 2016, após a estreia da temporada, o número de estrangeiros que visitaram Medellín teve um crescimento sem precedentes, de 60% em relação ao mesmo período do ano anterior, de acordo com o Convention and Visitors Bureau da cidade.

“Quando você pergunta aos turistas o que eles sabem sobre a Colômbia, eles dizem que assistiram a 'Narcos' na Netflix. 'Narcos' é uma série muito popular, e de alguma forma a Colômbia está se tornando mais popular no exterior por causa disso, o que é muito bom, traz mais turistas para cá, porque as pessoas querem ver as locações de 'Narcos', querem conhecer os lugares e a história. Isso é bom. Mas a Colômbia não é só isso”, argumenta.

Outro ponto que parece incomodar os colombianos é o fato de a série adotar um ponto de vista mais próximo dos norte-americanos, pois é narrada por agentes da agência antidrogas dos EUA. “As pessoas geralmente não gostam porque é a versão americana. Para mim, é 60% ficção”, diz Nicole, que assistiu ao primeiro episódio, mas não gostou.

Ainda, assim, para outros, em meio a inúmeras produções já feitas no país sobre o universo dos cartéis nos últimos anos, “Narcos” é a versão que mais se aproxima da realidade.

“As pessoas gostam que tenha um foco diferente, mas, em geral, 'Narcos' não agrada muito os colombianos”, acredita a jornalista Maria Angelica Camacho, 22. “Por exemplo, minha avó diz que não é a história real, que não foi assim. De alguma maneira, nossos avós, as pessoas mais velhas viveram aquele momento, e dizem que a série não conta toda a história, fazem só para vender. Mas dizem que 'Narcos' é a que mais se aproxima da realidade”.

Maria Angelica, que não viveu os anos da guerra aos cartéis, se incomoda que a Colômbia ainda seja lembrada no mundo todo por esses acontecimentos. “Essa parte do narcotráfico, crimes, Farc, guerrilhas, são coisas que eu, como colombiana, não gosto. Não gosto que as pessoas de outros países sempre perguntem só sobre isso. A Colômbia é muito mais. Não tem porque falar só disso. Não dá para negar, porque faz parte da história do país, mas tem outras coisas. É algo que aconteceu, que temos que saber, mas que já passou”, acredita.

Políticos incomodados

“Narcos” causa incômodo inclusive em instâncias políticas, apesar de o ex-presidente César Gaviria, que governou o país durante a caça a Escobar, ser um entusiasta da produção --ele inclusive esteve presente na pré-estreia da terceira temporada, em Bogotá, na última quarta-feira (30).

Luis Carlos Galán - Daniel Daza/Netflix - Daniel Daza/Netflix
"Narcos" reproduziu na primeira temporada a morte do candidato à presidência Luis Carlos Galán, assassinado a mando de Pablo Escobar em 1989
Imagem: Daniel Daza/Netflix

Outros políticos, no entanto, não vêm com os mesmos bons olhos. O atual presidente Juan Manuel Santos, que chegou a se encontrar com o CEO da Netflix Ted Sarandos antes do início da produção e diz gostar da série, não ficou nada contente quando a empresa instalou um outdoor enorme em Madri no ano passado, estampado com o rosto de Wagner Moura caracterizado como Escobar. “A série é muito boa, teve êxito no mundo inteiro. Mas acontece que nós colombianos vivemos esse drama e sempre sofremos com essa memória. Dói quando nos fazem lembrar”, declarou, à época.

O incômodo chega ao ponto de a prefeitura de Cartagena, na costa norte do país, ameaçar proibir as filmagens de “Narcos” por lá no início do ano, alegando que não queria a imagem da cidade associada ao narcotráfico e à violência. “O que exigimos é que não usem monumentos e símbolos históricos da cidade como pano de fundo de uma série sobre narcotráfico e que mostre Cartagena como sede de drogas”, disse o prefeito Manuel Vicente Duque. A situação só foi contornada porque a cidade foi usada apenas para representar paisagens caribenhas de Curaçao.

Recentemente, o ex-prefeito de Medellín Sergio Fajardo, pré-candidato à presidência da Colômbia em 2018, também publicou um artigo no New York Times dizendo que “‘Narcos’ é uma versão light de uma realidade profundamente complexa”, e que a produção da Netflix colocou a cidade novamente sob os holofotes pela perspectiva de Escobar e “de seu mundo de criminalidade e barbárie”.

Os colombianos de “Narcos”

Mas os colombianos que estão envolvidos em “Narcos” não concordam que a série traga uma visão superficial dos acontecimentos.

“Acho que a série faz um trabalho excelente em mostrar a complexidade daquela guerra”, acredita o cineasta Andi Baiz, 42, único colombiano a dirigir episódios de “Narcos”, que também é produtor da série. “Acho que as pessoas do mundo todo agora admiram nosso país de uma forma diferente. Elas procuram no Google para entender o que é verdade e o que não é. Têm uma visão muito mais rica do nosso conflito. Então, os estereótipos meio que desaparecem e se transformam em uma situação complexa. Acho que 'Narcos' fez isso pelo país”.

Taliana Vargas - Juan Pablo Gutierrez/Netflix - Juan Pablo Gutierrez/Netflix
Taliana Vargas, interpreta Paola Salcedo, mulher do chefe de segurança do cartel de Cali na terceira temporada de "Narcos"
Imagem: Juan Pablo Gutierrez/Netflix

A atriz e ex-miss Colômbia Taliana Vargas, 29, que está no elenco da terceira temporada de “Narcos”, concorda. “Nem todo país do mundo tem a oportunidade de contar sua história, e estamos fazendo isso através dessa série que é tão popular no mundo todo. Tem muita gente dizendo que não conhecia os detalhes das coisas horríveis que nós passamos, e que agora estamos em um nível totalmente diferente. Eles admiram o trabalho que estamos fazendo como país”, argumenta.

É claro que eles entendem que revisitar esses momentos bastante violentos não é fácil para muita gente, especialmente quem viveu aquela época.

“Acho que as opiniões [dos colombianos sobre ‘Narcos’] são muito divididas, e quem não gosta é porque sofreu com isso. É difícil ver e sentir isso de novo”, diz Taliana. “Eu era muito nova, mas meu marido é de Cali, e toda a sua família migrou para os Estados Unidos porque não dava para ficar lá. Havia sequestros, havia muita coisa. Todo mundo tem uma história triste sobre aquele período”, conta.

País diferente

Baiz concorda, mas pondera que não se pode jogar o passado para debaixo do tapete. “É difícil revisitar essa história, reabrir feridas do passado, mas acho que é necessário, que é algo que não podemos enterrar. E o fato de que filmamos na Colômbia, não em qualquer outro lugar, com atores colombianos e latinos, faz com que a série seja muito autêntica. E mostra como a Colômbia progrediu daquele momento até agora”, diz.

“Acho que não podemos abafar nossa história, e que podemos aprender com ela. Eu vivi essa parte da história da Colômbia, mas tem tantas gerações agora que não viveram. Elas assistem a 'Narcos' e ficam surpresas com como o país mudou de lá até aqui”, completa o diretor.

“São coisas que não queremos fazer de novo, e é por isso que temos que falar sobre elas e olhar para trás um pouco para lembrar que esse não é o caminho, que temos que continuar nos mobilizando para mudar nosso país”, concorda Taliana. “Acho que estamos fazendo isso. Somos um país diferente hoje, é por isso que vocês estão aqui, nos visitando e se apaixonando pela cultura e pelas coisas maravilhosas que a Colômbia pode dar ao mundo”, conclui.

 

* A jornalista viajou a convite da Netflix