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"Guia Politicamente Incorreto": Escritores se dizem enganados por série

Reprodução
O jornalista e escritor Lira Neto é um dos que acusa a produção da série "Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil" de falta de transparência Imagem: Reprodução

Do UOL, em São Paulo

23/10/2017 13h00

Historiadores, jornalistas e escritores que deram depoimentos para a série "Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil", que estreou no sábado (21) no History Channel, decidiram retirar sua participação no programa alegando que houve falta de transparência nas gravações.

Lira Neto, biógrafo da cantora Maysa e do ex-presidente Getúlio Vargas, foi o primeiro a se manifestar, na sexta-feira, dizendo-se ludibriado por não ter sido informado de que tipo de produção estava participando. Depois dele, também manifestaram o mesmo sentimento o escritor Laurentino Gomes ("1808") e a antropóloga Lilia Schwarcz, mas a lista não para de crescer.

Baseada nos livros escritos pelo jornalista Leandro Narloch, a série é apresentada pelo youtuber Felipe Castanhari. Em entrevista ao UOL, Castanhari defendeu o ponto de vista dos entrevistados. 

"No dia de estreia do programa acabou chegando em mim a questão do Lira Neto. Na mesma hora entrei em contato com o Matheus Ruas, que disse que foi um grande mal-entendido e que iria resolver. Um dia depois vi que outros profissionais também haviam se manifestado a favor do Lira, dizendo terem passado pela mesma situação. E eles estão certos, quem participa precisa saber do que está participando, é de direito do entrevistado saber em qual veículo será veiculado ou para qual propósito sua entrevista será utilizada", afirmou o youtuber.

"Repito aqui o que o Narlock já disse, eu imaginava que todos os 55 entrevistados sabiam qual era o objetivo das entrevistas, uma vez que as entrevistas exigem aprovação formal, que todos os entrevistados assinaram. De qualquer forma, estou aguardando um retorno do canal e da produtora que conduziu as entrevistas, para saber qual a posição deles. Na minha opinião, o correto seria retirar os depoimentos dos que não se sentiram confortáveis. Tenho certeza que a produtora fará de tudo para manter o nível do programa, que está excelente!", completou Castanhari,

Segundo novo post de Neto em seu Facebook, o jornalista Thales Guaracy e as historiadoras Mary Del Priore e Isabel Lustosa também não foram informados do formato da série.

"Falei com o diretor/entrevistador da série, Matheus Ruas, que enfim reconheceu o erro ético e, para remediar a barbaridade, comprometeu-se a retirar minha participação dos episódios, bem como eliminar qualquer menção a meu nome no material de divulgação", escreveu Neto. "Falei também com o próprio Leandro Narloch, que se disse 'revoltado' com o procedimento do entrevistador, considerou o fato 'lamentável', pediu-me desculpas e disse que escreverá pessoalmente a todos os atingidos, 'concordando com a reclamação e com o pedido' de retirá-los da série".

Na publicação original, Neto contava que, à época da gravação, foi informado de forma genérica de que estava participando de uma série sobre a história do Brasil, e que Ruas pediu "explicitamente para responder às questões como se, do outro lado da lente, sentado na poltrona, estivesse o Homer Simpson". O escritor relata que só soube agora em que série seu depoimento seria veiculado.

"Sinto-me violentado em fazer parte de qualquer produção que recorra à superficialidade e ao polemismo fácil. Neste momento em que se confunde jornalismo com entretenimento, bravata com reflexão, inconsistência com leveza, creio que seja necessário reafirmar o compromisso com a responsabilidade e o rigor da pesquisa histórica", escreveu.

Reprodução
O youtuber Felipe Castanhari no programa "Guia Politicamente Incorreto" Imagem: Reprodução

Laurentino Gomes respondeu aos comentários de neto em seu Twitter dizendo que o mesmo ocorrera com ele e que depois recebeu um pedido de desculpas do History. Em entrevista ao jornal "O Globo", Lilia Schwarcz disse que o canal retirou sua participação. "Eu liguei, conversei com eles e disse que com esse título não seria possível participar. Não é uma abordagem que nos representa. Eu gostei muito da equipe de produção, mas não me disseram qual era o programa. É uma abordagem sensacionalista", afirmou.

Narloch usou seu Facebook para se manifestar e se disse "bastante frustrado". "Fiquei muito triste ao saber disso, mas entendo a queixa dos entrevistados e concordo com o pedido [de retirar os depoimentos]. Quem participa precisa saber do que está participando. O entrevistado tem todo o direito de saber com quem está conversando e qual o objetivo da entrevista - não só para decidir se aceita falar, mas para moderar suas opiniões", escreveu.

"Desde o começo, o History tomou a ótima decisão de ouvir gente com convicções políticas diferentes das minhas e incluir declarações que até contrariavam o que eu afirmo no livro. Adorei essa ideia. Com tanta intolerância à divergência de ideias hoje em dia, nada melhor do que criar um debate elegante sobre temas delicados da história do Brasil. E acredito que esse trabalho foi feito: a série está excelente, divulga muito bem a história do país para os brasileiros mais jovens. Mas eu imaginava, é claro, que todos os 55 entrevistados sabiam qual era o objetivo das entrevistas. Até porque a entrevista exige aprovação formal, que todos os entrevistados assinaram. Como há alguns anos eu insisto em livros e artigos, há verdades que precisam ser ditas. Pedi ao History para acatar o pedido dos entrevistados e retirar os trechos em que aparecem. É uma pena, pois sem as declarações deles o debate empobrece. Apesar dessa mancada, a produtora fez um programa ótimo e acredito que conseguirá reeditar os episódios mantendo a série rica e divertida", completou.

A reportagem do UOL tentou contato com o diretor Matheus Ruas, mas não teve um retorno até o momento da publicação. Em nota, o History Channel afirmou que está apurando o ocorrido junto à produtora Fly, responsável pela série. Veja a nota:

A série inclui opiniões diferentes, algumas que contrariam as afirmações do livro. O History conseguiu criar um programa jovem, relevante, com mais de sessenta historiadores e jornalistas com argumentos e visões divergentes. O History acredita que a tolerância e o diálogo devem prevalecer. Cortar alguns dos entrevistados certamente empobreceria o debate e o equilíbrio que o canal busca com a série.

Todos os entrevistados assinaram a autorização de uso de imagem. Ainda assim, o History está esclarecendo a situação com a produtora Studio Fly e se manifestará oportunamente.

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