Filmes e séries

Feito na América: Cruise embarca na obsessão de Hollywood com Escobar e cia

Eduardo Graça

Colaboração para o UOL, em Nova York (EUA)*

14/09/2017 04h00

Pablo Escobar parece estar agora em todos os lugares ao mesmo tempo. E há um motivo para isso: a fixação da indústria do entretenimento pela explosão da cocaína que marcou os anos de 1980.

"Estamos novamente revisitando este momento porque aquela década foi como os últimos dias do faroeste americano", resume Doug Liman, diretor de "Feito na América", um dos filmes dessa safra impulsionada pelo sucesso da série "Narcos" e que chega aos cinemas nesta quinta-feira (14). "Quando você olha para trás, percebe que era um período ainda selvagem. Era uma liberdade fora da lei, impossível de se encontrar hoje em dia nas Américas", ele diz.

Divulgação
Tom Cruise como o piloto Barry Seal de "Feito na América" Imagem: Divulgação

Com Tom Cruise no papel principal, "Feito na América" gira em torno da fantástica história de Barry Seal, um piloto da aviação civil que acaba trabalhando ao mesmo tempo para a CIA e para o cartel de Medellín, transportando drogas da Colômbia para os Estados Unidos e armas de Washington para grupos paramilitares interessados em tirar os sandinistas do poder na Nicarágua nos anos 1980.

Mas Liman também joga o foco de seu filme, inclusive com imagens documentais, para personagens que de fato simbolizaram a década nas Américas: Escobar (papel do colombiano Mauricio Mejía, em versão mais nova e magra do que encarnado por Wagner Moura em "Narcos"), os presidentes Manuel Noriega (do Panamá) e Ronald Reagan (dos EUA), e um certo então governador do Arkansas de nome Bill Clinton. E dá mais espaço a um dos parceiros de Escobar no cartel de Medellín: Jorge Ochoa (Alejandro Edda), que, ao contrário do assustador don Pablo, estabelece uma relação de cumplicidade com Barry.

O piloto da cocaína

As primeiras sequências de "Feito na América", em que se vê Tom Cruise de uniforme de piloto, ajudam a transportar o espectador imediatamente para aquela década: alguém lembrou de "Top Gun" (1986)? "Sabia que seria inevitável essa conexão. Mas aqui o voo é outro. Tom não está se esbaldando em um jato militar, e sim tentando domar teco-tecos. A carga é muito mais valiosa do que o avião, o foco é a cocaína. Como não voltar no tempo e contar esta história para o público de hoje?", questiona Liman.

Divulgação
"Feito na América" é mais uma produção a abordar o universo dos cartéis de narcotráfico nos anos 1980 Imagem: Divulgação

Durante anos, com a proteção tanto da CIA (que o recrutou) quanto do tráfico (com o qual colaborou), Barry Seal capitaneou um grupo de pilotos responsável pelo transporte de toneladas de cocaína da Colômbia para o sul dos EUA, com aviões pequerruchos capazes de despistar os radares americanos. Ficou milionário, se aquartelou com a mulher e os filhos em uma gigantesca propriedade nos cafundós do sudoeste dos EUA, até ser abandonado pelos dois lados.

Ousado, em determinado momento ele chegou a fazer uma triangulação com o apoio silencioso de Noriega. Levava, via Panamá, armas fornecidas pelo governo Reagan para a direita nicaraguense. Depois trocava de carga ao chegar na Colômbia e levava a coca de volta para os EUA, com nova parada na América Central. À época, com o deslanchar da Guerra às Drogas e a decisão do governo Reagan de levar a batalha para os países produtores, os capos do cartel de Medellín passaram a comandar os negócios da Cidade do Panamá e com Escobar no comando, como já mostrado em "Narcos".

"Feito na América" revela que parte das armas enviadas por baixo dos panos à América Central foi parar justamente nas mãos dos traficantes que a usariam depois contra os americanos na Colômbia. "O mais sensacional de filmar esta história na Colômbia é que todos os pilotos locais que encontrei, t-o-d-o-s, voaram para o cartel", diz Liman. "E é por isso que Pablo Escobar parece estar em todos os lugares, porque foi um personagem real e singularíssimo. De novo me vem a imagem do último respirar de uma terra sem lei. Escobar, afinal, sempre fugia, escapando das autoridades".

O diretor frisa que o Barry de Cruise não é um soldado do tráfico, e sim um freelancer no mundo do vale-tudo do crime. "Entendemos que Barry não era um vilão clássico, não era um Escobar, e sim algo como o Sedex do submundo. Para ele, não importava o que estava carregando, desde que o pagassem bem. Ele é a celebração de uma vida que não se limitou às regras, em um momento em que isso ainda parecia ser possível. Olha aí um dos motivos para a gente estar agora tão interessado em reviver este aspecto nada edificante dos anos 1980, nas Américas do Sul e do Norte".

Foras da lei

Divulgação/Netflix
Cena da terceira temporada de "Narcos", que estreou na Netflix no início do mês Imagem: Divulgação/Netflix

"Narcos" de fato impulsionou um novo boom de produções sobre o auge do narcotráfico na América Latina. E para o diretor Andi Baiz, único colombiano a comandar episódios da série, o apelo de personalidades fora da lei é um bom motivo para a indústria ter se interessado em recontar essas histórias. "Todos temos uma fascinação por personagens anti-establishment. Não importa se são drogas, ou se você é um revolucionário, ou um ambientalista que tenta parar um navio enorme no meio do oceano. É com este sentimento anti-establishment que as pessoas se identificam", acredita ele.

Atração do último Festival de Cinema de Toronto, o filme "Loving Pablo" é outra produção que vem nesta esteira: dirigido por Fernando León de Aranoa, o longa que estreia por aqui em 14 de dezembro parte da biografia da jornalista Virginia Vallejo (vivida por Penélope Cruz) para contar sobre o surgimento do cartel de Medellín e o protagonismo de Escobar (Javier Bardem).

Peter Friedlander, responsável pelas produções originais da Netflix, está certo de que essa tendência ainda vai continuar por algum tempo. "Em Hollywood, você vê modas depois que uma série ou um filme sai, e daí outros profissionais apresentam outras abordagens para aquele tipo de história, ou atores querem interpretar aqueles papéis. 'Narcos' não foi a primeira e acho que não será a última produção a abordar histórias dos chefões do tráfico".

* Com Natalia Engler, em Bogotá (Colômbia)

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