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"Mãe!", filme de terror com Jennifer Lawrence, é vaiado em sua 1ª exibição

Jennifer Lawrence em cena do filme de terror "Mãe!" - Divulgação
Jennifer Lawrence em cena do filme de terror "Mãe!" Imagem: Divulgação

Bruno Ghetti

Colaboração para o UOL, em Veneza (Itália)

05/09/2017 10h30

Um urro de sonoras vaias. Foi de maneira nada discreta que o aguardado filme “Mãe!”, do norte-americano Darren Aronofsky, foi recebido pela imprensa em sua primeira exibição oficial, no Festival de Veneza. O longa, estrelado por Jennifer Lawrence e Javier Bardem, chegou à cidade italiana como forte candidato ao Leão de Ouro, mas depois de uma recepção tão negativa passou a ser um azarão na disputa.

Aronofsky retoma --e leva às últimas consequências-- o estilo sombrio de narrativa que já havia proposto (com resultados bem melhores) no filme “Cisne Negro” (2010). Lawrence e Bardem interpretam marido e mulher que vão morar em uma mansão no meio do nada: ele é um famoso escritor que enfrenta uma terrível crise criativa, o que o deixa nervoso e, sua mulher, frustrada. Mas mesmo na paz do campo, ele não consegue voltar a escrever. Um dia, porém, um casal estranho e intrometido (Ed Harris e Michelle Pfeiffer) aparece e se instala no local, trazendo de volta a inspiração ao escritor. Por outro lado, são uma fonte de problemas para a personagem de Jennifer, que queria apenas uma vida tranquila ao lado do marido.

A partir da chegada do casal, a trama ganha cada vez mais contornos de pesadelo, com invasores cada vez mais perigosos e violentos adentrando a mansão. A casa parece ter vida própria, as paredes têm pulsação interna, e quando o chão é desgastado, dá a impressão de sangrar. Parece exercer alguma força inexplicável sobre a personagem de Jennifer, que quase não consegue reagir às forças invasoras. Em um segundo momento na trama, grávida de nove meses, ela tem a preocupação adicional de desviar dessas presenças ameaçadoras para garantir que seu bebê sobreviva. O filme é misterioso, e o público só aos poucos vai entendendo melhor (ou não) do que tudo se trata.

“Não quis fazer o público se sentir à vontade, assim como a personagem de Jennifer nunca está: jamais sabe o que está para acontecer”, disse Arronofsky à imprensa, sobre sua principal intenção com o filme. “Este filme foi uma experiência estranha. Meus filmes demoram muito para acontecer, alguns tomaram dez anos ou 12 anos. Este demorou cinco dias”, disse, sobre o tempo que gastou para escrever o roteiro.

Conservador?

Apesar das vaias, a imprensa internacional publicou críticas elogiosas. E nos primeiros momentos, “Mãe!” de fato prende a atenção, mas a demora por algum tipo de explicação convincente o torna um tanto exaustivo. Em seus melhores momentos, o longa tem uma atmosfera de paranoia que evoca a de “O Bebê de Rosemary”, mas no geral não se distancia muito dos filmes de terror mais rotineiros sobre casas amaldiçoadas. E traz um problema a mais, que é o grande ponto negativo do filme: jamais é claro em suas intenções.

Diante de tantos filmes com referências diretas e engajadas à problemática dos refugiados e imigrantes nesta edição de Veneza, é quase impossível não tomar “Mãe!” como uma alegoria referente a essa questão. A impressão de que o filme de Aronofsky passa é de que é favorável à xenofobia. Certamente não foi a ideia original, mas o filme pode facilmente ser interpretado como uma defesa da propriedade privada, do individualismo e da manutenção da ordem. Se somarmos isso a um subtexto altamente machista, aí temos em “Mãe!” uma obra conservadora, em posição radicalmente oposta a tudo que de mais importante Hollywood tem produzido nas últimas temporadas.

Mas a intenção do cineasta, ao que parece, não foi essa. Na conversa com a imprensa, deixou escapar que seu desejo foi algo mais próximo de criticar o narcisismo e a vaidade do escritor, que pensa muito mais em si que nos problemas da mulher, mas sem detalhar demais. “A ideia de fazer o filme veio de viver neste mundo de hoje, de ver o que acontece ao nosso redor, mas não ser capaz de fazer nada. Temos ódio e quis canalizar isso para o filme. Saiu de mim em um fluxo. Mostrei para Jennifer e, desde então, começamos a trabalhar no filme”, disse Aronofsky, sem ajudar muito no processo de decifração do significado real de seu longa.

“Não vou explicar todas as metáforas do filme, algumas estão lá para serem buscadas pelo público. Como dica, posso dizer que um dos títulos do filme, enquanto estávamos rodando, era ‘Dia 6’. Então busquem em seus conhecimentos bíblicos para entender melhor onde tudo se dá”, alertou.

Sobre o papel atipicamente passivo em sua carreira --na maior parte do tempo ela está no filme como suporte para o marido artista--, Lawrence comentou: “Foi um personagem completamente diferente e também um lado bem distinto de mim, um lado que ainda não conhecia. Ensaiamos por três meses. Darren me ajudou a entrar em contato com ela. Foi até hoje o papel que mais me fez sair de mim.”

Sobre as vaias a seu filme, Arronofsky explicou: "Há sempre um nível de gostos diferentes. Claro que muita gente não gostará da experiência, é normal. É preciso ter vontade de participar da montanha russa para apreciá-la", disse, serenamente.

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