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Anti-"13 Reasons Why", filme revela universo de cantor suicida de 16 anos

Músico como Yonlu, o ator Thalles Cabral dá vida a jovem gaúcho -  Rodrigo Marroni/Divulgação
Músico como Yonlu, o ator Thalles Cabral dá vida a jovem gaúcho Imagem: Rodrigo Marroni/Divulgação

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

27/10/2017 16h21

Muito antes de “13 Reasons Why” e do jogo da Baleia Azul levantarem a discussão sobre suicídio entre adolescentes, a morte de Yonlu (pseudônimo criado por Vinícius Gageiro Marques, de 16 anos) deixou o Brasil em choque em 2006. Além do tabu em torno do assunto, havia naquele caso um agravante: Yonlu havia sido estimulado a tirar a própria vida por pessoas anônimas na internet.

“Yonlu”, o filme, em cartaz na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, porém, foge de qualquer espetacularização da história. No texto e na imagem, o que importa é externar o universo particular do adolescente, mais do que investigar suas motivações. 

Vinicius, o Yonlu verdadeiro, morreu aos 16 anos - Divulgação
Vinicius, o Yonlu verdadeiro, morreu aos 16 anos
Imagem: Divulgação
“A história está na internet e o filme se propõe a não ir além do que está já foi publicado”, defende o diretor gaúcho Hique Montanari ao UOL. “É uma pincelada no mundo e na produção de um jovem criativo que se foi cedo.”

O cineasta acompanhou o caso desde o fatídico 26 de julho de 2006, quando Yonlu colocou duas churrasqueiras dentro do banheiro para morrer asfixiado por monóxido de carbono – sugestão dada em um fórum secreto onde adolescentes do mundo inteiro trocavam dicas de como conseguir tirar a própria vida de forma bem-sucedida.

Da mesma maneira meticulosa com que planejou seu fim, Yonlu organizou o próprio espólio. Ao invés dos K7 deixados pela personagem principal em “13 Reasons Why”, Yonlu documentou muito de suas angústias em CD's regraváveis, cadernos de ilustrações e poesias e um HD de computador apinhado de músicas – uma valiosa chave de acesso ao seu mundo.

A série da Netflix acabou servindo como um guia do que deveria ser evitado na versão ficcional da história. “Não queríamos cair na glamorização, algo que parecesse com uma romantização do suicídio. O limite é muito tênue, e insinuar isso seria perder o filme”, diz o diretor.

Thalles Cabral em "Yonlu" - Divulgação/Rodrigo Marroni
Thalles Cabral em "Yonlu"
Imagem: Divulgação/Rodrigo Marroni

O fantástico (e brutal) mundo de Yonlu

Fã de Radiohead, Vitor Ramil e John Frusciante, Yonlu gravava suas músicas em um pequeno estúdio montado em seu quarto, onde morava com a família em Porto Alegre (RS). Usava guitarra, teclado, violão e um aplicativo no computador para gravar suas composições. Quase todas em inglês, as as letras versam sobre depressão e desilusão amorosa. Canções como “Humilation” e “Suicide Song” revelam um jovem artista introspectivo, de sensibilidade exacerbada para a pouca idade, mas também um músico de dom apurado e precoce.

Os registros amadores chegaram longe no mundo virtual, lugar em que Yonlu se sentia mais confortável para socializar.  Muitas vezes, a repercussão de suas músicas em outros países parecia adiar definitivamente os planos de suicídio. Postumamente, o disco “A Society in Which No Tear is Shed is Inconceivably Mediocre” foi lançado em mercado internacional pelo selo do músico americano David Byrne.

Foi através do YouTube que o ator e também músico Thalles Cabral (da novela “Amor à Vida”) teve contato com Yonlu pela primeira vez, sem imaginar que um dia interpretaria o ídolo nos cinemas.

“Aquelas canções me tocaram em um lugar muito específico. Quando comecei a buscar mais coisas sobre ele é que eu soube de toda a história. Parece que as músicas ganharam outra força”, conta o ator.

Cabral se cercou dos objetos do próprio Yonlu no set, como CD’s, chapéus e o caderno de anotações. “Tive acesso ao HD, onde havia muitas fotos e vídeos caseiros. Reparei que ele tinha uma postura um tanto formal, adulta demais para a idade”, observa.

As ilustrações do jovem artista deram origem a sequências inteiras feitas em animação, que intermeiam todo o filme com colorido e leveza. Mas é com os textos, reproduzidos na íntegra na boca do ator, que Yonlu revela certa incapacidade de viver em uma sociedade caótica e desorganizada. Cabral, de 22 anos, passou a refletir: “A gente sabe muito pouco sobre as pessoas ao nosso redor”.

 

Vida dupla

Para levar seus planos adiante, Vinicius criou uma fantasia para a família. Aos pais, narrou uma melhora e pediu para fazer um churrasco com os amigos. A ideia de confraternizar com amigos e o suposto interesse em uma “guria” serviram como pretexto para que nenhum adulto estivesse em casa durante o evento. Na internet, porém, Yonlu pedia instruções no fórum. Ele só tinha um dia para se suicidar e não podia falhar.

Montanari retrata o submundo virtual de forma fantasiosa, como um pesadelo. Na ficção, os perfis anônimos ganham corpos sem rostos, que repetem os incentivos. “Eu rastreei algumas coisas do Yonlu no fórum original e o que tinha ali era basicamente fórmulas e receitas para o suicídio”, conta o cineasta.

O psicanalista Mário Corso atendia Vinicius na época e deu suporte à produção. Sua entrevista reveladora à revista “Época” em 2009 é recriada na ficção e dá o contraponto científico à narrativa de tom onírico que permeia pelo filme.

“Sem aquele último estímulo [na internet] ele não teria tido coragem para se matar, como não teve das outras vezes”, disse em 2009, em fala reproduzida no longa.

Serviço:

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1
31/10, às 16:40

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